L'itinérance

“Cinema: It is a ribbon of dreams.” (Orson Welles)

Alice in Wonderland (Alice no País das Maravilhas)

Ontem fui assistir no cinema a “Alice do Tim Burton”. Assisti em versão 3D, ainda que, lamentavelmente, em versão dublada – quando se vai ao cinema em um grupo pessoas, geralmente é preciso adequar-se ao voto da maioria. Coisas da democracia!

DevAlice in Wonderland, movieo dizer honestamente que fui com algumas pré-concepções, e nem todas muito otimistas. Uma vez que o formidável livro de Lewis Carroll marcou bastante a minha infância, o fato de haver ouvido, nos burburinhos dos “corredores”, que a obra de Burton não correspondia ao original, me deixou um pouco com o pé atrás. Mas eu sei que o cinema é uma arte diferente da literatura, com uma linguagem própria, e que alguma recriação é mesmo necessária. Assim fui.

Alice in Wonderland (em Português: Alice no País das Maravilhas) conhecido também como Tim Burton’s Alice in Wonderland, é o novo filme de Tim Burton, baseado no clássico de Lewis Carroll. O filme começou a ser rodado em maio de 2008 e estreou dia 5 de março de 2010 nos Estados Unidos. No Brasil, a data de estreia foi o último dia 23 de abril. O filme se passa nove anos após a história original, com Alice já com dezenove anos. A produção tem no elenco Mia Wasikowska como Alice, Johnny Depp como o Chapeleiro Maluco, Helena Bonham Carter como a Rainha Vermelha e Anne Hathaway como a Rainha Branca.

Na primeira semana de lançamento nos EUA o filme Alice in Wonderland foi o mais assistido e o de maior faturamento. O filme também ganhou o título de "maior estreia em 3D", superando a estreia do até então campeão global em bilheterias de todos os tempos, Avatar. No Brasil o longa ficou em primeiro lugar nas bilheterias com mais de dez milhões de reais arrecadados pelos mais de 800 mil pagantes em apenas um fim de semana e se torna o campeão de arrecadação em 2010.

Lembremo-nos do livro. Alice no País das Maravilhas (título original em inglês: Alice’s Adventures in Wonderland, frequentemente abreviado para "Alice in Wonderland") é a obra mais conhecida do professor de matemática inglês Charles Lutwidge Dodgson (1832-1898), sob o pseudônimo de Lewis Carroll, que a publicou a 4 de julho de 1865, e uma das mais célebres do gênero literário nonsense ou do surrealismo, sendo considerada a obra clássica da literatura inglesa. O livro conta a história de uma menina chamada Alice que cai numa toca de coelho que a transporta para um lugar fantástico povoado por criaturas peculiares e antropomórficas, revelando uma lógica do absurdo característica dos sonhos. Este está repleto de alusões satíricas dirigidas tanto aos amigos como aos inimigos de Carrol, de paródias a poemas populares infantis ingleses ensinados no século XIX e também de referências linguísticas e matemáticas, frequentemente através de enigmas que contribuíram para a sua popularidade. É assim uma obra de difícil interpretação pois contém dois livros num só texto: um para crianças e outro para adultos. Alice no País das Maravilhas é uma continuação da obra do mesmo autor Alice do Outro Lado do Espelho, e ambos influenciaram diversos outros livros e filmes.

Devo dizer que minha inicial relutância com relação à “recriação” de Burton foi desfeita. Explico-me: Ele na verdade procurou manter a obra de Carroll em seu lugar, tocando, de fato, em quase nada dela. Isto, que aparentemente seria temerário, ao final revelou-se para mim como algo positivo. De fato, Burton construiu o seu próprio roteiro com base no original, como se fosse uma continuação. Neste sentido, as obras ocupam, até certo ponto, cada qual o seu lugar no espaço, assumindo um certo rigor físico, de tal maneira que a gente mais conservadora em relação ao Carroll é apaziguada. Do ponto de vista do roteiro, a obra de Burton não é lá grandes coisas. Retirando-se aquilo em que ele pega corona no clássico, o roteiro é até bem simplório. Enfim, quer me parecer que, do ponto de vista do roteiro, o bom em Burton é o que veio do Carroll. Claro que para a atual geração de crianças e adolescentes não haverá nem comparação; a tendência será priorizar “A missão: o retorno de Alice”. Constatei isto pelas crianças e adolescentes que estavam pelos corredores à saída daquela sala de cinema. Penso que, colocando-se em outros termos, o cinema supera a literatura, pelo menos para a grande maioria desta geração em relação às Alices.

Do ponto de vista da produção cinematográfica, a obra de Burton é magnífica. A fotografia é de boa qualidade,  assim como o figurino e a maquiagem, sem falar da animação (o que já era previsível), enfim, também toda a parafernália envolvendo áudio e vídeo. Devo destacar ainda a boa trilha sonora composta pelo antigo parceiro de Burton, Danny Elfman, que já compôs trilhas como “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, “Batman – O Retorno” e “Homem Aranha”. Aqui novamente ele realiza um trabalho muito bom, trazendo emoções aos personagens de Burton. Os atores têm um bom desempenho e Johnny Depp prossegue revelando um traquejo para papéis com aquele perfil. As crianças gostam dele, o que não deixa de ser um bom sinal. Helena Bonham Carter também me parece ter sido uma boa escolha para aquele papel, dando uma cor interessante àquela rainha mesquinha, ressentida, complexada, mimada e cruel.

Do ponto de vista do roteiro em si, além daquilo que já mencionei, destaque-se alguns momentos especiais de diálogos. Aqui e ali se ecoa alguma filosofia, e em alguns casos até com citações textuais, como no momento em que se evoca Maquiavel. Entretanto, quanto a isto, provavelmente o cinéfilo mediano não terá acesso. Quanto ao mais, as provocações nos moldes do original de Lewis, com seu tom satírico, suas paródias, seus trocadilhos e seus enigmas, servem para oferecer tempero à animação produzida pela Disney. Portanto, se você pretende assistir a obra de Burton, seria bom terminar este post deixando-lhe uma questão: “Você sabe qual a semelhança entre um corvo e uma escrivaninha?”

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Written by Paulo Amadeu

28/04/2010 às 16:07

Publicado em Close-up

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