L'itinérance

“Cinema: It is a ribbon of dreams.” (Orson Welles)

Filme: O Libertino

The Libertine, movie

O século XVII foi imensamente marcante para os rumos do mundo britânico. Naquele século ocorreu a chamada Revolução Inglesa, um fato de grande importância para o mundo moderno. Estava no poder a dinastia Stuart, que lidou com todo o “caldeirão” de movimentos econômicos, sociais e políticos, em especial a ascensão da burguesa britânica, representada no Parlamento. Com a República (Commonwealth) iniciou-se uma nova fase da Revolução Puritana. Em poucos anos Cromwell venceu Charles II, filho e sucessor do decapitado Charles I, e dominou todo o Império Britânico. Findada a era dos Cromwell, entretanto, os burgueses desejavam a segurança, e os irlandeses e escoceses a volta à realeza. O Parlamento procurou então Carlos II, que estava refugiado nos Países Baixos.

O Parlamento-Convenção de 1660 não foi convocado pelo rei; foi o Parlamento que convocou Charles II. Como salienta o historiador Christopher Hill, em seu livro O Mundo de Ponta-Cabeça, isto foi um fato de grande importância para a Inglaterra. Após ser restaurado ao poder em 1660, Charles II governou durante dezoito anos com o mesmo Parlamento, e, em rigor, submeteu-se às imposições. O monarca prometeu anistia geral, a tolerância religiosa e o pagamento do exército. Embora tudo parecesse continuar como antes (isto é, como era pela época de Charles I, ou mais precisamente antes da Revolução de 1640), o  fato é que agora o Estado tinha se reorganizado em outras bases: o rei agora era uma espécie de funcionário da “nação”, a Igreja Anglicana deixou de ser um instrumento do poder real e a burguesia já estava bem mais poderosa que a nobreza. A Restauração foi um grande sucesso enquanto operação militar e política. Sentindo-se totalmente limitado pelo Parlamento (que legislava sobre as finanças, a religião e as questões militares), Charles II uniu-se secretamente a Luís XIV da França, rei católico e absolutista, o que o tornou suspeito no Parlamento. Desse momento em diante, o rei não pôde mais interferir na política européia sem o consentimento parlamentar.

Foi enorme a repercussão de todo o processo da Revolução Inglesa. Foram diversas as idéias lançadas na sociedade em seu contexto, fazendo com que ocorressem grandes modificações. Tornou-se notória a complexidade da sociedade, com grandes forças agindo dentro dela. No aspecto social, as pessoas comuns tiveram uma liberdade jurídica frente o poder da Igreja e das classes dominantes como nunca antes existira. Através de idéias lançadas pelos radicais, essas pessoas passaram a conjecturar sobre “verdades” conhecidas até o momento, colocando-as à deriva. Muitas mulheres inglesas buscaram algum tipo de afirmação de sua independência. A sociedade produziu grandes cientistas e romancistas.

No aspecto religioso, após perceberem o aumento da diversidade de seitas, muitas pessoas chegaram mesmo a sentirem-se desestimuladas a ingressarem em grupos religiosos, o que ficará ainda mais evidente à partir de 1688. Há uma secularização, só revertida em parte no século seguinte com o chamado “Grande Despertamento”. No aspecto político, após a derrota dos radicais, em 1660 (e com a liquidação definitiva do antigo regime em 1688) os dirigentes ingleses organizaram um império comercial eficiente de dominação de classes, que durou por um longo período. A burguesia britânica construiu uma economina poderosa, de acentuado progresso.

O Libertino

The Libertine (O Libertino, no Brasil e em Portugal) é um filme produzido em 2004, lançado em novembro de 2005 no Reino Unido e em março de 2006 nos Estados Unidos. O filme marca a estréia do aclamado diretor de videoclipes e comerciais Laurence Dunmore, e é uma adaptação da peça homônima de Stephen Jeffrey. A peça teatral dirigida por Dunmore estreou em 1994 no teatro Royal Court em Londres. Dunmore adaptou o espetáculo para o cinema. A peça foi encenada em Chicago, com John Malkovich no papel do Conde de Rochester. No filme, o ator – que também é um dos produtores – interpreta o rei Charles II. O drama tem duração de 116 minutos, e no Brasil recebeu a classificação indicativa de 16 anos.

The Libertine, movie O Libertino conta a história de John Wilmot, o segundo Conde de Rochester. Rebelde provocador e gênio literário da Restauração inglesa, Wilmot nasceu em 1 de abril de 1647 e morreu aos trinta e três anos de idade (a mesma em que se supõe haver morrido Jesus Cristo), em 26 de julho de 1680. Na insalubre Londres de 1660, John Wilmot (Johnny Depp) foi um jovem partidário da liberdade, notório boêmio e poeta libertino. Transitou na corte inglesa com bastante liberdade e foi confidente íntimo do rei Charles II (John Malkovich), com quem, entretanto, manteve uma relação complicada e contraditória. O rebelde Wilmot quebrava as regras do seu tempo com um comportamento ousado e indisciplinado, refletido em suas obras. Rodeado de mulheres, com sua irreverência, promiscuidade e lascívia, vivia a escandalizar a alta sociedade com suas aventuras sexuais. Sua inteligência subversiva era especialista em testar situações limites; incomodamente ousado e cínico, ele se deliciava em ridicularizar os nobres da Inglaterra com sátiras e poemas sexualmente explícitos.

Atraído pela jovem atriz Elizabeth Barry (Samantha Morton), Rochester alimenta o desejo de transformá-la em uma estrela. Apaixonando-se pela prostituta e aspirante à atriz, ele passa a dedicar sua vida não mais às suas aspirações hedonistas, mas sim em transformar sua amada na profissional de maior sucesso nos palcos britânicos. No entanto, este caso amoroso dá início à sua derrocada, que o leva à bebedeira e arrependimentos. O outro fato decisivo do período foi a convocação de Rochester pelo rei Charles II para escrever uma peça magistral e impressionar a corte francesa. A peça, de estampa satírica, choca pelo seu conteúdo grosseiro e pornográfico, e acentua a derrocada final do escritor e artista. Entretanto, sua pessoa e obra continuaram a ser celebrados em Londres, especialmente no teatro.

O filme começa e termina com um monólogo de John Wilmot. Ele dirige-se ao expectador de uma forma intensa, direta e incisiva, sem qualquer apego a convenções. No início, diz ele em tom de aviso: ” Não gostem de mim. Eu não quero que gostem de mim…". Ao final, ele indaga: “E agora? Vocês gostam de mim?” Se o filme for assistido apenas uma vez, é pouco provável que o expectador deixe de atender ao apelo inicial do Conde de Rochester. E é exatamente por esse viés que o diretor desenvolve o filme. O diretor procura explorar ao máximo a qualidade interpretativa dos próprios atores. Alguns até consideram que Johnny Depp tem neste filme a sua melhor interpretação e também o seu melhor filme. Com seu olhar oblíquo, Rosamund Pike interpreta Elizabeth Malet; a atriz britânica emprestou uma imagem bonita e atraente à apaixonada e dedicada mulher de Rochester.

Os diálogos do filme são dignos de nota por sua intensidade, com destaque para aqueles entre Rochester e a atriz Elizabeth Barry. Em geral, os diálogos talvez pareçam ao expectador mais como discursos filosóficos, e evidentemente nenhum ser humano fala com os demais daquela maneira. Entretando, é preciso lembrar que o teatro é a base do filme e também oferece a este o assunto e atmosfera. Nesta produção, portanto, teatro e cinema se confundem em boa parte do tempo. Os recursos de maquiagem e figurino são bem explorados, oferecendo um ar bastante peculiar à corte londrina na segunda metade do século XVII. Em O Libertino temos um recorte do retrato de uma época, pelo qual somos apresentados a uma Inglaterra à beira do fim da monarquia e afundada em lama – a literal e a metafórica.

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Written by Paulo Amadeu

01/08/2010 às 10:24

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