L'itinérance

“Cinema: It is a ribbon of dreams.” (Orson Welles)

Filme: O Amor Acontece (Love Happens)

Love Happens, movie

“Medice, cura te ipsum” é um provérbio citado por Cristo no evangelho de São Lucas, na tradução da Vulgata Latina. “Médico, cura-te a ti mesmo” diz-se dos que dão conselhos aos outros sem saber cuidar de si mesmos. Associando-se a este provérbio um outro no qual se diz que “o bom médico é aquele em quem o paciente confia”, teremos aí um quadro interessante: a situação em que estejam presentes a confiança do paciente, a hipocrisia do médico e a cura.

Hoje em dia os livros de autoajuda se multiplicam. As prateleiras estão cheias de best-sellers de renomados autores de autoajuda. “Oito receitas para isso”… “Quatro passos para aquilo”… “Como alcançar isso em trinta dias…” “Quinze degraus para aquilo outro”, etc.. Há alguns bons motivos para se suspeitar dessas receitas mágicas. Os livros de autoajuda não gozam de muito boa reputação em algumas classes e consultórios psicológicos. Entretanto, estes manuais são muito populares, como o provam as estatísticas editoriais.

Psicólogos e terapeutas referendados logo compreendem que aquilo que mais dói não é a dor física. De fato, o senso comum também comunica esta lição todos os dias, mas não pense que ela é assim tão facilmente aprendida. Não é fácil ser aprendida porque não é fácil de ser enfrentada. Talvez com mais facilidade um homem abra o peito para uma cirurgia cardíaca do que abra o coração para expor as feridas da alma.

O que mais dói é a culpa! Rubens Alves, que além de educador é também psicanalista, escreve que na solidão, longe dos falatórios das tavernas, tímidas imagens que moram em nossas funduras começam a sair das cavernas onde haviam se escondido. Na solidão elas nos falam sobre a nossa verdade, coisas que ninguém mais sabe”. E neste ponto não tem jeito: É preciso dar os nomes reais aos bois. É preciso chamar as coisas pelos nomes que você já deu a elas, mas não quer pronunciar em voz alta. Chamá-las pelos seus verdadeiros nomes. “Os maus espíritos a gente os espanta chamando-os pelo seu nome real”. Não adianta fazer de conta que eles não existem.

Ontem à noite fui ao cinema com uma pessoa muito importante em minha vida. E só isso já valeu a pena! Assistimos na grande tela um filme que escolhemos no menu oferecido na portaria, embora já tivéssemos uma pré-seleção entre três películas. No roteiro que escolhemos, o viúvo Burke Ryan (Aaron Eckhart) escreveu um livro sobre como lidar com perdas, e como se tornou um best-seller, Ryan se transformou num guru da autoajuda. Numa viagem de negócios a Seattle, ele conhece Eloise Chandler (Jennifer Aniston) e se apaixona por ela. Eloise consegue compreender que na verdade Ryan não conseguiu ainda enfrentar a morte da esposa. Já nos primeiros momentos do filme a gente vai percebendo os aspectos sindrômicos manifestos por Ryan, e somos capazes de perceber que há algo muito errado: uma incoerência entre a sua aparência e seu discurso públicos, por um lado, e a sua intimidade, a sua verdade, por outro.

O Amor Acontece (Love Happens) consegue ser mais um daqueles títulos infelizes com que Hollywood etiqueta alguns dos seus produtos. Lançado em 2009, este drama romanceado com duração de 109 minutos estreou no Brasil há cinco dias, e tem a direção de Brandon Camp. Uma boa ambientação em Seattle torna o filme bem atraente, uma vez que esta é considerada por alguns a mais formidável cidade da Costa Oeste americana. Há controvérsias neste ponto, mas pouca discussão haverá acerca de que, neste filme, a fotografia de Seattle contribui imensamente. Há bons momentos na trilha sonora, embora nada de excepcional.

Visto sob alguns critérios mais rígidos, o filme pode parecer meio clichê. Talvez seja. Entretanto, por aquilo que escrevi acima o filme já tem seu lugar. O roteiro toca num ponto bem saliente de nossa cultura aparente, onde as receitas de sucesso e de autoajuda se multiplicam. A frase final do filme é: "Quando uma coisa acaba, outra começa". Jennifer Aniston e Aaron Eckhart estão bem convincentes, com o perdão daqueles que não são fãs dela. Tenho gostado do que tenho visto até aqui com a interpretação de Aniston, e a considero uma mulher bonita e expressiva. Se você pensa diferente, paciência.

Se for assistir ao filme não vá com a sua moldura de romance já montada. Seria preferível buscar um drama um tanto quanto camuflado, digamos assim, e situar o romance dentro deste contexto. Penso que se você o fizer terá captado o lugar deste filme. Ou seja, deixe o Love Happens para a porta de saída.

Se o que mais dói é a culpa, parece mesmo não haver remédio sem que o doente seja, de alguma maneira e em alguma medida (atente para isso), seu próprio médico. Medice, cura te ipsum. Mas não há dúvida: é muito bom quando se encontra um cúmplice.

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Written by Paulo Amadeu

10/03/2010 às 17:36

Publicado em Close-up

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