L'itinérance

“Cinema: It is a ribbon of dreams.” (Orson Welles)

Filme: Anjos e Demônios

Estátua: Filme Anjos e Demônios

Uma estátua metade-anjo e metade-demônio, utilizada no filme “Anjos e Demônios”, num set na Piazza Del Popolo, em Roma, Itália.

Imagine que você tenha um filho adolescente. Ele chega da locadora de vídeos trazendo uma sacola cheia de fitas. Ele é um bom leitor (o que em si mesmo já é algo muito auspicioso no Brasil), e já devorou dois dos mais conhecidos livros de Dan Brown. Você, embora não aprecie muito os livros do escritor norte-americano, ama o seu filho. Por isso, pacientemente já assistiu com ele o roteiro adaptado baseado no maior sucesso de Brown, o polêmico best-seller O Código da Vinci.

Agora, é uma quinta-feira à noite, e seu filho traz na bagagem da locadora de vídeo a sequência ao O Código da Vinci, isto é, uma adaptação para Anjos e Demônios. Imagine: você, que não é fã do Dan Brown, e este não é exatamente o seu gênero de filme mais apreciado… Entretanto, você gosta do Tom Hanks como ator – vá lá que Hanks teve algumas más performances aqui e ali… Você também gosta de algum enredo de mistério e suspense, embora prefira aqueles propostos por Sir Conan Doyle com Sherlock Holmes, ou por Agatha Christie com o Inspetor Poirrot. Você também gosta de enredos com temas religiosos, especialmente aqueles que mostrem algo dos bastidores da Cristandade Ocidental – seja você um católico, protestante, ortodoxo ou simplesmente um agnóstico curioso. Imagine que você também nutre algum prazer em estudar filosofia, e deparou-se com os embates seculares entre a fé e a ciência. “Calma, estamos apenas imaginando!”

Mais outros dois detalhes importantes. O primeiro: você já visitou Roma, tendo tido a oportunidade de conhecer os seus pontos turísticos mais destacados, de andar a pé por aquelas praças (piazzas) e monumentos, adentrar àquelas  igrejas e museus, e de pregar os seus olhos em muitas daquelas obras de arte, que pululam por toda parte naquela milenar cidade. E imagine que você gosta enormemente de tudo aquilo. O segundo e último detalhe: repito, você ama demais o seu filho adolescente, e reconhece ser um privilégio acompanhá-lo, assistindo a um estilo de filme que ele gosta.

Imaginou? Então… O filme era Anjos e Demônios, numa versão estendida (com algumas cenas não rodadas no cinema). O professor de Harvard e especialista em símbolos, Robert Langdon (Tom Hanks), é chamado a Roma quando quatro cardeais são sequestrados por uma inimigo mortal da igreja: uma sociedade secreta conhecida como os Illuminati. Auxiliado pela cientista Vittoria Vetra (Ayelet Zurur), Langdom segue pistas ancestrais em uma caça frenética atravessando catacumbas, catedrais, criptas e a biblioteca mais secreta do mundo num esforço para deter os Illuminati antes que matem os cardeais e detonem uma bomba que mandará a Cidade do Vaticano para os céus. Tudo isto acontece em meio ao Conclave para a escolha do novo Papa, terminado o luto pela morte do anterior, que fora assassinado. Os cardeais se réunem na Capela Sistina; a multidão se aglomera na Praça São Pedro, aguardando pela cor da fumaça na chaminé, e o sonoro grito de Habemus Papam; e Langdon percorre os recantos de Roma em meio aos legados de homens como Galileu, Michelângelo, Rafael e Bernini.

Anjos e Demônios (Angels & Demons, EUA, 2009) teve sua estréia no Brasil em maio do ano passado. Assim como em “O Código da Vinci”, o filme é dirigido por Ron Howard, que, diga-se de passagem, fez um bom trabalho. A fotografia é muito boa. Hanks não está lá grandes coisas, infelizmente. O destaque no elenco fica por conta do Cardeal Strauss (Armin Mueller-Stahl), um personagem que tem poucas cenas – o que é uma pena, mas que cria um suspense importantíssimo para trama. Confrontado com o livro de Brown, o roteiro adaptado sofreu uma boa penada de adaptação (permitam-me a tautologia). Quem gostou muito do livro, provavelmente não gostará muito do filme. O pai da cena por você imaginada, como não leu o livro e nem pretende fazê-lo, julgou, pelos comentários do seu rebento adolescente, que o filme conseguiu melhorar em alguns detalhes a ficção de Brown. O filme de 140 minutos tem classificação etária para 16 anos.

Seja como for, depois de imaginar tudo isso, se você não se vir vivendo essa cena na sua realidade, conclua o seguinte: para o pai em questão foi lucro gastar aquele tempo, em meio à pipoca e ao refrigerante, assistindo ao filme com seu filho, e percorrendo, pelas imagens, aqueles lugares mágicos que um dia visitou em Roma! Só por isso, “Anjos e Demônios” já valeu a pena – em que pese o mau currículo dos segundos.

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Written by Paulo Amadeu

19/02/2010 às 13:38

Publicado em Close-up

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