L'itinérance

“Cinema: It is a ribbon of dreams.” (Orson Welles)

Filme: Minha Vida (My Life)

My Life, movie

No último Natal ganhei de presente uma mídia em DVD com dois filmes; um deles, Minha Vida (My Life, USA, 2003). Eu já havia assistido a este filme antes. Ontem, entretanto, fiz uso do meu presente e tive uma reprise. Geralmente as minhas reprises têm um sabor especial, pois não sou daquele tipo de pessoa que retém na memória muitos detalhes de um roteiro, em alguns casos até mesmo algumas cenas mais fundamentais. À proporção que a reprise evolui eu vou reconstruindo aquilo que ficou esquecido em algum lugar…

Em Minha Vida o personagem principal é Bob Jones  – que  nada tem a ver com o educador sulista que deu nome à universidade na Carolina do Sul. Aliás, deve ser acrescentado que o sobrenome dele nem era Jones. Em seu desejo de cortar os vínculos com o passado, ele deixou o sobrenome paterno e adotou aquele. Nascido e criado em Detroit, Michigan, Bob também foi levado a transferir-se para Los Angeles, Califórnia, pelo mesmo motivo. Em Los Angeles, como proprietário de uma empresa de relações públicas, ele se torna um executivo muitíssimo conhecido e bem-sucedido.

O drama avança sob o signo da sombra da morte. Bob Jones (Michael Keaton) está doente. Restam-lhe poucos meses de vida pela medicina convencional. Gail (Nicole Kidman), sua esposa, é bela e compreensiva. O casal reside numa ampla casa, com um bonito jardim. Jones tem tudo o que a maioria das pessoas espera alcançar na vida. Quase tudo.

Se por um lado, como disse, o filme transcorre debaixo de uma sombra, por outro lado (e parece ser esta a lógica das coisas), o enredo se desenvolve sob o signo da vida. Verso e reverso. Ao saber de sua doença, Bobbie fica também sabendo que sua esposa está grávida de seu primeiro filho. Ele ganhou um grande presente e nem poderá esperá-lo. A chegada de seu filho coincide com o final presumível de sua vida.

No entanto, Jones não perde a esperança de conhecer o filho. Toma uma decisão: gravar várias fitas de vídeo através das quais irá se apresentar ao filho, e também oferecerá ao seu herdeiro lições das mais simples às mais fundamentais. Pretende pegar o depoimento de amigos, parentes e colegas com os quais convive para que também outras pessoas possam contar a seu filho um pouco da vida do pai que o menino não conhecerá.

Preocupado e bastante amargurado, Bob se desespera quanto ao futuro. Apesar de todo o apoio de sua mulher, a ironia, o cinismo, os medos camuflados e a raiva estão presentes o tempo todo. O filme inicia, aliás, com o Bobbie menino em Detroit, e deve ser dito que o processo de amargura vem de lá. Vem de longe, portanto. As cenas da infância são bem tocantes.

Agora adulto, Bob é um doente terminal, e pela medicina convencional não há resposta satisfatória no combate ao câncer que o consome. Convencido pela esposa, com muita relutância e deboche ele procura se apoiar na medicina alternativa. O contato com o médico oriental Sr. Ho (Haing S. Ngor) o faz compreender que seu sofrimento e condição terminal estão relacionadas ao afastamento da família (pais e irmão), ao fato de não perdoá-los, e à dedicação integral ao trabalho assim como à falta de demonstração de seus sentimentos… Aí se inicia uma viagem para dentro; uma dura e dolorosa, porém necessária viagem. Será que há remédio para tudo isso? Como fazer para não sofrer tanto? Não perecer? Minha Vida traz uma reflexão sobre a fragilidade humana. A brevidade da vida e a força das relações humanas também fazem emocionar, por aproximar do cotidiano o que acontece na tela. Mais do que reflexão, o filme mostra como as mudanças de direcionamento, de pensar e agir, são necessárias às mudanças de vida e relacionamentos humanos, quando se busca plenitude.

“Essa história de morrer não foi idéia minha”, diz Jones ao seu filho bebê, numa tocante cena ao final do filme. E ele profere naquele “diálogo” uma frase que, a meu ver, sintetiza bem todo o enredo: “Morrer é um modo difícil de aprender sobre a vida”. Nunca ninguém é tão verdadeiro do que quando se encontra diante da verdade da morte. A morte revela a essencialidade e a solidez das coisas. A morte é grande mestra. À sua sombra é que os seres humanos mais conseguem se despir – embora alguns mais do que outros.

O parto do bebê é algo bem marcante, e o recém-nascido parece mesmo tal. Uma boa sugestão para alguns diretores de novela no Brasil… Na trilha sonora, alguns momentos interessantes: Carruagens de Fogo, de Vangelis, à hora em que o terminal Jones vai andar de montanha-russa. A batida composição do Vangelis parece casar bem com aquele momento. Outro momento que gostei bastante se deu quando Jones ouvia o conhecido tema da antiga série The Lone Ranger. Esta era sobre um famoso cowboy fictício do rádio, cinema e televisão, traduzido para o português como "O Cavaleiro Solitário", mas que no Brasil ficou conhecido durante muitos anos pelo nome de Zorro, dada a máscara negra que nunca tirava do rosto. Seu eterno companheiro era o índio Tonto, cujo nome foi mantido na tradução, embora nada tenha a ver com o personagem. Lone Ranger possuia um belo cavalo branco chamado Silver, e ficou famoso o grito que o herói dava ao se despedir a galope em direção ao horizonte: "Hi-yo Silver, away!". O tema de The Lone Ranger foi marcante na infância de Jones, e, como foi também marcante na minha, presto aqui este meu “tributo”. O tema foi conduzido por Daniel Perez Castaneda, que baseava-se em recortes de alguns clássicos em domínio público. Confira a "March of the Swiss Soldiers", finale da William Tell Overture de Rossini.

Em Minha Vida, Michael Keaton vive talvez o maior papel de sua carreira. Nicole Kidman conserva ainda um ar bem jovial, e, embora convincente, parece exalar uma certa inexperiência – talvez ao compararmos com os papéis mais maduros desempenhados por ela posteriormente. Drama de 106 minutos, Minha Vida (My Life) foi lançado em 1993 e contou com direção de Bruce Joel Rubin.

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Written by Paulo Amadeu

23/04/2010 às 14:51

Publicado em Close-up

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