L'itinérance

“Cinema: It is a ribbon of dreams.” (Orson Welles)

Filme: Educação

An Education, movie

Ano passado, no fim de ano, sugeri um filme e neste quero sugerir um outro. Penso tratar-se de um bom filme para um momento como este, em que geralmente avaliações são feitas e alguns propósitos são firmados. O nome do filme é Educação.

John Ruskin (1819-1900), crítico de arte e crítico social britânico, escreveu que educar não significa, em rigor, “ensinar ao povo o que ele não sabe, mas ensiná-lo como deve se conduzir”. Deve ser observado, entretanto, que nem sempre isto é aprendido por meio da estrutura formal de ensino ou pelas lições dos livros didáticos, conquanto isto não represente necessariamente demérito a ambos. E o cientista britânico Thomas Henry Huxley (1825-1895), num ensaio publicado em 1877, escreveu algo nesta mesma direção:

Talvez o resultado mais precioso de toda educação seja a habilidade de fazer com que a gente faça o que deve fazer, quando deve ser feito, quer goste quer não de fazê-lo; é a primeira lição que deveria ser aprendida; e por mais cedo que o treinamento do homem comece, será provavelmente a última lição que aprenderá a fundo. (In: Technical Education)   

Este me parece um ponto saliente em Educação (An Education). O filme retrata a transição de uma adolescente à idade adulta, na Grã-Bretanha no início da década de sessenta, na passagem do período ultraconservador que se seguiu à Segunda Guerra Mundial para a década liberal que viria a seguir. Ela é uma aluna brilhante, dividida entre estudar para conseguir uma vaga em Oxford ou seguir pela alternativa mais excitante oferecida por um homem mais velho e carismático.

An Education, movieInspirado numa memória publicada pela jornalista Lynn Barber, o filme se passa em 1961 e conta a história de Jenny (Carey Mulligan), uma garota inglesa que, com apenas dezesseis anos, sabe pouco da vida e vive com a família no subúrbio londrino. Em seu quarto, ela escuta Juliette Greco e sonha com Paris e em conhecer o mundo. Seus pais Jack (Alfred Molina) e Majorie (Cara Seymour) a educam de maneira tradicional e nutrem grandes esperanças de que ela vá para a Universidade de Oxford e se torne uma profissional independente. A bela garota, conquanto muito inteligente e dedicada aos estudos, sofre com o tédio de seus dias de adolescente e aguarda impacientemente a chegada da vida adulta. Jenny vive o seu momento decisivo e crítico quando se envolve com um homem mais velho, David (Peter Sarsgaard). E neste processo toma atitudes emblemáticas, que indicam o que esperar dos jovens das décadas seguintes.

Achei o filme envolvente. Merece destaque a boa reconstituição de época, que é feita com músicas, roupas, comportamentos, estilos de penteados, entre outros detalhes da década de sessenta que estão presentes. A atuação da jovem atriz Carey Mulligan foi muito competente, natural e convincente, o que lhe rendeu uma primeira indicação ao Oscar. Sempre radiante, ela se conduz no enredo com leveza e faz com que o público se afeiçoe à personagem. A esmerada direção da dinamarquesa Lone Scherfig administra com propriedade a camêra, oferecendo um toque especial às sequências. A trilha sonora organizada por Paul Englishby é bem contagiante, com algumas canções que particulamente gosto muito. Algumas delas já publiquei aqui neste blog. Aliás, há muitos detalhes no filme que “me dizem respeito”.

Educação nos faz refletir sobre importantes questões. Inclusive traz à superfície algumas das tensões envolvidas no processo de aquisição da nova moral pela geração baby-boomer, mostrando que não raramente a nova moralidade teve um custo elevado. Sob alguns pontos de vista o filme pode ser rotulado de clichê, mas como todo rótulo, este também reflete o contexto em que é fabricado e aplicado.

Lançado em 2009 no Reino Unido, o drama de 95 minutos recebeu três indicações na edição do Oscar deste ano de 2010: Melhor Filme, Melhor Atriz (Carey Mulligan) e Melhor Roteiro Adaptado. Peter Sarsgaard contracenou com Carey Mulligan, e realizou um bom trabalho. O roteiro foi escrito por Lynn Barber e Nick Hornby. Para um trailer do filme acesse o meu espaço do Youtube aqui.

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Written by Paulo Amadeu

30/12/2010 às 21:24

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