L'itinérance

“Cinema: It is a ribbon of dreams.” (Orson Welles)

Filme: O Violino Vermelho

“O que fazer quando aquilo que mais se deseja, tão… perfeito… simplesmente aparece?”
(Charles Morritz, personagem de O Violino Vermelho)

Le violon rouge, 1998

É muito bom quando uma única coisa reúne vários dos seus prazeres. O filme O Violino Vermelho foi uma dessas coisas para mim: cinema, música, história, um bom roteiro… O filme percorre três séculos e cinco países enquanto conta a história de um violino e seus vários donos — um violino perfeito conhecido como o violino vermelho, por sua vívida cor de verniz.

No final do século XX, na cidade canadense de Montreal, um famoso violino será leiloado. Quando os lances têm início, a história do instrumento é revelada. Voltamos no tempo trezentos anos, mais especificamente ao ano 1681, à cidade de Cremona na península itálica. O mestre artesão Nicolo Bussotti decide construir um violino para homenagear o nascimento de seu filho. O Luthier está decidido a fazer o melhor e mais afinado violino do mundo, mas precisa se apressar, pois a gravidez de sua esposa está chegando ao final. Ele está confiante que o instrumento, sua obra-prima, fará do filho um grande músico. Porém, seus sonhos terminam com a morte da esposa e da criança durante o parto. Ainda assim, Nicolo resolve prestar-lhes uma última homenagem ao envernizar o violino. O pincel utilizado foi uma mecha de cabelo da esposa pranteada, e o violino carregará, por assim dizer, a alma da falecida consorte — alma e sangue. Tal deveria ultrapassar as barreiras da história, fazendo os sons entoados serem ouvidos por diversas gerações. Você já ouviu a expressão “a alma da música”? O violino vermelho traz uma interessante e comovente parábola para esta expressão.

Le violon rouge, 1998

Deixando Cremona, o instrumento passa por um mosteiro na Áustria no século XVIII, pela Inglaterra vitoriana, pela China durante a Revolução Comunista, até chegar finalmente ao Canadá de nossa época. A narrativa acompanha a trajetória do violino. À proporção em que viaja, entramos em contato com pessoas de épocas, idiomas e culturas diferentes, unidas pela sensibilidade musical e pelo singular instrumento. Para seus donos, o violino “trouxe” raiva, traição, amor e sacrifício, alterando para sempre suas vidas. Em sua histórica viagem, o violino vermelho é enterrado, vendido, saqueado, danificado, penhorado, e, não poucas vezes, tocado maravilhosamente. Foi executado em concerto por um músico renomado, dormiu com um menino, participou da relação sexual de um casal… Algumas vezes foi executado por jovens promessas e outras por músicos maduros ou ciganos, sempre se destacando por sua coloração. O enredo envolvente, ambientado pela música, alia também política, paixão, história e até intriga nos bastidores do leilão.

Quando o instrumento chega ao Canadá, o expert Charles Morritz (Samuel L. Jackson) é chamado. O perito analisa a raríssima peça, encomendando para tanto pesquisas especializadas, com a finalidade de comprovar a autenticidade e desvendar o mistério em torno do instrumento. À partir deste ponto-clímax, seguimos a história do ponto de vista de Morritz. Conforme a investigação vai transcorrendo, somos confrontados com a melancólica tese de que a obra de arte perdeu o seu valor na modernidade. No contexto do leilão, O Violino Vermelho exemplifica muito vividamente esta teoria: hoje em dia a obra de arte foi reduzida ao seu valor de mercado.

O Violino Vermelho (Le violon rouge, 1998) é uma produção canadense (num consórcio que envolve também Itália e Reino Unido) dirigida por François Girard, que é co-autor do roteiro. Um aspecto interessante é que o personagem principal do filme é o violino em si. Destaque-se que algumas cenas são filmadas como se o instrumento estivesse testemunhando o acontecimento. O diretor canadense executou um trabalho delicado, refinado mesmo.

Le violon rouge, 1998O grande elenco deste drama de 131 minutos tem seus núcleos segundo a narrativa contada em cinco locais diferentes ao redor do mundo: Cremona na Itália, Viena na Áustria, Oxford no Reino Unido, Xangai na China e Montreal no Canadá — os idiomas falados no filme são italiano, francês, alemão, inglês e mandarim. Em Cremona: Carlo Cecchi (Nicolo Bussotti), Irene Grazioli (Anna Bussotti) e Anita Laurenzi. Em Viena: Christoph Koncz e Jean-Luc Bideau. Em Oxford: Jason Flemyng (Frederick Pope) e Greta Scacchi. Em Xangai: Sylvia Chang e Liu Zifeng. Em Montreal: Samuel L. Jackson (Charles Morritz), Monique Mercure e Don McKellar. A imagem de Samuel L. Jackson, em direta associação com os seus trabalhos anteriores, parece deixá-lo um pouco deslocado aos olhos do espectador. Entretanto, embora afastada de suas performances em filmes de ação, a atuação de Jackson satisfaz.

O roteiro foi inspirado em um violino Stradivarius, The Red Mendelssohn (1720), que atualmente é tocado por Elizabeth Pitcairn. O avô de Pitcairn arrematou o instrumento por $1,7 milhões em um leilão em Londres, e ofereceu-o à neta como presente em seu aniversário de dezesseis anos. É chamado de The Red Mendelssohn por causa de uma listra vermelha única no seu lado superior direito. Desconhece-se como a listra apareceu, entretanto.

A trilha sonora de O Violino Vermelho não desaponta. O tema é executado por um solo de violino. Elizabeth Pitcairn está entre os poucos solistas que apresentam o Red Violin Chaconne composto para o filme por John Corigliano. Por falar nisto, na edição do Oscar do ano 2000 o filme venceu na categoria de Melhor Trilha Sonora. O filme colheu também muitos outros prêmios importantes, como o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro naquele mesmo ano.

O Violino Vermelho tem grande valor estético e, por si mesmo, contribui para uma reflexão em torno do lugar da arte hoje em dia. O escritor francês Henri-Marie Beyle, mais conhecido como Stendhal (1783-1842), opinou certa ocasião que "um romance é como um arco de violino; a caixa que produz os sons é a alma do leitor." Parafraseando Stendhal, podemos dizer que em O Violino Vermelho o arco foi executado com singular maestria; o outro papel cabe ao espectador.

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Written by Paulo Amadeu

16/05/2011 às 19:37

Publicado em Close-up

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