L'itinérance

“Cinema: It is a ribbon of dreams.” (Orson Welles)

Filme: Pelle, O Conquistador (1987)

(Atenção: spoiler)

Pelle erobreren, 1987

Max von Sydow e Pelle Hvenegaard em “Pelle, O Conquistador” (Pelle erobreren, 1987)

Para quem está distante, pode parecer que Dinamarca e Suécia são “tudo a mesma coisa”. A proximidade geográfica, e as muitas convergências históricas, étnicas e culturais, podem levar a este tipo de impressão a respeito daqueles dois “povos irmãos”. Porém, o que diriam japoneses e coreanos, ou indianos e paquistaneses, ou canadenses e estadunidenses, ou brasileiros e argentinos, se os seus respectivos países fossem confundidos e considerados “tudo a mesma coisa”?

Localizados na Europa Setentrional, Suécia e Dinamarca são dois países nórdicos que se encontram ligados pela Ponte do Øresund. A Dinamarca é o mais meridional dentre os países nórdicos, e compõe-se de uma grande península, a Jutlândia, e muitas ilhas, algumas grandes e centenas menores, muitas vezes referidas como o Arquipélago Dinamarquês. Dinamarca e Suécia, juntamente com a Noruega, formam a região que geográfica e historicamente é chamada, no sentido mais estrito, de Escandinávia. Em geografia física, porém, a Dinamarca é considerada parte da planície setentrional europeia e não da península Escandinava.

As precárias condições de vida dos trabalhadores europeus caracterizaram as mudanças sociais ocorridas na segunda metade do século XIX, com repercussões diretas no início do século XX. Este impacto pode ser observado na imigração de suecos para a Dinamarca durante aquele período. No século XIX a Suécia chegou a ter uma taxa de crescimento populacional de 1,2% ao ano, que lhe permitiu dobrar de população em sessenta anos. Este fenômeno ocorreu antes da Revolução Industrial e teve como consequência a pauperização da população rural, forçando muitos suecos a emigrar, principalmente para os Estados Unidos da América. Mesmo entre aqueles suecos que se viram impelidos a emigrar para a Dinamarca, o sonho de seguir para a América era algo muito forte e arraigado.

Pelle erobreren, 1987

“Esse novo país para onde vamos é muito diferente… Ganha-se tão bem que as crianças não precisam trabalhar. Podem brincar o dia inteiro”.

Pelle, O Conquistador (Pelle erobreren, 1987) é um filme dinamarquês, do gênero drama, dirigido pelo cineasta dinamarquês Bille August. Foi uma co-produção entre empresas da Dinamarca e Suécia. Trata-se de um roteiro adaptado pelo diretor e outros quatro cooperadores, baseado no famoso romance publicado em 1910 pelo escritor dinamarquês Martin Andersen Nexø (1869-1954).

Com a Suécia em depressão econômica, um barco cheio de imigrantes suecos chega à ilha dinamarquesa de Bornholm. Entre eles estão o viúvo Lasse Karlsson e seu filho Pelle, que, procedentes de Tomelilla, se mudavam para a Dinamarca a fim de encontrar trabalho, após a morte da mãe do menino. O velho Lasse e seu filho temporão dependem um do outro para sobreviver. Com poucas chances de conseguir um bom emprego em seu novo lar, ambos são empregados em uma grande fazenda, onde submetem-se a serem tratados com a mais baixa forma de vida. Ali eles engrossam o contingente em um cotidiano frequentemente cruel, num universo de camponeses, patrões e mulheres infelizes. O filme de Bille August mostra-nos a estreita relação que se vai mantendo entre pai e filho, enquanto eles articulam uma vida o mais feliz possível no meio de tanta opressão. À medida que o drama se desenvolve, somos apresentados à fazenda com suas semeaduras e colheitas, ao remoto e belíssimo lugar com suas estações bem nítidas, à força do mar, às instituições locais, como a escola e a igreja, e sobretudo aos homens e mulheres, com seus sonhos, amores e conflitos.

Pelle erobreren, 1987

Pelle erobreren, 1987

“Perdoe-me, Senhor, abusar de suas dádivas, mas é uma terrível tentação quando se sofre”.

Enquanto assiste as terríveis humilhações que sofre o seu pobre pai, o menino Pelle é inserido em trabalho pesado, começa a falar dinamarquês, é matriculado na escola local, e aos poucos vai ganhando autoconfiança, ainda que muito discriminado como um estrangeiro. Não obstante, o garoto e seu pai não estão dispostos a desistir do sonho de encontrar uma vida melhor do que a que deixaram na Suécia. À medida em que amadurece, Pelle acalenta o desejo de conhecer o mundo e começa a dar conta de sua necessidade de tornar-se independente. Terá que crescer antes mesmo de atingir a puberdade, a fim de não enfrentar o mesmo triste destino de seu pai. Partirá sozinho mas otimista, cheio de perguntas e com uma necessidade enorme de saber mais sobre a vida.

Pelle erobreren, 1987

Pelle erobreren, 1987

O formidável e experiente Max von Sydow, em mais um excelente trabalho, é o protagonista deste drama épico sobre a capacidade de sobrevivência do ser humano, interpretando o pobre viúvo que emigra com o seu pequeno filho. O ator Pelle Hvenegaard — que tinha treze anos à época — foi escolhido entre duas mil crianças. Seu nome coincide com o do personagem porque sua mãe leu, durante a gravidez, o livro de Martin Andersen Nexø. O filme também é estrelado por Erik Paaske, Björn Granath, Morten Jørgensen e Astrid Villaume.

O score musical é assinado pelo compositor sueco Stefan Nilsson, e conta com momentos muito bons; um deles é a execução em concertina da conhecida música natalina “Noite Silenciosa” (Silent Night). Um destaque no filme é a fotografia exuberante, que manifesta o olhar apurado e detalhista de Jörgen Persson, diretor de fotografia.

Pelle erobreren, 1987

Em 1988, o filme Pelle, O Conquistador ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, França. Na edição do Oscar de 1989, ganhou a estatueta na categoria Melhor Filme Estrangeiro, tendo sido o segundo filme dinamarquês a receber o referido prêmio; o anterior foi A Festa de Babette, um ano antes. Foi também indicado ao Oscar de Melhor Ator Principal (Max von Sydow). O bom trabalho conduzido por Bille August também ganhou o Globo de Ouro, em 1989, na categoria Melhor Filme Estrangeiro. Consta ainda da lista do The New York Times (EUA) dos cem melhores filmes de todos os tempos.

Pelle erobreren, 1987

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Written by Paulo Amadeu

12/11/2011 às 21:42

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