L'itinérance

“Cinema: It is a ribbon of dreams.” (Orson Welles)

Filme: Meu Amigo Harvey

“Que maravilhosamente familiares são os loucos!”

(Herman Melville, 1819-1891)

Harvey, movie

Meu amigo Harvey (Harvey, 1950) é um excelente filme dirigido por Henry Koster. O ator James Stewart (1908-1997) é o protagonista, numa interpretação brilhante. O roteiro desta emocionante comédia, escrito por Mary Chase, vencedora do Prêmio Pulitzer, foi baseado em sua própria peça homônima. O filme já passou por três refilmagens (1972, 1985 e 1998).

Elwood P. Dowd, um afável e simpático homem de quarenta e dois anos, com uma boa renda e alguma excentricidade, que gosta de beber “ligeiramente acima da conta”, diz a todos que tem um amigo chamado Harvey. No entanto, ninguém consegue ver o tal amigo. Para complicar, ele diz que Harvey é um coelho de quase dois metros de altura. O coelho é um duende, na realidade — “realidade” é uma palavra relativa aqui, entenda… Elwood explica que Harvey é um “Púca”, uma criatura da mitologia céltica.

Toda essa histórica amizade de Dowd com Harvey leva ao desespero sua irmã Veta Louise e a sobrinha solteirona Myrtle. Ambas moram com ele e não conseguem manter amigos, pois todos acham que Elwood é louco. Com a vida social arrasada, e sem conseguir pretendentes para a filha, a irmã de Elwood tenta interná-lo em um manicômio. Porém, ao admitir que às vezes ela própria vê o coelho gigante, acaba sendo tomada por doente e é internada, enquanto Elwood passa por uma pessoa sã e o médico o deixa ir embora. Elwood continua sua amizade com Harvey, interagindo com todas as pessoas que encontra na ruHarvey, moviea ou no bar, até que um dia o Púca encontra outro amigo para acompanhar… Coisas hilariantes começam a acontecer. É a hora de Elwood consertar essa bagunça com sua generosa filosofia e seu amigo imaginário.

Se o leitor é profissional de alguma área psi, particularmente, este filme poderá lhe fazer muito bem. Uma pequena loucura para tornar a sua realidade suportável, como diria Proust.

Na edição do Oscar de 1951, Josephine Hull (1886-1957) foi premiada como melhor atriz coadjuvante por conta de sua excelente interpretação como Veta Louise Simmons, a irmã de Elwood. James Stewart foi indicado ao Oscar como melhor ator. Há um vídeo com o testemunho de Stewart acerca do filme. Acesse aqui uma fantástica cena. É quase impossível assistir a este filme e não se tornar fã de Stewart, que, com certeza, foi um dos maiores atores de todos os tempos.

“Impossível!” Será? Tanta coisa tida como “impossível” é possível neste mundo louco, não é verdade? Penso que, para terminar, nada melhor que uma genial citação de Fernando Pessoa:

A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana.
Não ter consciência dela, e ela não ser grande, é ser homem normal.
Não ter consciência dela e ela ser grande, é ser louco.
Ter consciência dela e ela ser pequena é ser desiludido.
Ter consciência dela e ela ser grande é ser gênio.

(PESSOA, Fernando. Aforismos e afins. Edição e prefácio Richard Zenith. Tradução Manuela Rocha. São Paulo: Cia das Letras, 2006. p.12.)

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Written by Paulo Amadeu

20/01/2011 às 6:19

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