L'itinérance

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O Nome da Rosa; o livro, o filme e a época

The Name of Rose, movie William de Baskerville, interpretado por Sean Connery, salvando livros de um incêndio na monumental biblioteca da Abadia Italiana.

Der Name der Rose (O Nome da Rosa, em Português, e The Name of Rose, em Inglês) é um filme dirigido por Jean-Jacques Annaud, baseado no romance homônimo do crítico literário italiano Umberto Eco. Esta obra, o primeiro romance do autor, publicada na Itália em 1980, e no Brasil em 1983, foi sucesso em várias línguas, tendo sido levada para as telas em 1986, atingindo um público ainda maior. O livro foi meticulosamente escrito numa linguagem da época, cheio de citações teológicas, muitas delas referidas em latim. É também uma crítica do poder e do esvaziamento dos valores pela demagogia, violências sexuais, os conflitos no seio dos movimentos heréticos, a luta contra a mistificação e o poder. Alguém chegou a escrever: “Uma parábola sangrenta patética da história da humanidade”.

O Filme

O Nome da Rosa é um filme soberbo, no melhor sentido da palavra. Trata da história ocorrida no século XIV, num mosteiro beneditino italiano que continha, na época, um monumental acervo da Cristandade. O enredo desenvolve-se na ultima semana de 1327. Poucos monges tinham o acesso autorizado às publicações sacras e profanas, que eram relíquias arquivadas naquela Biblioteca. A morte, em circunstâncias insólitas, de sete monges em sete dias e noites, é o motor responsável pelo desenvolvimento da ação. As vítimas aparecem sempre com os dedos e a língua roxos. Toda a narrativa é atribuída a um suposto monge, que na juventude teria presenciado os acontecimentos.

No filme, William de Baskerville (o veterano e competente Sean Connery), um monge franciscano, e Adson von Melk (o ainda adolescente Christian Slater), um noviço que o acompanha e o responsável pela narrativa, chegam a uma remota Abadia ao norte da Itália. William de Baskerville pretende participar de um conclave, movido pelos franciscanos, para decidir se a Igreja deve doar parte de suas riquezas, mas a atenção é desviada para os vários assassinatos que acontecem no mosteiro. William começa a investigar o caso, que se mostra bastante intrincado. Alguns religiosos atribuem os assassinatos a forças sobrenaturais, a uma obra do demônio. William de Baskerville não partilha desta opinião, entretanto. Utilizando sua brilhante capacidade de dedução, ele, auxiliado pelo seu noviço, se empenha para desvendar o mistério. O monge franciscano e renascentista utilizava-se da ciência, e conseqüentemente da razão, para dar solução aos crimes do mosteiro. Representantes da Ordem Franciscana e a Delegação Papal se reúnem na abadia para a conferência. E antes que William conclua as investigações, Bernardo Gui (F. Murray Abraham), o Grão-Inquisidor, chega ao local e está pronto para torturar qualquer suspeito de heresia que tenha cometido assassinatos em nome do Diabo. Antigo desafeto de William, Gui é inclinado a colocá-lo no topo da lista dos que são diabolicamente influenciados. Esta batalha, junto com uma guerra ideológica entre franciscanos e dominicanos, é travada enquanto o motivo dos assassinatos é lentamente solucionado. A figura do Inquisidor Bernardo Gui realmente existiu, e foi considerado um dos mais severos inquisidores.

A expressão "o nome da rosa" foi utilizada na Idade Média, significando o infinito poder das palavras. A rosa subsiste por seu nome, apenas; mesmo que não esteja presente e nem sequer exista. A "rosa de então", centro real deste romance, é a biblioteca do antigo convento, na qual estavam guardados, em grande número, códices preciosos: parte importante da sabedoria grega e latina que os monges católicos conservaram através dos séculos.

A Época

Por um lado, a Escolástica Medieval constitui o contexto filosófico-teológico das disputas que se dão na abadia em que se situa O Nome da Rosa. A escolástica significa literalmente "o saber da escola", ou seja, um saber que se estrutura em torno de teses básicas e de um método básico que é compartilhado pelos principais pensadores da época. A influência desse saber corresponde ao pensamento de Aristóteles, trazido pelos árabes (muçulmanos), que traduziram muitas de suas obras para o latim. Essas obras continham saberes filosóficos e científicos da Antigüidade, que despertariam imediatamente interesses pelas inovações científicas decorrentes. O saber técnico-científico do mundo europeu era nesta época extremamente restrito e a contribuição dos árabes será fundamental para este desenvolvimento pelos conhecimentos de que dispunham de matemática, de ciências (física, química, astronomia, medicina) e de filosofia. O pensamento agora (Aristotélico) será marcado pelo empirismo e materialismo.

A Baixa Idade Média (século XI ao XV) é marcada pela crise do feudalismo na Europa Ocidental. Ocorrem assim, nesse período, transformações na esfera econômica, social, política e até religiosa. Assim, o período Renascentista, que se desenvolveu na Europa entre 1300 e 1650, época em que se desenrola o filme, pregava a valorização do homem e da natureza. Este é um outro aspecto importante na montagem do contexto do filme.

Da conjunção destes e doutros fatores, a Idade Média assistiu, em sua agonia, a um grande debate Filosófico Religioso. Perdido o equilíbrio do tomismo, o homem medieval presenciou dois extremos opostos. De um lado os humanistas racionalistas. Tais humanistas cultivaram o antropocentismo, e julgaram que graças às ciências e a técnica, o homem seria capaz de vencer todas as misérias do mundo, até criar uma era de grande prosperidade material e de completa felicidade natural. De outro lado, místicos com visão extremamente pessimista da realidade. Para eles o mundo era intrinsecamente mau e irredimível por ser obra de um Deus perverso, distinto da divindade. Acreditavam que a razão humana era má e só seria desejável perder-se no nada divino. Em O Nome da Rosa aparecem nítidas disputas entre o misticismo, o racionalismo, problemas econômicos, políticos e, principalmente, o desejo da Igreja Romana em manter o poderio conquistado.

Em O Nome da Rosa, o monge franciscano William de Baskerville representa o intelectual renascentista, que com uma postura humanista e racional, consegue desvendar a verdade por trás dos crimes cometidos no mosteiro. William (Guilherme, na tradução para o português) é também o filósofo, que investiga, examina, interroga, duvida, questiona e, por fim, com seu método empírico e analítico, desvenda o mistério, ainda que para isso seja pago um alto preço. Não se iluda, entretanto. William também ama a essência da Igreja, e respeita os ideais da Ordem Franciscana. A tendência contemporânea é polarizar esses dois extremos, e fazê-los inconciliáveis. Mas isto é um engano, uma caricatura anacrônica.

O pensamento dominante, que queria continuar dominante, impedia que o conhecimento fosse acessível a todos. No mosteiro, a biblioteca era um labirinto e quem conseguia chegar ao final era morto. Só alguns tinham acesso. É uma alegoria proposta por Umberto Eco, que tem a ver com o pensamento dominante da Idade Média, capitalizado pela igreja. A informação restrita a alguns poucos representava esta dominação e poder. A biblioteca da abadia é secreta, porque ela inclui obras que não estão devidamente interpretadas no contexto do cristianismo medieval. O acesso à biblioteca é restrito, porque há ali um saber que é ainda estritamente pagão (especialmente os textos de Aristóteles), e que pode ameaçar a doutrina cristã. Na trama do filme, o principal livro em foco foi escrito por Aristóteles e falava sobre o riso: “Talvez a tarefa de quem ama os homens seja fazer rir da verdade, porque a única verdade é aprendermos a nos libertar da paixão insana pela verdade”. Ao final do filme, Jorge de Burgos, o velho bibliotecário, diz acerca do texto de Aristóteles: “A comédia pode fazer com que as pessoas percam o temor a Deus” e, portanto, faz desmoronar todo esse mundo.

Este filme é uma crônica da vida religiosa no século XIV. Para muitos críticos, entretanto, é uma parábola sobre a Itália contemporânea. Para outros, é um exercício monumental sobre a mistificação. Seja como for, é um filme primoroso.

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Written by Paulo Amadeu

09/02/2010 às 19:16

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