L'itinérance

“Cinema: It is a ribbon of dreams.” (Orson Welles)

Filme: O Amor nos tempos do Cólera

“Nunca estamos tão mal protegidos contra o sofrimento como quando amamos;
nunca estamos tão irremediavelmente infelizes como quando perdemos a pessoa amada ou seu amor”

(Sigmund Freud)

Love in the Time of Cholera, movie

O Amor nos Tempos do Cólera (Love in the Time of Cholera) é um drama de 2 horas e 19 minutos, lançado nos Estados Unidos em 2007. Integram o elenco: Javier Bardem, Giovanna Mezzogiorno, Benjamin Bratt, Fernanda Montenegro, Catalina Sandino Moreno e Hector Elizondo. A direção é de Mike Newell. O filme é um roteiro adaptado de El amor en los tiempos del cólera, romance do colombiano Gabriel García Márquez (ganhador do Prêmio Nobel), publicado em Espanhol em 1985.

Florentino Ariza (Javier Bardem) ainda jovem se apaixonou perdidamente por Fermina Daza (Giovanna Mezzogiorno). Entretanto, como Florentino apenas trabalha numa agência dos Correios, ele não é visto como um bom partido por Lorenzo Daza (John Leguizamo), pai de Fermina. Florentino pede Fermina em casamento, e ela aceita. Ao saber disto Lorenzo a envia para a fazenda de sua prima Hildebranda Sanchez (Catalina Sandino Moreno), onde fica alguns por anos. Florentino aguarda o retorno de sua amada mas, quando a reencontra, ela diz que nada quer com ele. Fermina passa a ser cortejada por Juvenal Urbino (Benjamin Bratt), um médico que luta para evitar a disseminação da cólera. De início ela não se interessa por ele, mas posteriormente eles se casam e constituem família. Simultaneamente Florentino aguarda que Juvenal morra, para que possa enfim se casar com seu grande amor. Nesse ínterim, ele especializa-se em relacionar-se com mulheres, o que acontece com centenas delas.

Gostei de voltar a assistir algo latino, com toda a dramaticidade característica de Love in the Time of Cholera... Algo escrito por latino, mas envolvendo um elenco mais global, e com direção dos experts. Enfim, me lembrei do excepcional The House of the Spirits (“A Casa dos Espíritos”), também roteiro adaptado sobbre o livro de Isabel Allende – Meryl Streep e Jeremy Irons são “monstros” e a Glenn Close não fica atrás… O elenco de Love in the Time of Cholera é bem mais modesto, comparativamente falando, mas há bons desempenhos, como os dos coadjuvantes Fernanda Montenegro e Hector Elizondo. Os protagonistas realmente não estão na sua melhor performance; ele um pouco menos. Ainda assim, não julgo que Javier Bardem esteja muito ruim. Penso que incorporar um personagem de Gabriel García Márquez, como Florentino Ariza, deve ser um desafio imenso! Além disso, aquele é um homem colombiano muito singular… Então, alguma condescendência deve ser estendida ao ator espanhol.

Sob um ponto de vista, Ariza é um personagem latino típco. Ele, como uma grande parcela dos homens latinos, pende muito fortemente para a maternidade. O pai é simplesmente incidental neste personagem; uma memória na emocionalidade da mãe. E o Ariza adulto nem dirige a sua busca maternal para a Virgem Maria, como seria de se esperar de muitos colombianos (e de outros homens latinos). Ele nem mesmo “crê em Deus, mas tem medo de Deus”. Ariza dirige aquele impulso para quase setecentas mulheres… Melhor dizendo: dirige-o para uma única mulher!

Florentino Ariza não tem a fisionomia altiva de um homem do Norte; ele é mais encurvado, circunspecto, como muitos notórios perfis latinos e africanos. Além disso, tem a fisionomia sempre indefinida, ora meio mórbida, e por vezes o bigode lhe esconde os lábios. O médico Urbino, bem incorporado por Benjamin Bratt, é definitivamente o ser altivo da trama. É um homem previsível, entretanto. Tem lá os seus momentos especiais: a cena da consulta à noite de núpcias; o rompimento com a amante; a busca da mulher no interior do país; e uma declaração de amor na hora da morte… A forma como morre é patética; ele entra em cena com uma altivez européia, e sai dela de forma medíocre. Isto foi de uma ironia bastante “perversa” – seja do García Márques, seja do roteirista. Seja como for, foi também uma ironia brilhante.

Ariza é sempre surpreendente, e grande – contraditoriamente, como quis García Márquez, a grandeza está naquilo que se oculta, naquilo que se apequena, e não naquilo que é auto-evidente! Ariza se deixa reconhecer em Chiaroscuro – encontra-se ao mesmo tempo revelado e oculto, com alguma parte sob a luz e outras em sombras. Eu gostei deste contraste pintado entre ele e o médico. Talvez nem todo mundo se dê conta disso, entretanto. A cena em que os dois homens se encontram é soberba, ainda que possa parecer comum; o momento é de uma plasticidade genial, de uma estética formidável. O contraste é vívido, e as duas personalidades em tudo se revelam ali… Até a masculinidade de Ariza é surpreendente. Ele é de um vigor fenomenal! Chega a ser uma simbologia que o filme termine com a bandeira do cólera hasteada no navio, e a última cena envolvendo os personagens revela o orgasmo meio tímido de dois velhos. Que coisa! Muitos homens devem corar de vergonha, e amargar de inveja… E penso que muitas mulheres também! E o barco, na volta pra casa, não pára em qualquer porto. Vazio (sem as quase setecentas mulheres), apenas com o casal a bordo, desce o leito em plácido movimento, em completo devir… Enfim, a única coisa que encheu a vida daquele homem foi aquela mulher. Ela também foi o seu único ponto fixo. Àquela altura do enredo já estamos no século XX, o que não deixa de ser um detalhe significativo.

Ainda que eu não tenha lido o livro e nem mesmo as resenhas, me parece óbvio que o roteirista Ronald Harwood conseguiu manter um pouco da originalidade da obra, fazendo o García Márquez falar pelos lábios de Ariza.

Geralmente gosto de trilhas sonoras mais ricas. À exceção da música La Despedida, em geral a musicalidade do filme tem sensíveis limites. Eu gostei dos dois momentos em que o Ariza jovem inicia ao violino uma serenata (que me lembrou a Ständchen de Schubert). Curiosamente, ele executa a música diante de sua mãe e de Fermina, as duas mulheres mais importantes de sua vida. Enquanto jovem, ele ofereceu o melhor que tinha para Fermina Daza: a música, as cartas, os telegramas, e o impulso inconseqüente. Muito poderia ser dito sobre Fermina, e sobre todas as mulheres dele… Mas isto renderia muito assunto…

Enfim, de um modo geral gostei também da fotografia, das imagens naturais… O brasileiro consegue se ver um pouco no filme, inclusive nos ambientes religiosos, culturais, políticos… Além da presença da excelente Fernanda Montenegro.

Os psicanalistas Eduardo Honorato e Denise Deschamps escrevem em sua resenha do filme:

Mais do que de amor, esse filme nos fala de ideais, de busca movida pela paixão, fala da construção da vida em seus atos, que só terão sentido, só existirão, a partir da coragem de enfrentar perdas e danos e acreditar profundamente na força do desejo que nos faz ser quem somos, aquele que nos constitui desde antes de usarmos a palavra, a representação, àquilo que nos remeterá ao místico das pulsões (cf. aqui).

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Written by Paulo Amadeu

04/06/2010 às 11:52

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