L'itinérance

“Cinema: It is a ribbon of dreams.” (Orson Welles)

Filme: Partition (“Entre Dois Mundos”)

Partition, movie

Assisti à noite passada o filme “Entre Dois Mundos” (Partition, 2007). O drama foi lançado em 2007 (Canadá, África do Sul e Inglaterra) e tem duração de 116 minutos. Como sou, decididamente, uma pessoa apaixonada pelo Mundo Ocidental, enquanto assistia, o meu olhar era o de um estrangeiro, o de alguém distante. Muito diferente de minha sensação ao assistir filmes ambientados na França ou na Inglaterra, por exemplo. No máximo, diante de Partition, o mais próximo de minha visão, enquanto parte do roteiro, seria a de um de seus personagens, a britânica Margareth.

Em “Partition” há muita humanidade e beleza. E em termos históricos o roteiro é de grande valor. O espólio britânico e o surgimento dos dois países, Índia e Paquistão, é algo digno de nota. Ao assistir o filme, valeu à pena ir ao Punjab, do final da década de quarenta, e defrontar-me com aquelas castas rígidas, e ser inserido no contexto daquelas guerras religiosas. A guerra étnico-religiosa é algo muito doloroso. Ódio e insanidade. Foi bom perceber que os laços de família são preservados em meio àquele quadro tão duro e dramático, o que me faz concluir pela obviedade de que família é algo muito forte! No centro do roteiro está a trajetória de um casal: O soldado inglês Gian assume um amor proibido ao apaixonar-se pela muçulmana Naseem, uma mulher criada em uma cultura bem diferentes da sua. Em nome deste amor, Gian enfrentará a ira de todos, em uma terra dividida pelo ódio, que questionará seu passado, sua lealdade e sua honra. Estes dois incompreendidos escolheram não odiar, em meio a uma antiga cultura de ódio e preconceito.

No cenário de Partition gostei bastante das cenas dos campos de mostarda. Aquilo me cheira à Índia. Outras cenas são marcantes. A que Naseem está tomando banho de chuva é algo idílico. Ela expressa algo que já sei: A atração básica entre um homem e uma mulher não respeita credo ou etnia. A primeira noite de Gian e Naseen é também muito tocante. A remoção do turbante religioso mostra que, na cama, um homem é sempre um homem. É uma cena bonita aquela em que, pela primeira vez, os cabelos dele são mostrados, embora só pra ela. Após o casamento Hindu/Sikh, e num contexto da supremacia Sikh no Punjab, a sensibilidade do diretor foi muito grande, e sutil, em mostrar que a primeira noite do casal foi banhada pela lua crescente – justamente o símbolo do Islamismo, de onde vinha a nubente. Outra cena muito tocante é a da “conversão” e “batismo” dele na mesquita. Remover o turbante, cortar o cabelo, e cobrir a cabeça com aquele novo símbolo religioso, e tudo isto por conta da mulher, é algo que impressiona. O próprio muçulmano não conseguia cortar os cabelos dele, pois sabia do significado do gesto para aquele homem. Gian mesmo o fez, porque concluiu que, sem a mulher amada, a vida sob qualquer contexto ou rótulo não faria mais sentido. Enfim, num mundo de tantas certezas e dogmas, a intenção do roteiro é lembrar-nos que há um “dogma” maior, ou mais bonito ou mais forte.

Quanto aos personagens, o Sikh Gian é realmente o mais impactante e humano. Suas convicções e suas dúvidas, seu trauma de guerra, seu bom senso quase intuitivo, seu sentimento de culpa, sua autenticidade desconcertante, que definitivamente não se ajusta ao artificalismo e ao superficial – tal como se pode perceber com nitidez num dos diálogos com Margareth. É um sábio no sentido da palavra: Há mente, coração e corpo. É um homem completo, portanto. A muçulmana Naseen é típica. O que mais me chama a atenção é que seu rosto só brilha depois que ele a fez mulher. Isto é de um orientalismo feminino bem básico. Dentre todos os personagens, como já disse, é com a britânica Margareth com quem mais me identifiquei. Ela é coadjuvante naquele contexto, entretanto. Mas é ela, ironicamente, quem oferece a unidade ao enredo. Isso é  bastante descritivo! Ela tem uma dignidade e uma elegância admirável, e, como toda pessoa inteligente, uma capacidade de também ser simples, até mesmo em sua admiração meio contida por Gian, algo meio platônico. O fato dela recusar o título oferecido aos ingleses, da era da colonização britânica, traz um perfume gostoso.

O final não é tipicamente romântico à moda latina. Claro que fica-nos um certo sabor amargo, um vazio, diante da injustiça e do ódio terem vencido. Mas o filme é bonito. Uma cena muito vívida ao final dá-se quando Naseen segue para a Índia de trem, enquanto avista os campos de mostarda. Eu me identifiquei com o autor do roteiro, pois o filme termina com um trio em Londres. Por alguma razão, e certamente nada imparcial, talvez o autor de Partition, assim como eu, acredite que se há um lugar do mundo onde o coração humano pode encontrar sua melhor plenitude é mesmo no Ocidente. Como todo Ocidental incurável, eu vou ao Oriente nesses filmes, e muita coisa lá me impressiona. Mas gosto muito de voltar!

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Written by Paulo Amadeu

28/04/2010 às 0:42

Publicado em Close-up

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