L'itinérance

“Cinema: It is a ribbon of dreams.” (Orson Welles)

Filme: As Pontes de Madison (The Bridges of Madison County)

The Bridges of Madison County, 1995

Clint Eastwood e Meryl Streep em “As Pontes de Madison” (The Bridges of Madison County, 1995)

Gosto de fotografia, e mesmo dos “retratos”. Rubem Alves escreve em uma de suas crônicas que “retrato” é diferente de foto. Eu concordo com ele. Gosto de pontes. Elas são ao mesmo tempo coisas do mundo prático e do mundo poético. Gosto da idéia de superação de um obstáculo. Pontes me falam da não conformação humana com os limites da natureza. Gosto da cruz. Dentre todas as cruzes, a que mais gosto é a Cruz Celta. Gosto desse encontro do mundo cristão com o mundo celta. Gosto de histórias (ou estórias) de amores impossíveis. São humanas e intensas. Geralmente mostram que os seres humanos têm porões e segredos, e que não podem construir “pontes” para tudo.

Gosto de Meryl Streep e Clint Eastwood. Quanto a Meryl Streep, eu simplesmente a considero fantástica! Acho que isto basta sobre ela. Quanto a Clint Eastwood, sinto decepcionar alguns dos meus amigos cinéfilos, mas eu o tolero bem. E não estou me referindo ao diretor, mas ao ator mesmo. Eu sei que a maioria critica os seus movimentos… digamos… “cúbicos” na tela. E que o criticam por ter uma face que não move muitos músculos para rir nem para chorar. E que não há muita diferença nela para expressar os dois momentos. Mas eu devo dizer que a minha primeira imagem do Clint não veio do Inspetor ‘Dirty’ Harry Callahan. Veio do Spaghetti do Leone, “O bom, o mal e o feio” (Il buono, il brutto, il cattivo), com aquela trilha inesquecível do Ennio Morricone. O jovem Clint fez “o homem sem nome”, o “blonde”, com seu jeitão taciturno e aquela fisionomia impassível. Aquele personagem se confunde com o Clint. Enfim, eu o tolero justamente por aquilo que todos criticam. Pois creio que há alguns homens daquele tipo que ele representa, e a presença de Clint nas telas do cinema me traz esse realismo, incômodo para alguns.

Um dos meus filmes prediletos – que acabo de assistir novamente neste meu momento particular de reprises, revistas e revisões – é As Pontes de Madison (The Bridges of Madison County, 1995, EUA, com duração de 135 minutos, e direção do Clint Eastwood). Trata-se de um roteiro de Richard LaGravanese, baseado em livro homônimo de Robert James Waller. O enredo é simples e a históThe Bridges of Madison County, movieria é contada em flashbacks. Após a morte de Francesca Johnson (Meryl Streep), uma proprietária rural do interior do Iowa, seus filhos descobrem, através de cartas e objetos deixados pela mãe, o forte envolvimento que ela teve com um fotógrafo, Robert Kincaid (Clint Eastwood), da National Geographic, quando a família se ausentou de casa por quatro dias. Kincaid veio ao distante Iowa justamente para fotografar as pontes cobertas daquela região. A dupla vive quatro dias de um tórrido romance. Porém, logo são separados e vivem um longo desencontro, preenchido pelo intenso amor que sentiam. Tais revelações fazem os filhos da italiana Francesca questionarem seus próprios casamentos. Entre os objetos marcantes do filme, encontra-se um colar, cujo pêndulo é uma cruz celta que tem no verso o nome de Francesca gravado.

The Bridges of Madison County é um filme tocante, mas também consegue ser realista. Ele sugere que a vida pode oferecer uma única chance de se viver um grande amor, ainda que seja impossível contar com a presença do outro para sempre. O filme explicita o velho conflito entre o dever e o prazer, entre o amor (ou a “paixão”, se preferir) e a missão. O filme relembra que nem sempre é possível sepultar uma vida e criar uma nova. Há que se encontrar, se possível, algum tipo de via media mais realista, embora geralmente difícil e dolorosa. Esta visão de uma via media não é extamente unânime, entretanto. Alguém no meu círculo de amizades opinou acerca deste ponto:

Não houve via media para Francesca. Houve uma escolha extremamente altruísta (olhando-se pelo ponto de vista dos filhos e do marido, que nem mereciam aquele sacrifício). Ela escolheu amá-los e renunciou ao amor em nome deles. Do ponto de vista do Kincaid, a escolha dela foi egoísta, pois condenou os dois a viverem eternamente insatisfeitos e incompletos. Nunca mais, nem ele e nem ela, amaram com aquela intesidade. Foram um do outro para sempre, embora separados. É uma história triste e romântica. Espero que o happy end tenha acontecido em algum lugar na eternidade.

Há momentos bem especiais na trilha sonora. O instrumental Doe Eyes é o tema. Em algum momento do filme somos surpreendidos com jazz e blues no interior de Iowa! Blue Gardenia é um conhecido blue que deve ser ouvido. This Is Always é um outro que gosto muito na trilha de The Bridges of Madison County.

O filme já foi adaptado para o teatro brasileiro. Nada posso dizer sobre a peça, entretanto.

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Written by Paulo Amadeu

18/12/2009 às 12:56

Publicado em Close-up

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