L'itinérance

“Cinema: It is a ribbon of dreams.” (Orson Welles)

Filme: O Psicólogo; O Doutor Está Fora (Shrink)

Shrink, movie

Assisti recentemente a um filme cujo título em inglês é Shrink. Para o uso em questão, esta palavra é uma gíria. Na tradução para o português, tanto psychiatrist quanto shrink são geral e igualmente traduzidos por “psiquiatra”. Entretanto, é inestimável a perda, na tradução para o português, da especificidade semântica de shrink – to shrink, em inglês, significa “encolher”. A partir dos anos sessenta, nos Estados Unidos, a gíria headshrinker, gradualmente simplificada para shrinker e, depois, para shrink, passou a ser usada para nomear os psiquiatras e, logo, por extensão, psicanalistas e psicoterapeutas em geral. Headshrinkers – encolhedores de cabeça – é expressão classicamente aplicada aos silvícolas que, ao vencer seus inimigos, cortam-lhes as cabeças e diligentemente as encolhem, pondo-as em seguida a decorar a entrada de suas tendas e em locais sagrados.

Por que, entretanto, à psicoterapia em geral coube a gíria shrink? Se considerarmos a etimologia, isto implica dizer que a terapia "encolhe" a cabeça. Porém, não seria o contrário? Não seria “expandir” a cabeça? O fato é que, para o senso comum anglo-saxônico, nós carregamos coisas demais, gerando neuroses. Quando estamos com a mente desorganizada, e procuramos um terapeuta, estamos buscando um rearranjo, uma compactação, uma reorganização assessorada por profissional especializado. Em suma, estamos à procura de um "encolhimento", de uma reacomodação mais funcional, de um "shrink". Daí a gíria. A correlação de idéia é: shrink-encolher-analisar-reorganizar.

No filme que assisti, o shrink chamava-se Henry Carter, muito bem interpretado por Kevin Spacey. O Dr. Henry Carter é um conhecido psicólogo de celebridades em Hollywood, lugar onde cresceu e se estabeleceu. Ele é o autor de alguns best-sellers, incluindo um livro sobre a felicidade, que agora está gravando como um audiobook. Neste livro de sucesso, Carter oferece, por assim dizer, a sua receita de felicidade. Entretanto, ele nos é apresentado de uma forma bastante incômoda, pois tem vivido sob o signo do suicídio da esposa. Embora tenha uma rica e confortável residência, cheio de conflitos em sua vida particular, ele não dorme em sua antiga e bonita cama de casal; uma cena comum é a dele esticado em algum sofá, cadeira, divã, etc. Apesar de ter muitas pessoas que se preocupam sinceramente com ele (como é o caso do seu pai), o companheiro mais presente na vida do psicólogo é um cão. O viúvo solitário, sem filhos, amargurado, fumante inveterado, companheiro de uma garrafa de bebida, ainda é apresentado optando  por variedades de maconha adequadas ao seu estado de espírito do momento… Aliás, um aspecto saliente no filme é a droga, que rola solta, aos borbotões! Drogas em geral, incluindo o álcool.

Shrink, movie O “Psicólogo das Estrelas”, que faz uso de automedicação e fuma “baseados", atende em seu consultório pessoas influentes em Hollywood – que, com certeza, não é o lugar mais emocionalmente saudável do mundo. Como um bom psicólogo de escola norte-americana, Carter é especialista em fazer as perguntas certas. Assim, tendo o terapeuta como centro unificador, o filme vai nos apresentando os clientes de Carter em suas rotinas. Pouco a pouco, tanto no consultório quanto fora dele, vamos nos envolvendo com os pacientes em suas neuroses, seus dilemas e infortúnios, seus tédios e angústias, seus dramas existenciais, seus vícios e seu vocabulário caótico – no filme, o vocabulário em inglês não é exatamente o mais delicado e polido.

Na lista de clientes do Dr. Henry Carter estão: uma famosa atriz, Kate Amberson; Jeremy, um jovem escritor descontrolado e inseguro; Patrick, um produtor obsessivo complusivo, entre outros. Cada um com a sua paranóia, seus problemas e seus medos… Desiludido com sua carreira e vida pessoal, a ponto de, surtando, declarar-se numa entrevista televisiva que era uma fraude, um momento significativo na vida de Carter se dá quando seu pai encaminha para ele o primeiro caso fora das celebridades. Trata-se de Jemma, uma garota problemática, que também está vivendo sob o signo da morte da mãe. Considerando o seu atual estado de espírito, Henry estará pronto para os problemas da vida real de alguém que vive longe das colinas de Hollywood?

Shrink (O Psicólogo; O Doutor Está Fora) retrata uma sociedade enferma e a situação em que a vida perdeu o sentido. A sinopse traz uma frase que penso retratar bem o roteiro: “um filme sobre a coragem para alcançar a felicidade… até mesmo em Hollywood”. O desfecho do filme é, entretanto, bastante convencional, pra dizer o mínimo: uma mesa de reunião em que se discute um novo filme, Jemma joga fora todos os bilhetes de sessões de cinema reunidos ao longo do tempo, Carter se deita finalmente em sua antiga cama de casal, e a vida recomeça com as possibilidades de um novo amor. Deste modo, o filme termina com um shrink, um “encolhimento”.

Infelizmente, o filme não contribui positivamente para a imagem social do shrink, ainda mais no Brasil, onde o profissional psicólogo já sofre com uma representação social bem desgastada e cercada de muitos preconceitos. Algumas relevantes questões éticas são trivializadas e estereótipos são ainda mais reforçados. Não cabe aqui analisá-los – este aspecto, entretanto, pode ser objeto de consideração dentro das esferas psi propriamente.

O Psicólogo; O Doutor Está Fora é caracterizado por um elenco afinadíssimo. Kevin Spacey tem um desempenho muito bom, e nomes consagrados em Hollywood interpretam os clientes do psicólogo. Entre os coadjuvantes mais renomados temos Mark Webber (Jeremy), Saffron Burrows (Kate Amberson), Dallas Roberts (Patrick), e um destaque para a boa atuação do já maduro Robin Williams (Holden). Dirigido por Jonas Pate, o drama foi lançado nos Estados Unidos em 2009, tem duração de 104 minutos, e no Brasil recebeu a classificação indicativa de dezesseis anos.

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Written by Paulo Amadeu

06/08/2010 às 14:12

Publicado em Close-up

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