L'itinérance

“Cinema: It is a ribbon of dreams.” (Orson Welles)

A Dama das Camélias

La Dame aux Camélias

Numa noite fomos ao cinema. Dois amigos e eu. Três jovens entre dezesseis e dezessete anos. Não sabíamos exatamente qual filme estava em cartaz no grande cinema da cidade. Ao chegarmos lá, o cartaz indicava: “A Dama das Camélias”, recentemente lançado. Um detalhe: “Proibido para menores de dezoito anos”. Porém, este “detalhe” geralmente conseguíamos contornar. O nosso “problema” foi o cartaz. Eu nada sabia dos Dumas, embora já conhecesse algo de Os Três Mosqueteiros. Assim, condenamos o filme pelo cartaz. Acredite, pois todos fazemos isso. Julgamos muitas coisas pelo “cartaz”… A profissão do designer gráfico tem mesmo importância: capas de livros e cartazes de filme dizem muito.

Deixando a “Dama das Camélias” para trás – e o grande e antigo cinema, hoje transformado em Igreja Universal – seguimos para outro cinema. Este, menor, e por assim dizer… um cinema… digamos… suspeito. Aquele não era exatamente o lugar que as nossas mães nos recomendariam. Mas que cartaz! E aquele, sim, era um filme proibido para menores de dezoito anos!!! Ou até para alguns marmanjos… Assistimos a película, com todos aqueles hormônios exalando pelos poros, e retendo aquelas imagens fortíssimas, algumas das quais nunca mais saem de nossa memória icônica. Voltamos para casa com aquele peso de quem havia feito uma coisa errada, e acumulamos mais um segredo em nossas vidas juvenis.

E quanto A Dama das Camélias? Eu ainda teria que esperar a era do VHS. Agora, nesta minha fase de reprises, acabo de assisti-lo mais uma vez. Depois de certa idade, a gente pode fazer algumas retratações, digamos assim. Em comum entre os dois filmes lá do passado, o preterido e o prestigiado: duas jovens mulheres européias de origem camponesa protagonizam uma história de dor e infelicidade, marcada por experiências muito fortes com o sexo. Não espere que eu revele o nome do filme assistido. Há coisas na vida que é melhor não publicar…

A Dama das Camélias: O Filme

La Dame aux Camélias A versão cinematográfica a qual me refiro trata-se de La Storia vera della signora dalle camelie / La Dame aux Camélias, de 1981, originalmente lançado na  França, Itália e Alemanha. A Dama das Camélias é a história real de Alphonsine Plessis, a bela cortesã que inspirou Alexandre Dumas Filho a escrever o livro que entrou para a história da literatura universal. Com cenários e figurinos deslumbrantes, essa superprodução de época é dirigida pelo cineasta italiano Mauro Bolognini (O Belo Antônio). Na França do século XIX, chega em Paris, fugida, Alphonsine, uma jovem pobre do interior. Em Paris ela se torna uma cortesã disputada por nobres. Sua trágica história é contada por um dos seus amores, o jovem escritor Alexandre. O drama cinematográfico é estrelado por Isabelle Huppert (Madame Bovary), Gian Maria Volonté (Giordano Bruno) e Bruno Ganz (Asas do Desejo). A música é do magistral Ennio Morricone.

Sabe-se que o enredo se perde na própria vida de Dumas. Ele viveu um caso de amor em 1842 com a cortesã Duplessis. Foram três anos ao lado dessa mulher que depois faleceu em fevereiro de 1947. La Dame aux Camélias é chocante pelo estudo da sociedade, principalmente desse território marginal da noite em Paris.

A Dama das Camélias: O Livro

O romance passional de Alexandre Dumas Filho, A Dama das Camélias, é considerado um clássico da dramaturgia mundial. A história caiu nas graças da platéia, ora mais elitista, ora mais popular, desde a sua estréia na metade do século XIX. O romance original migrou para o teatro, para a ópera e para o cinema e, daí, filmagem e refilmagens.

A obra tem flashes autobiográficos, e conta os encontros e desencontros de um amor impossível vivido por Dumas Filho, o talentoso filho ilegítimo de Alexandre Dumas, célebre pelas aventuras de Os Três Mosqueteiros e do Conde de Monte Cristo. Dumas Filho soube dramatizar suas experiências, agregando fabulações do popular à requintada e frívola vida da elite burguesa, criando um melodrama clássico na história do teatro. Desde a estréia, A Dama das Camélias ficou num meio termo entre o drama romântico apresentado na Comédia Francesa para a elite, e os melodramas apresentados para a massa nos teatros de boulevards.

Uma resenha do livro aponta alguns aspectos interessantes. A tradicional Dama das Camélias conta a história de uma elegante cortesã francesa, em meados do século XIX, que encanta Paris com sua beleza, suas artimanhas no amor e no sexo, sua vida luxuosa e perdulária, mantida por ricos progenitores da emergente burguesia urbana. As mulheres eram a vaidade em vitrine dos senhores proprietários. Marguerite e Armand vivem uma grande paixão impossível pela segregação social da sociedade burguesa classista. O pai de Armand trama a separação e convence a Dama das Camélias que aquela relação é uma ruína para a família e para o futuro do filho. A Dama comove-se. Num ato de nobreza incomum, renuncia a Armand e, resignada com seu infortúnio, fica reconhecida, pela sociedade, como a cortesã mais honesta, humana, e guardiã da moral burguesa.

Na peça de Dumas, em cinco atos divididos em episódios, a pressão é social: ela não pode ficar com um homem de família nobre. Essa cortesã é inspirada em uma mulher real, exercendo até hoje um fascínio em todo o mundo. No fundo, é um livro moral, apesar da temática ousada ainda hoje. A personagem não tem máscaras. Vive à custa de homens. Mas é transformada pelo amor. As encenações, os conflitos, os equívocos e as vilanias que popularizaram a Dama não são de ordem psicológica, são, sim, sintomas do corpo social, são duas paixões de zonas diferentes da sociedade. O amor de Armand é o tipo de amor burguês, segregativo, apropriativo. O amor da Dama é o postulado de ser reconhecida, que culmina quando renuncia a ele, ou “assassina a paixão de Armand”, para eternamente ter o reconhecimento do mundo dos senhores.

O filme norte-americano de 1937 (título original Camille), com Greta Garbo, Robert Taylor e Lionel Barrymore, e dirigido por George Cukor, retrata essa história entre Marguerite Gautier e Armand Duval.

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Written by Paulo Amadeu

08/10/2010 às 10:28

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