L'itinérance

“Cinema: It is a ribbon of dreams.” (Orson Welles)

“O Enfermeiro” de Machado de Assis – O Conto e o Filme

Parece-lhe então que o que se deu comigo em 1860, pode entrar numa página de livro? Vá que seja, com a condição única de que não há de divulgar nada antes da minha morte. Não esperará muito, pode ser que oito dias, se não for menos; estou desenganado.

Olhe, eu podia mesmo contar-lhe a minha vida inteira, em que há outras coisas interessantes, mas para isso era preciso tempo, ânimo e papel, e eu só tenho papel; o ânimo é frouxo, e o tempo assemelha-se à lamparina de madrugada. Não tarda o sol do outro dia, um sol dos diabos, impenetrável como a vida.

(ASSIS, Machado. “O Enfermeiro”. Obra Completa. Rio de Janeiro : Nova Aguilar 1994. v. II. Arquivo E-book)

Cinema Nacional: O Enfermeiro, 1999

Matheus Nacthergaele e Paulo Autran em “O Enfermeiro” (1999)

O ContoO Enfermeiro está, certamente, entre os melhores contos de Machado de Assis (1839-1908). Originalmente publicado como parte do livro Várias Histórias, em 1896, o conto é um exemplo maduro do realismo machadiano. Narrado em primeira pessoa a um interlocutor imaginário, trata-se da história de Procópio José Gomes Valongo, o último enfermeiro do rabugento coronel Felisberto. Este era tão rico quanto ranheta, o que havia motivado os inúmeros pedidos de demissão de enfermeiros anteriores. Por esta razão, Procópio é tratado com toda a deferência pelo pároco da pequena vila interiorana, que via no trabalho do jovem recém-chegado a última esperança. Movido em parte pelas virtudes recomendadas pelo vigário local, mansidão e caridade, e em parte pelo bom ordenado, o enfermeiro submete-se a terríveis maus tratos. Porém, termina não resistindo aos xingamentos, bengaladas e agressões várias, e esgana o seu indócil paciente.

Esganado o rabugento e intratável Felisberto, e ocultado o crime, a história sofre uma reviravolta, uma vez que o enfermeiro foi surpreendido ao saber que se tratrava do único beneficiário no testamento do riquíssimo coronel. Agora o drama de consciência do ex-estudante de teologia é intensificado pela herança do pecúlio do velho. É neste ponto que começa o processo mais interessante do conto. O narrador remói-se de remorso, mas a culpa arrefece quando se vê reconhecido por sua dedicação extrema. Procópio começa a arranjar desculpas em sua mente para arejar a consciência — uma temática muito comum em Machado de Assis. No percurso do drama psicológico, a consciência, em ambiente sufocado, tratará de abrir todas as portas e janelas que puder. Trata-se do “mecanismo” por vezes denominado de “racionalização”, que consiste em acomodar as circunstâncias e absolver-nos no tribunal íntimo, justificando os nossos interesses e impondo-nos em credibilidade diante daqueles que nos rodeiam.

O finado já se encontrava muito doente e decrépito “e, portanto, à beira da morte”, racionalizava o enfermeiro. “O velho tinha um aneurisma em estágio terminal que iria estourar a qualquer hora mesmo”. Cinema Nacional: O Enfermeiro, 1999Quando as pessoas vinham elogiar sua paciência com um velho tão insuportável, Procópio tratava de elogiá-lo o máximo possível em público. No final, o artista acabou se transformando no próprio personagem, vindo a eliminar de sua consciência todo e qualquer resto de crise. Se a princípio decidira doar toda a herança, Procópio logo perde o ímpeto de fazê-lo. Ele resolve converter todos os bens em títulos e dinheiro, embora distribua uma pequena porção aos pobres. Deu à igreja matriz uns paramentos novos e construiu um túmulo de mármore em homenagem ao coronel.

Tratando de temas como a culpa, a gratidão e o arrependimento, O Enfermeiro é um bom argumento sobre como o comportamento humano pode ser contraditório. Solange Martins escreve que, como é tradição na obra machadiana, nesse conto há “uma discussão bastante complexa do porquê de as crises existenciais terem duração tão breve, uma vez que elas podem ser facilmente controladas por uns contos de réis”. A trajetória de Procópio ilustra “as distâncias entre a percepção racional e objetiva da realidade e os sentimentos impulsivos que controlam nossas alegrias e tristezas”.

“Bem-aventurados os que possuem porque eles serão consolados”.

O Filme – Dirigido pelo cineasta Mauro Farias, O Enfermeiro (1999) é um média-metragem com cerca de quarenta minutos de duração. O filme transporta para o cinema o conhecido e genial conto de Machado de Assis, destacando, no pequeno elenco, o protagonismo de Matheus Nacthergaele e Paulo Autran, contando ainda com as atuações de Raphael Molina, Antonio Gonzalez e Giuseppe Oristâneo. Com desempenhos muitos bons dos dois atores principais, o filme aproveita o próprio texto machadiano, o que oferece imensa valorização ao roteiro. Naturalmente, dadas as diferenças de liguagem entre o cinema e a literatura, no filme há cortes, acréscimos e adaptações — o que por definição é algo bom, diga-se de passagem. “A literatura serve ao cinema, emprestando-lhe suas histórias, e o cinema retribui, dando-lhes cor, movimento e som”, observa com propriedade Solange Martins no texto já referido. A trilha sonora tem alguns momentos marcantes, com destaque para o repertório barroco com Concertos para Piano e Orquestra de Johann Sebastian Bach, em interpretação do pianista João Carlos Martins. O filme tem sido recomendado para discussões em sala de aula, com bons resultados relatados por professores que dele têm feito uso.

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Written by Paulo Amadeu

18/10/2011 às 10:55

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