L'itinérance

“Cinema: It is a ribbon of dreams.” (Orson Welles)

Filme: Freud, Além da Alma

Freud: the Secret Passion, movie Montgomery Clift, que ao lado de Marlon Brando e James Dean, foi um dos melhores e mais intensos atores de sua geração, vive o pai da psicanálise. Sua entrega ao papel é absoluta, comovente, apesar de lhe ter custado caro. No filme de John Huston, Clift tem um dos seus maiores desempenhos. Freud, Além da Alma (Freud: the Secret Passion. EUA, 1962), retrata o médico austríaco que revolucionou o século 20. Susannah York, que interpreta a paciente Cecily Koertner, e Larry Parks, que interpreta o médico Joseph Breuer, realizam, ambos, um bom trabalho no filme. Para quem deseja uma melhor compreensão sobre as origens da psicanálise, o filme pode ser de boa contribuição. O drama de 140 minutos foi filmado em preto e branco, e no Brasil é comercializado com áudio em inglês e legendas em português. Recomendo.

Paulo Camargo, numa boa resenha publicada em setembro de 2009 no Caderno G da Gazeta do Povo (cf. aqui), escreveu sobre o filme:

Nem Huston nem o produtor Wolfgang Rainhardt tinham certeza de que Monty, como era chamado em Hollywood pelos amigos, teria estrutura emocional para encarar um papel tão complexo. Desde o grave acidente de carro que sofreu em 1956, no qual quase morreu e teve parte do rosto deformada, sua vida foi alterada. A propensão à bebida tornou-se compulsão. Então vieram remédios para dormir e outros psicotrópicos, além de um comportamento errático, inconstante.

Tudo levava a crer que Clift não daria conta do desafio, mas Huston, que já havia trabalhado com o ator em Os Desajustados (ao lado de Clark Gable e Marilyn Monroe), resolveu apostar em sua intuição: o atormentado galã de clássicos como Um Lugar ao Sol e A Um Passo da Eternidade era seu Freud. De certa forma, o cineasta tinha razão.

A ideia de contar no cinema a história do médico austríaco que revolucionou a psiquiatria surgiu quando Huston rodou um documentário sobre ex-combatentes da Segunda Guerra Mundial, mental e emocionalmente dilacerados por suas experiências no campo de batalha. Sem nada saber sobre Freud, o cineasta, um homem voluntarioso e explosivo, quando não cruel, decidiu levar às telas os experimentos que conduziram à fundação da psicanálise. Pediu ao escritor e filósofo Jean-Paul Sartre o roteiro, que lhe entregou um calhamaço de 1.500 páginas nas quais nada – homossexualidade, masturbação, incesto e outros temas poucos digeríveis – ficou de fora.

Freud: the Secret Passion, movieHuston, ao se deparar com o roteiro gigantesco de Sartre, surtou. Não se conformava, em sua total ignorância sobre Freud, que houvesse tanto sexo na história. Pediu cortes. O francês recusou-se a fazê-los. Mas o script foi reescrito mesmo assim, numa espécie de gambiarra por anos deplorada pelo filósofo, que se recusou a assinar a versão final.

Ainda assim, Freud, Além da Alma é um bom filme, ainda que irregular. Talvez porque Clift tenha se dado ao trabalho de ler a biografia assinada por Ernest Jones e conseguido compreender a complexidade do personagem, que no filme prova de suas próprias teorias, representado por vezes entre o real e o onírico. Huston, possivelmente também purgando traumas passados, fez do set um martírio para Clift, provocando e ironizando o ator, fazendo insinuações sobre sua homossexualidade e sua fragilidade emocional. Ao ponto de Brooks Clift, seu irmão, e a atriz Susannah York, com quem Monty contracena no longa, defenderem a tese de que a morte do ator, em 1966, foi consequência direta desse abuso – o astro faria apenas um filme depois de Freud: Talvez Seja Melhor Assim, concluído pouco antes de ele sucumbir a um ataque cardíaco fulminante.

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Written by Paulo Amadeu

14/10/2010 às 14:30

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