L'itinérance

“Cinema: It is a ribbon of dreams.” (Orson Welles)

Filme: A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987)

(Atenção: spoiler)

A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987)

A maioria das pessoas vive hoje  em uma cultura onde a paisagem está pontilhada de restaurantes de todos os tipos. Além disso, a atual publicidade com a qual somos alimentados convenceu-nos de que se não tomarmos três boas refeições, entremeadas com diversas refeições ligeiras, corremos o risco de “morrer de fome” ou de desenvolver uma subnutrição. Porém, estas duas realidades, amplamente disseminadas hoje em dia, são estranhas a muitos contextos carentes da atualidade, e com certeza não faziam parte do cotidiano da maioria das pessoas no passado. Acrescente-se que desde tempos bem remotos se encontram exemplos de pessoas inclinadas a praticar uma  rigidez espartana. O ascetismo tende a desprezar as boas coisas da vida; o asceta se nega à alegria, e propõe a abstinência dos prazeres. O dualismo asceta tem influenciado grandemente a religiosidade ocidental.

Martine e Filippa são duas irmãs idosas que se exercitam incansavelmente num tipo de piedade cristã característicamente ascética. No século XIX, mais especificamente em 1885, as duas mulheres, que não se casaram,A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) vivem em uma pequena aldeia na remota e bela, porém igualmente árida e fria, costa oeste da Jutlândia, a grande península da Dinamarca. Martine e Filippa receberam estes nomes como uma homenagem aos reformadores luteranos do século XVI, Martinho Lutero e Philipp Melanchthon. O pai das duas anciãs foi um pastor que fundou um grupo religioso derivado do luteranismo. A seita era caracterizada por um forte rigor ascético e pietismo cristão manifesto em obras de caridade. Conquanto o pastor já houvesse falecido há muito tempo e o grupo religioso não arrebanhasse novos convertidos, as duas irmãs, enquanto envelheciam, presidiam abnegada e amorosamente a sua congregação de fiéis rurais, cada dia menor e mais colorida por cabelos brancos.

Retrocedendo no tempo quarenta e nove anos, encontramos as duas irmãs, Martine e Filippa, em sua beleza arrebatadora. O pai rejeita todos os pretendentes, enaltecendo a vida celibatária, e estimando o amor terreno e o casamento como “ilusões vazias”. As filhas são para ele como “as mãos direita e esquerda”, ou como “a sua prata e o seu ouro”. Cada filha é cortejada por um pretendente apaixonado que visita a Jutlândia. Martine por um oficial da cavalaria sueca, e Filippa por um barítono francês da Ópera de Paris, que, ensinando canto à filha do ministro religioso, quebrava com o canto lírico o silêncio da costa. A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) Os dois pretendentes apaixonaram-se desesperadamente. Porém, não podendo ter o seu amor correspondido, o jovem oficial vai embora sentindo-se indigno da mão de Martine. O barítono francês, por sua vez, que desejava levar Filippa para o canto lírico parisiense, após várias tentativas, empolga-se e beija-a durante um ensaio de um dueto de Don Giovanni. Filippa decide suspender as aulas e recusa a oferta de estrelato e riqueza.

Trinta e cinco anos depois, isto é, em 1871, em noite de tempestade, Babette Hersant bate à porta das duas irmãs. Babette chega ao pequeno vilarejo na Dinamarca fugindo da França durante a repressão à Comuna de Paris. Ela traz uma carta do ex-pretendente de Filippa, o cantor de ópera, explicando a sua situação e recomendando-a para ser acolhida na casa, onde poderia trabalhar para custear sua pensão. Babette se emprega como faxineira e cozinheira, é instalada num pequeno e modestíssimo quarto preparado no sótão da residência, e ali vive por quatorze anos.

Babette torna-se conhecida no vilarejo, aprendendo com dificuldades o novo idioma, até que um dia recebe a notícia de que havia ganho uma fortuna na loteria francesa. O prêmio montava em 10.000 francos, que certamente lhe permitiriam voltar à sua antiga casa e ao seu estilo de vida mais requintado. Ninguém no vilarejo sabia de sua qualificação e da atividade que realizava em Paris, nem mesmo as duas irmãs, conquanto, crescentemente, os dotes culinários da francesa vão se fazendo evidentes. Ao invés de voltar à França, ela pede permissão para preparar um jantar em comemoração ao centésimo aniversário do pastor. Embora com alguma relutância, as irmãs concordam em aceitar a sua oferta de pagar "um verdadeiro jantar francês". Babette se ausenta do vilarejo por alguns dias, A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) a fim de pessoalmente providenciar os suprimentos a serem enviados para a Jutlândia. Os ingredientes são abundantes, suntuosos e exóticos, e sua chegada causa muitos comentários entre os moradores do pequeno povoado.

Com a chegada dos igredientes e iguarias riquíssimas e refinadas, com seu aspecto até mesmo chocante, e ao terem início os preparativos, as irmãs começam a se preocupar que a refeição será, na melhor das hipóteses, um grande pecado de luxúria e sensualidade, e na pior, alguma forma de festival pagão e diabólico, um ritual de bruxaria. Em uma rápida reunião, as irmãs e os fiéis da congregação concordam em participar da refeição, a fim de não magoar a amiga de todos eles. Decidem, entretanto, renunciar a qualquer tipo de prazer na refeição, procurando ser discretos e reservados, e evitando fazer menção à comida durante o tempo em que estiverem ceando.

Mais do que apenas um deleite epicurista, a festa é uma manifestação de imenso afeto de Babette, um ato com ecos de auto-sacrifício eucarístico. Embora não conte a ninguém, Babette está gastando todo o prêmio que ganhara em seu gesto de gratidão. Você é capaz de imaginar os detalhes que envolvem uma refeição no restaurante mais caro da França? A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) Imagine os procedimentos protocolares, as vestimentas dos serviçais, os talheres, os guardanapos, os cristais, os linhos, as louças chinesas, as bebidas e licores, os apertivos, as sobremesas… Quando entram naquela singela e rústica residência, a princípio os convidados ficam perceptivelmente assustados e tomados de um indisfarçável sentimento de culpa.

O ambiente branco e cinza daquele povoado ganha cores no momento do banquete, quando são focados os diversos tipos de pratos e delícias. E tais quais peixes, “os convidados são fisgados pela boca”. A figura de mais destaque entre os convidados é o antigo ex-pretendente de Martine, agora um famoso general casado com alguém da corte da rainha. Ele estava de passagem na região, em residência de sua tia, e como um homem cosmopolita, e ex-adido em Paris, é a única pessoa à mesa com qualificação para comentar sobre o banquete. É ele quem fornece aos hóspedes informações abundantes e explícitas sobre a extraordinária qualidade do serviço, da comida e da bebida. O menu responsável pelo arrebatamento dos presentes inclui Potage à la Tortue, Blinis Demidoff au Caviar, Caille en Sarcophage avec Sauce Perigourdine, salada de chicória belga e nozes ao vinagrete, e Les Fromages, com queijo azul, mamão, figos, uvas, abacaxi e romãs. O grand finale traz como sobremesa Savarin au Rhum avec des Figues et Fruits Glacées. O menu se completa com numerosos e raros vinhos, incluindo um 1845 Clos de Vougeot e um 1860 Veuve Clicquot champagne. O general comenta que o refinamento e os custos do banquete, assim como o estilo e luxo do serviço só poderiam ser comparados ao que ele experimentara no famoso Café Anglais, em Paris, onde o Chef anterior era uma mulher famosíssima por suas extraordinárias habilidades culinárias — ocupação anterior de Babette, até então desconhecida pelas irmãs, e revelada por ela em ato de confiança após a refeição. A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) O comentário do general culmina com um breve discurso reflexivo baseado no Salmo 85.10, que algumas vezes ouvira do falecido pastor: "A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram”.

Embora os celebrantes do vilarejo inicialmente se recusassem a comentar sobre os prazeres terrenos da comida e da bebida, e a reconhecerem os dons extraordinários de Babette como divinos, com a euforia suscitada pelo jantar, dá-se a quebra de desconfiança e superstições, elevando os comensais camponeses não apenas fisicamente, mas espiritualmente. Hostilidades e disputas  antigas são esquecidas, amores antigos são reacendidos e uma redenção do humano se estabelece à mesa. Sentem-se todos eles privilegiados com a oportunidade daquela celebração, indizivelmente gratos por tal graça eucarística.

Após a revelação da verdadeira identidade de Babette, as irmãs assumem que ela irá agora voltar a Paris. Surpreendentemente ela informa que todo o seu dinheiro se foi e que ela não vai a lugar algum. As irmãs reagem perplexas, assustadas. Babette informa que aquele banquete no Café Anglais tem um custo de 10.000 francos. Em lágrimas, Martine comenta: "Agora você vai ser pobre o resto da vida!". Ao que Babette responde: "Um artista nunca é pobre".

“Estamos todos famintos e carentes”

Segundo a Psicanálise, pulsão é “o processo dinâmico que consiste numa pressão ou força que faz o organismo tender para um objetivo”. Segundo Freud, uma pulsão tem a sua fonte numa excitação corporal; o seu objetivo ou meta é suprimir o estado de tensão que reina na fonte pulsional; é no objeto ou graças a ele que a pulsão pode atingir a sua meta. No entendimento inicial freudiano, as pulsões de autoconservação deveriam ser situadas, já de início, do lado do princípio de realidade e as pulsões sexuais ao lado do princípio do prazer. Freud será levado a revisar este conceito posteriormente.

No livro Mulher 40 Graus à Sombra; reflexões sobre a Vida a partir dos 40 Anos, as autoras fazem um comentário sobre o jantar de Babette que considero interessante. Escolho citá-las pois são psicanalistas:

Babette, uma mulher de mais ou menos cinquenta anos […] não revelara a ninguém a sua habilidade: ‘transformar um jantar numa espécie de caso de amor, onde fosse impossível distinguir entre o apetite físico e o espiritual’. Dando o melhor de si, na expressão de sua arte, seduzia a todos que provasse de sua mágica comida.

Não era à toa que os velhinhos, A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) que tinham medo de felicidade, fissessem um pacto contra a bruxa Babette: comer como se nunca tivessem tido paladar.

O banquete começado; lentamente as manifestações de medo e desconfiança iniciais vão cedendo. Redescobrem o prazer, lambem os beiços e chupam os dedos. Velhos enamorados se reencontram através de olhares de cumplicidade e toques de carinho. Confissões e gestos reasseguram antigos sentimentos de amizade fraterna. E, assim, vão exorcizando culpas, traições e todas as mazelas e mumunhas que os mantinham em isolamento. Recuperam a capacidade de ouvir, falar, ver, sorrir, conviver… viver.

A julgar pela reação final das pessoas que curtiram a festa de Babette, num incontrolável apetite, há que suspeitar que estamos todos famintos e carentes, precisando resgatar sabores e valores.

O também psicanalista Rubem Alves, num artigo interessantíssimo, lança seu olhar perspicaz sobre Babette e sua arte de seduzir:

Quem pensa que a comida só faz matar a fome está redondamente enganado. Comer é muito perigoso. Porque quem cozinha é parente próximo das bruxas e dos magos. Cozinhar é feitiçaria, alquimia. E comer é ser enfeitiçado. Sabia disso Babette, artista que conhecia os segredos de produzir alegria pela comida. Ela sabia que, depois de comer, as pessoas não permanecem as mesmas. Coisas mágicas acontecem. […] De fato, a feitiçaria aconteceu: sopa de tartaruga, cailles au sarcophage, vinhos maravilhosos, o prazer amaciando os sentimentos e pensamentos, as durezas e rugas do corpo sendo alisadas pelo paladar, as máscaras caindo, os rostos endurecidos ficando bonitos pelo riso, in vino veritas… 

A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) é um filme dinamarquês dirigido por Gabriel Axel, com roteiro baseado em conto de Isak Dinesen (pseudônimo de Karen Blixen), que já oferecera ao cinema a base do roteiro para o filme Entre dois amores (Out of Africa, 1985). O grande e bom elenco é fomado por Stéphane Audran, Bodil Kjer e Birgitte Federspiel, além de nomes como Jarl Kulle, Jean-Philippe Lafont e Vibeke Hastrup. Em 1988 o filme ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e colheu muitos outros prêmios importantes. Alguns bons destaques do filme são a trilha sonora por Per Nørgaard, a direção de arte de Sven Wichmann e a direção de fotografia por Henning Kristiansen.

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Written by Paulo Amadeu

26/12/2011 às 12:16

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