L'itinérance

“Cinema: It is a ribbon of dreams.” (Orson Welles)

Filme: A Outra (Woody Allen)

Another Woman, movie

Gena Rowlands e Gene Hackman em “A Outra” (Another Woman)

A Outra (Another Woman, 1988) é um drama realizado por Woody Allen. Como outros filmes do diretor, este também aborda as neuroses comportamentais do dia-a-dia, sempre com uma crítica mordaz e sutil em longos diálogos analíticos.

O roteiro é bastante envolvente. A quinquagenária Marion Post (Gena Rowlands) não deixa nada por conta do acaso. Ela é fria, metódica e organizada e tem cada momento da sua vida sob controle. Para escrever seu novo livro, a professora de filosofia aluga um apartamento em Nova York ao lado do um consultório de um psicanalista. Através da parede, é possível ouvir os problemas dos pacientes e, em especial, de uma moça grávida. Marion, então, começa a ouvir frequentemente suas confissões e acaba revivendo velhos problemas adormecidos. Este fato muda profundamente a forma como ela passa a encarar a vida.

Este é um drama psicológico magistral que prova que não importa o quanto estejamos certos de tudo, sempre temos um pouco de fraqueza dentro de nós. Allen conseguiu, também neste filme, apresentar uma análise psicológica aguçada dos seus personagens principais. Ele rodeou-se de atores de primeira linha, tirando-lhes interpretações sublimes, como é o caso da inesquecível Gena Rowlands.

O filme tem duração de 81 minutos. Allen escreveu seu próprio argumento. A trilha sonora foi selecionada com partes de Bach, Satie, Kurt Weill, Mahler, Cole Porter e Jerome Kern. A fotografia de Sven Nykvist é um trabalho de mestre. Além de Rowlands, o filme conta com boas intepretações de Mia Farrow, Ian Holm, Blythe Danner e Gene Hackman. No Brasil o título não ajuda muito, podendo assumir sentido ambíguo; em Portugal é Outra Mulher. As legendas em português conseguem ser ruins em vários sentidos. Quem puder evitá-las deve fazê-lo. Para um breve trailer em inglês, clique aqui.

No livro Mulher 40 Graus à Sombra; reflexões sobre a Vida a partir dos 40 Anos, as autoras fazem um comentário sobre a personagem Marion que considero interessante. Escolho citá-las pois são, ao mesmo tempo, mulheres e psicanalistas:

Muitas vezes a pessoa nem percebe o que está acontecendo em seus “interiores” e se surpreende quando o drama encenado por uma “outra” traz à tona os próprios questionamentos.

O imprevisível invade e “fura” a parede de um quarto fechado. Uma voz desconhecida toca lá no fundo e leva à eclosão de uma crise.

Foi assim como Marion:

Another Woman, movieHá pouco completou cinquenta anos. Ela é a imagem da mulher bem-sucedida, charmosa, satisfeita consigo mesma. Tudo parece no devido lugar em sua vida: casamento, profissão e amizades.

Ela acaba de tirar uma licença para escrever um novo livro. Subloca um escritório na cidade e estabelece um horário rígido para sua atividade solitária. Logo no primeiro dia sua atenção é desviada: há uma passagem de som pelo duto de respiração. Ouve claramente o que se passa no apartamento ao lado, consultório de um psicanalista. Uma voz feminina, num tom angustiado, domina seu refúgio, sem que ela consiga evitar o interesse e curiosidade despertados. Comove-se com a profunda tristeza daquela fala. Sem perceber, vai se envolvendo intensamente.

Marion vai relembrando sua história. Está tomada por sensações que não entende. Chega a ter um sonho que a perturba, onde as questões da jovem analisanda misturam-se com a revivescência de passagens de sua própria vida. Há uma precipitação de sentimentos, emoções nunca experimentadas conscientemente. De repente suas convicções estão abaladas. Casualmente encontra-se com a jovem e acabam almoçando juntas. Marion pretendia conhecê-la melhor, mas é ela própria quem acaba fazendo confidências, de uma maneira inusitada. Ao voltar ao escritório, ouve a outra falando da estranha com quem acabara de se deparar: uma mulher que pensava ter tudo e não tinha nada. A mulher passara incólume pela anunciada crise dos trinta, nem sentira os quarenta e que constatava aos cinquenta a perda de seu propalado equilíbrio.

Está tomada por uma mistura de melancolia e esperança. Descobre em si mesma uma pessoa sensível e apaixonada. Sente-se muito só nesse processo de desmascaramento.

Passa agora pelos lutos evitados durante toda sua existência. Faz mudanças corajosas no seu presente. E pela primeira vez, desde muito tempo, experimenta uma sensação verdadeira de paz.

“E questionava se a memória é algo que se tem ou algo que se perde. Pela primeira vez em muito tempo eu me sentia em paz” (a personagem Marion Post, ao final de A Outra).

Obra citada: Maria Lucia da Cruz Pereira, Regina Maria Carneiro Leão de Barros Pimentel & Mariana Coutinho de Oliveira Fontes. In: Mulher 40 Graus à Sombra. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 1994, pp. 131-32.

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Written by Paulo Amadeu

21/12/2010 às 18:27

Publicado em Close-up

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