L'itinérance

“Cinema: It is a ribbon of dreams.” (Orson Welles)

Filme: O Perfume

Ben Whishaw em O Perfume

Há pessoas que têm uma memória icônica formidável; elas guardam imagens e fisionomias com uma incrível riqueza de detalhes ― o que, diga-se de passagem, é algo muito bom. Outras pessoas têm uma memória ecóica fantástica. Guardam sons, timbre de voz, harmonias, melodias, enfim, música… Mozart era alguém assim. Conheço uma pessoa amiga que tem uma incomum memória olfativa. Ela consegue relembrar o cheiro de perfumes; consegue reconhecer o conteúdo presente em pratos especiais, muitas vezes apenas pela apuração do aroma do alimento servido; consegue perceber odores desagradáveis antes mesmo que eles se manifestem realmente desagradáveis para a maioria dos mortais.

O Perfume; A história de um assassino (Perfume: The Story of a Murderer, em inglês) foi o filme que assisti duas noite atrás, e gira em torno de uma incomum habilidade olfativa. Ele descreve a vida de um francês, nascido na caótica Paris da primeira metade do século XVIII. Não obstante, Paris já era notável pela perfumaria. É de conhecimento geral a tradição dos perfumes franceses. Entretanto, em meio a fedores insuportáveis, inclusive de uma mãe que entrega um nasciturno à míngua, num cenário de aborto da natureza um bebê sobrevive exatamente por conta de um incomum poder de cheirar. Ele decifra o cheiro de tudo. Muito daquilo que está completamente fora do alcance dos narizes humanos… Ele capta o cheiro distante; o “distante” de perto e de longe. O mundo dele tem o cheiro como chave hermenêutica. Cheiro de todos e de tudo. Porém, espantosamente, não o seu próprio cheiro. Ele mesmo não tem cheiro!

O menino cresce jogado como uma coisa, e só sobrevive porque uma espécie de providência especial, como que fatalista, zela por ele e o conduz para frente. Todos quantos têm algum tipo de contato mais direto com ele, mais notoriamente os que lhe causam males, a começar pela própria mãe, morrem assim que ele sai daquela cena e ingressa na seguinte. A mencionada “providência misteriosa” ou “predestinação fatalista” o coloca em contato com um renomado perfumista italiano, residente em Paris, onde conduz um negócio completamente declinante. Em seu contato com este perfumista, a vida do rapaz assume um momento novo e decisivo. Aquele é logo impressionantemente chocado pela habilidade incomum do egresso à sua perfumaria, e desde então o auxiliar do perfumista torna-se, por assim dizer, a sua “galinha dos ovos de ouro”. Um momento particularmente especial dá-se quando o perfumista transmite ao seu aprendiz as técnicas de sua arte. Ele compara o perfume a um escala musical de doze notas; porém, haveria uma décima terceira nota que nunca foi decrifada. E o decifrar de tal nota seria atingir o grande mistério do perfume, e ofereceria uma resolução à composição olfativa. O perfume é composto pelas notas de fundo, pelas notas do coração, pelas notas primárias que são a primeira impressão, ainda que fugaz… A nota de fundo é a essência que vai permanecer de forma mais duradoura. A nota do coração pode deixar o seu vestígio por dias inteiros.

Algo fica logo patente: a alma é o perfume ou vice-versa. Curiosamente, isto é também uma alegoria da vida do protagonista. Ele não tem cheiro! Não chega a ser paradoxal que um ser inodoro tenha a incomum habilidade de cheirar, sentindo-se atraído pelo cheiro, como os insetos são atraídos pela luz? Tem o protagonista a obsessão de captar a essência olfativa e eternizá-la. A essência de tudo, inclusive das pessoas. Porém, como captar a essência de uma pessoa ainda em vida? Isto seria algo incompleto. Ou, colocando em outros termos, como extrair a essência da alma de uma pessoa enquanto esta ainda vive? Esta pergunta é a grande chave para a sucessão de fatos para os quais a “fatalista predestinação” conduz o nosso protagonista.

O aprendiz de perfumista, ainda em Paris, entra em contato com o processo de destilação para extrair a essência. Assim, dez mil rosas se reduzem a uma onça de óleo essencial. Porém, a destilação mostra-se ineficaz para o frustrado aprendiz, que busca extrair a essência não só das rosas, mas também do cheiro do vidro, do cheiro do cobre, do cheiro do couro, e assim indefinidamente em toda a gama de odores que nos cercam. A frustração é tamanha que o leva ao limiar da vida, precipitado num leito de morte, donde foi salvo pela auspiciosa esperança oferecida pelo método da enfleurage. Este é o processo de extração de essência que notabilizou uma região da Península Itálica, berço do ferfumista mestre. Na enfleurage as flores morrem lenta e delicadamente enquanto a sua essência é extraída. Preste atenção a este aspecto, se quiser extrair o melhor da essência deste filme. É na Península Itálica que o filme atinge o seu clímax, conquanto a resolução final será celebrada no mesmo local onde o bebê respirou pela primeira vez, num infecto mercado em Paris.

O filme tem uma reconstrução de cenário e fotografia muito apurada. O figurino é simplesmente magnífico, e os detalhes que acentuavam aquela época são retratados com um rigoroso e chocante realismo. O cinema não consegue trazer-nos o cheiro das coisas (pelo menos não ainda), mas o diretor de O Perfume consegue a façanha de transmitir-nos o cheiro dos ambientes e das coisas através da exuberante riqueza com que os retrata. Se você pensa em Paris como ela é hoje, “A Cidade Luz”, esqueça. Deixe de lado esse arquétipo antes de assistir O Perfume. A Paris da primeira metade do século XVIII literalmente fedia. Fedia por ser lúgubre e insalubre. Quando eu disse lá atrás que o diretor nos retrata os cheiros, não pense que ele tem a intenção romântica e esteticamente pura de trazer aos nossos olfatos apenas os bons odores da vida. Assim como retrata campos de lavanda, com sua cor lilás e seu plácidos movimentos à brisa, o diretor também retrata a podridão do cheiro da morte, mesmo nos vermes de uma ratazana defunta. Os movimentos de câmera não são previsíveis. Há tomadas e sequências que chegam a ser surpreendentes. Assim como o final do filme… que não pretendo contá-lo, obviamente.

Um roteiro adaptado do best-seller homônimo de Patrick Süskind, Das Parfum – Die Geschichte eines Mörders, publicado em 1985,  O Perfume tem duração de 2 horas e 27 minutos e foi lançado em 2006. Destaque-se a brilhante direção de  Tom Tykwer e fotografia de Frank Griebe. Ben Whishaw desempenha o papel do protagonista Jean-Baptiste Grenouille, cujo sobrenome é sapo em francês. Um sobrenome bastante descritivo… John Hurt é o narrador. O elenco é formado por experientes artistas. Destaque-se a competente interpretação do veterano Dustin Hoffman no papel do mestre perfurmista Giuseppe Baldini. Será que na escolha de Hoffman teria havido alguma sugestão relacionada ao seu proeminente órgão olfativo? Outro destaque fica por conta de  Alan Rickman no papel de Antoine Richis. O Perfume deve ser assistido e refletido.

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Written by Paulo Amadeu

27/02/2010 at 19:33

Publicado em Close-up

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