L'itinérance

“Cinema: It is a ribbon of dreams.” (Orson Welles)

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Filme: A Carta (The Letter, 1940)

“A Carta” (The Letter, 1940)

Bette Davis e Herbert Marshall em “A Carta” (The Letter, 1940)

Assisti recentemente ao filme A Carta (The Letter, 1940). Nos gêneros drama e suspense, trata-se de um bom noir conduzido por William Wyler. O roteiro é baseado em uma peça homônima de W. Somerset Maugham, autor dos clássicos Servidão Humana, O Fio da Navalha e O Véu Pintado. Publicado por Maugham em 1927, A Carta já recebera uma versão para o cinema em 1929.

A história se passa em uma plantação de borracha na colônia britânica da Malásia. Em uma cena chocante e memorável, numa noite de lua cheia, uma esposa carinhosa e aparentemente fiel e honrada, mata um homem à sua porta, disparando contra ele vários tiros. Ela alega ter sido em legítima defesa, e tudo parece resultar esclarecido. Mas o aparecimento de uma misteriosa carta agita o enredo. Esta carta será apresentada em tribunal durante o julgamento do caso.

Envolvendo-nos com boa fotografia e com a trilha sonora de Max Steiner, o filme de Wyler nos introduz no contexto dramático de um relacionamento extraconjugal. Em um momento do enredo, alguém verbaliza a exclamação: “É estranho um homem viver com uma mulher durante dez anos e não saber nada sobre ela”. Pode parecer “estranho”, mas não é tão incomum assim quanto possa parecer a alguns. Encarnada em cena com o brilhantismo de Bette Davis, a obra de Maugham apenas ressalta in extremis tal realidade. Em Psicanálise sabe-se bem que pouca coisa é ao mesmo tempo tão desejável e rejeitada quanto relacionar-se com alguém que nos conhece. Em geral, os nossos relacionamentos são com pessoas que não nos conhecem pelo que somos, mas pelo que fazemos, e que nos desejam não necessariamente porque nos conhecem, mas sim porque nos julgam úteis. Diante de tais pessoas, é natural procurarmos esconder aquilo que sabemos que poderia macular a imagem que queremos que tenham de nós.

Entre os bons dramas conduzidos por Wyler com grande densidade psicológica, A Carta é um que não deve passar ignorado. A produção foi indicada ao Oscar em sete categorias, entre as quais se incluem as de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz (Bette Davis) e Melhor Trilha Sonora Original (Max Steiner).

Written by Paulo Amadeu

01/11/2012 at 9:09

Filme: Colcha de Retalhos (How to Make an American Quilt)

How to Make an American Quilt, movie

A tradição das colchas de patchwork é algo muito bonito na cultura norte-americana. Trata-se de uma arte comovente, que exige sensibilidade e esmero. As técnicas da arte de quiltar têm sido transmitidas pelas mães e avós às suas descendentes. No período da Grande Depressão, após a quebra da Bolsa de Valores, isto é, entre 1929 e 1939, as quilteiras aproveitavam todo e qualquer tecido disponível, usando formatos que permitiam aproveitamento total dos tecidos.

Um filme que gosto bastante é Colcha de Retalhos (How to Make an American Quilt). Um filme de boa sensibilidade e que retrata tão bem a alma humana, confusa, complexa e nada fixa.

Enquanto elabora sua tese e se prepara para se casar, Finn Dodd (Wynona Ryder), uma jovem mulher, vai morar na casa da sua avó materna (Ellen Burstyn). Ela decide passar esse tempo na casa de sua avó para, assim, poder refletir sobre seus sentimentos. Na casa da avó Finn revive uma experiência já muito conhecida, desde a infância. Lá estão várias amigas da família, que preparam uma elaborada colcha de retalhos como presente de casamento. É tradição por lá que as mulheres teçam colchas de retalho como presente de casamento. E enquanto elas se dedicam a atividade, relembram antigas histórias de relacionamentos amorosos. Neste meio tempo Finn se sente atraída por um desconhecido, criando dúvidas no seu coração que precisam ser esclarecidas.

How to Make an American Quilt, movieTendo as mulheres decidido pela colcha de retalhos como presente de casamento, cada uma, então, se incumbe de bordar seus retalhos para, no final, juntarem as peças e comporem a colcha. O interessante é que não são retalhos quaisquer, mas quadrados que ilustram a história amorosa de cada uma. A colcha tecida tem como tema “Onde mora o amor?”. As figuras ou desenhos representam a mulher que os compôs. A jovem, provavelmente movida pelo momento conflituoso por que passa, acaba conversando com cada uma delas, onde tem a oportunidade de ouvir relatos vivos sobre essas experiências. Assim, enquanto o trabalho é feito, Finn ouve o relato de paixões e envolvimentos, nem sempre moralmente aprováveis mas repletos de sentimentos, que estas mulheres tiveram. Passamos a conhecer os vários “retalhos” de amor, com a sua beleza, tristeza, decepções e esperanças… Enfim, as versões femininas sobre seus homens e a relação com eles.

How to Make an American Quilt, movie How to Make an American Quilt é um filme feminino, onde os homens são tema frequente, mas ocupam um papel coadjuvante. A colcha completa, que vai cobrir aquela jovem e seu futuro marido, reúne todas as histórias de amor e representa a feminilidade daquelas mulheres. Trata-se de um drama romântico sobre o universo feminino, e nos envolve com a vida das costureiras e seus mundos interiores. Cada retalho que compõe a colcha traz uma simbologia. O jardim de rosas amarelas, simbolizando o cenário de um grande amor. O retalho de Sophia Darling é o mesmo do seu vestido que usara no seu primeiro encontro de amor, representando ondas. A esposa traída confecciona em seu retalho os objetos de pintura representando o seu amor, e assim por diante.

O filme é muito bem “tecido”, permitam-me o verbo. É tecido como uma alegoria – a alegoria da colcha de retalhos. No início do filme pode-se observar uma cena que foca o desenrolar de um carretel de linha, fazendo uma comparação entre este procedimento e a vida do ser humano. E o que acontece naqueles diálogos de Finn com aquelas mulheres mais velhas é exatamente isso. Outros símbolos aparecem no filme: a cor vermelha, um poema, os morangos, um corvo… Num ponto clímax, um forte vendaval inrompe como uma metáfora das ideias da moça, e do conturbado momento no drama. A cabeça da jovem noiva está confusa principalmente depois da conversa com sua mãe. Finn entra em conflito não sabendo ao certo se realmente quer se casar, pois em toda a sua vida ouviu de sua mãe que o casamento era uma grande bobagem, e que compromissos monogâmicos para toda a vida eram impossíveis de se cumprir. Depois do vendaval tudo ficou mais claro para a noiva, e também para as outras mulheres. Colcha de Retalhos é uma alegoria primorosa, rica em detalhes e sutilezas, que você não deve deixar de assistir.

How to Make an American Quilt foi lançado em 1995 nos Estados Unidos. Conta com a excelente direção de Jocelyn Moorhouse, e bons desempenhos de Wynona Ryder, Anne Bancroft, Ellen Burstyn, Kate Nelligan, Alfre Woodard, entre outros. Dedique alguma atenção à trilha sonora organizada por Thomas Newman. Em alguns momentos as músicas escolhidas para o fundo vestem como uma luva; melhor dizendo, encaixam-se na trama como retalhos meticulosamente escolhidos para compor toda a harmonia da colcha das quilteiras.

Written by Paulo Amadeu

29/10/2012 at 12:56

Publicado em Close-up

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Filme: Um Método Perigoso (A Dangerous Method, 2011)

(Atenção: spoiler)

A Dangerous Method, 2011, movie

Keira Knightley (Sabina Spielrein) e Michael Fassbender (Carl Jung) em “Um Método Perigoso” (A Dangerous Method, 2011)

Um Método Perigoso (A Dangerous Method, 2011) é um filme histórico, britânico, em consórcio que envolve também empresas alemãs, canadenses e suíças. O drama biográfico é dirigido pelo cineasta canadense David Cronenberg, conhecido por trabalhos como A Mosca (1986), Gêmeos; Mórbida Semelhança (1988), Crash; Estranhos Prazeres (1996) e Marcas da Violência (2005). O filme estreou em 2 de setembro de 2011 no Festival de Cinema de Veneza, recebendo destaque também em outros festivais posteriores.

Um Método Perigoso trata-se de um roteiro do premiado Christopher Hampton, ganhador do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado com Ligações Perigosas (1988) e que foi também indicado ao mesmo prêmio com Desejo e Reparação (2007). Hampton recorreu a uma peça de sua autoria, The Talking Cure (2002), que por sua vez se baseia no livro A Most Dangerous Method, de autoria de John Kerr, publicado em 1993. A partir da peça de Hampton, David Cronenberg arquitetou um filme admirável sobre as origens da Psicanálise.

O roteiro de Um Método Perigoso envolve cinco personagens, sendo os principais Carl Gustav Jung (1875-1961), o conhecido psiquiatra suíço fundador da Psicologia Analítica,  e Sabina Naftulovna Spielrein (1885-1942), judia russa que se tornou uma das primeiras psicanalistas, e que, inclusive, foi analista de Jean Piaget (1896-1980), renomado psicólogo suíço que dedicou-se ao estudo do desenvolvimento humano. Além de Jung e Spielrein, compõem o núcleo principal do filme: Sigmund Freud (1856-1939), fundador da Psicanálise, A Dangerous Method, 2011, movieEmma Rauschenbach Jung (1882-1955), escritora e também psicanalista, esposa de Jung, e Otto Gross (1877-1920), psicanalista austríaco, um dos primeiros discípulos dissidentes de Freud. Com várias ideias bastante revolucionárias, Gross propunha uma forma primitiva de antipsiquiatria e liberação sexual, e desenvolveu uma forma anarquista da chamada psicologia profunda (em alemão Tiefenpsychologie), em que rejeitava a necessidade civilizatória da repressão psicológica tal como a defendia Freud.

Boa parte da história de Um Método Perigoso recebeu anteriormente uma versão cinematográfica com Jornada da Alma (Prendimi L´Anima, 2003), através da lente do cineasta italiano Roberto Faenza. A história se passa antes da Primeira Guerra Mundial, mais precisamente num período de nove anos, a saber, entre 1904 e 1913. O foco é o tratamento terapêutico de Sabina Spielrein por Jung, que, na época, começava a utilizar a Psicanálise e era discípulo de Freud — este mantinha com Jung uma relação como a de pai e filho, tendo a expectativa de que o pupilo viesse a sucedê-lo. Naquele período a Psicanálise procurava a sua identidade científica e também o seu lugar social. O roteiro recorre amplamente às correspondências trocadas por Jung e Freud e ao próprio diário de Sabina Spielrein.

Proposital e característicamente, a maior parte do filme transcorre por meio de diálogos, a maioria deles em ambientes privativos, incluindo alguns em setting de análise. Os diálogos intensos envolvem todos os cinco personagens: Jung e Sabina, Jung e Freud, Jung e Emma, Jung e Gross (em que tratam de questões intensas na relação transferencial-contratransferencial, inclusive as fantasias sexuais na relação entre analista e paciente), Freud e Sabina, e, finalmente, Sabina e Emma.

A história é contada em cinco momentos:

A Dangerous Method, 2011, movieO primeiro momento tem início em 17 de agosto de 1904, com a chegada de Sabina Spielrein ao Hospital Psiquiátrico Burghölzli em Zurique, Suíça, onde Jung clinicava. A bonita jovem de dezenove anos, sofrendo muito, chega mergulhada num quadro emocionalmente caótico e deplorável, conduzida em um carro no qual é trazida à força. Sabina se torna paciente de Jung, passa pelos primeiros tratamentos, até tornar-se auxiliar do psiquiatra na clínica. Depois ingressa na universidade de Medicina.

Jung, depois de haver conhecido Emma por sete anos, casou-se com ela no ano anterior à chegada de Sabina em Zurique. O casal estava estabelecendo as bases de sua família. De família aristocrática e rica, Emma teve durante este período os primeiros de seus cinco filhos com Jung. Sentindo o crescente distanciamento do cônjuge, Emma nutria a esperança de que os filhos trouxessem de volta o brilho conjugal e o amor de seu marido.

“— Eu nunca serei uma médica!”
— Por quê não?”

O segundo momento tem início dois anos depois, em 3 de março de 1906, com a chegada de Jung e Emma em Viena, Áustria, quando conhecem Freud pessoalmente. Ali, Jung e Freud privam de um momento rico e de grande intimidade. Uma das sessões entre os dois durou treze horas. Um destaque desse segundo momento foi a chegada de Otto Gross a Zurique, a fim de passar por um tratamento com Jung. Dá-se, finalmente, a fuga de Gross da clínica, após exercer grande influência sobre Jung. Sob este impacto tem início a relação extraconjugal de Jung com Sabina. Outros destaques do período são a presença de Freud em Zurique, a correspondência entre Sabina e Freud, e o processo doloroso que impôs o fim do envolvimento amoroso entre Sabina e Jung, e a saída deste do hospital. Também a viagem de Freud e Jung aos Estados Unidos é marcante neste período; foi durante o trajeto de navio que a autoridade de Freud sobre Jung sofreu um significativo momento de desgaste.

“O prazer nunca é simples, como você sabe muito bem”.

O terceiro momento tem início em 25 de setembro de 1910, com a visita de Sabina ao novo local de trabalho de Jung. Após deixar o hospital, Jung enfrentara grandes dificuldades para encontrar novos pacientes, mas agora já estava com a agenda cheia novamente. Sabina trouxe a Jung a sua dissertação de conclusão de curso, na qual trabalharam juntos. Ambos continuavam envolvidos em evidentes afetos. Tendo Jung como mentor na dissertação, Sabina expõe algumas de suas primeiras conclusões teóricas mais significativas.

“As pessoas são assim. Se não lhes dissermos a verdade, quem o fará?”

A Dangerous Method, 2011, movie

O quarto momento se dá a partir de 17 de abril de 1912, em Viena, com Sabina diante de Freud, quando ela expõe algumas de suas conclusões acerca da sexualidade. Sabina graduara-se no ano anterior, quando também foi aceita como membro da Sociedade de Psicanálise de Viena. É neste período que as teorias freudianas e jungianas se estabelecem em distintos streams. Jung já declara suas convicções acerca dos mitos e dos arquétipos, e fica patente o desapontamento de Freud com seu antigo pupilo. Porém, na correspondência entre ambos, o método de Jung vai revelando sua maturidade e o relacionamento entre eles sofre formalmente uma ruptura.

“Suponho que deve haver um vínculo inquebrantável entre a morte e o sexo”.

O quinto e último momento tem como marco a data de 16 de julho de 1913. Às vésperas da Primeira Grande Guerra, Sabina, agora casada e grávida de um médico judeu russo, visita a residência da família Jung. Embora já houvessem se visto anteriormente, ela e Emma se conhecem formalmente e têm um diálogo sereno e afirmativo. Sabina também conhece os filhos de Jung. Emma pede a ajuda de Sabina, a fim de que seja analista de seu marido que atravessa momentos difíceis, mas esta informa sua decisão de dedicar-se à psicologia infantil. Sabina e Jung têm um sincero diálogo. Ele já estava envolvido com Antonia Anna "Toni" Wolff (1888-1953), uma jovem paciente, que tornou-se também analista jungiana. O momento final é emblemático. Num sentido oposto ao da primeira cena do filme, um carro sai da residência Jung, e nele está Sabina. Embora ainda sofrendo, a mesma mulher apresenta-se agora saudável, e seguirá posteriormente para a Rússia. Deixa para trás um psiquiatra maduro e circunspecto.

“Meu amor por ti foi o mais importante em minha vida”.

O filme é estrelado por Michael Fassbender (Carl Jung), Keira Knightley (Sabina Spielrein), Viggo Mortensen (Sigmund Freud), Sarah Gadon (Emma Jung) A Dangerous Method, 2011, moviee Vincent Cassel (Otto Gross). Christoph Waltz foi inicialmente escalado como Sigmund Freud, mas foi substituído por Viggo Mortensen devido a um conflito de agendas. Christian Bale esteve em negociações para interpretar Carl Jung, mas também precisou declinar pelo mesmo motivo. As filmagens começaram em 26 de maio e terminaram em 24 de julho de 2010, recorrendo a lugares e instalações em Viena, Zurique, Konstanz, Colônia e Berlim. O filme marca a terceira parceria consecutiva entre Cronenberg e Viggo Mortensen, e também o terceiro trabalho de Cronenberg com o produtor britânico Jeremy Thomas. A direção de fotografia é de Peter Suschitzky e a trilha sonora é assinada por Howard Shore. Este recorreu a algumas peças em piano, a fim de oferecer alguns transcursos plácidos de cena, e trabalhou com habilidade as transições. Um destaque durante o filme é A Valquíria (Die Walküre), a conhecida composição do alemão Richard Wagner, ópera preferida de Carl Jung e Sabina Spielrein. 

Em resenha publicada no último domingo — que cometo, abaixo, o sacrilégio de abrasileirar —, escreve João Lopes sobre a película de noventa e nove minutos:

David Cronenberg filma a relação Freud/Jung, não apenas como uma simples conjuntura de pensamento e pesquisa, mas também como uma paisagem de interrogações e perplexidades que transforma o nascimento da psicanálise num enorme desafio simbólico (…).

"Um Método Perigoso" é a prova real da dimensão singularmente intimista do cinema de Cronenberg, afinal desafiando as fronteiras convencionais do próprio fator humano. E tudo passa, em última instância, pela vibração dos atores: Viggo Mortensen compondo um Freud de sutil autoridade paterna; Michael Fassbender no papel de um Jung assombrado pela sua própria ousadia; enfim, Keira Knightley emprestando a Sabina a comoção de uma mulher capaz de superar os padrões masculinos (já vimos Oscars atribuídos por infinitamente menos…). Cf. aqui.

Written by Paulo Amadeu

16/10/2012 at 9:17

Filme: A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987)

(Atenção: spoiler)

A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987)

A maioria das pessoas vive hoje  em uma cultura onde a paisagem está pontilhada de restaurantes de todos os tipos. Além disso, a atual publicidade com a qual somos alimentados convenceu-nos de que se não tomarmos três boas refeições, entremeadas com diversas refeições ligeiras, corremos o risco de “morrer de fome” ou de desenvolver uma subnutrição. Porém, estas duas realidades, amplamente disseminadas hoje em dia, são estranhas a muitos contextos carentes da atualidade, e com certeza não faziam parte do cotidiano da maioria das pessoas no passado. Acrescente-se que desde tempos bem remotos se encontram exemplos de pessoas inclinadas a praticar uma  rigidez espartana. O ascetismo tende a desprezar as boas coisas da vida; o asceta se nega à alegria, e propõe a abstinência dos prazeres. O dualismo asceta tem influenciado grandemente a religiosidade ocidental.

Martine e Filippa são duas irmãs idosas que se exercitam incansavelmente num tipo de piedade cristã característicamente ascética. No século XIX, mais especificamente em 1885, as duas mulheres, que não se casaram,A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) vivem em uma pequena aldeia na remota e bela, porém igualmente árida e fria, costa oeste da Jutlândia, a grande península da Dinamarca. Martine e Filippa receberam estes nomes como uma homenagem aos reformadores luteranos do século XVI, Martinho Lutero e Philipp Melanchthon. O pai das duas anciãs foi um pastor que fundou um grupo religioso derivado do luteranismo. A seita era caracterizada por um forte rigor ascético e pietismo cristão manifesto em obras de caridade. Conquanto o pastor já houvesse falecido há muito tempo e o grupo religioso não arrebanhasse novos convertidos, as duas irmãs, enquanto envelheciam, presidiam abnegada e amorosamente a sua congregação de fiéis rurais, cada dia menor e mais colorida por cabelos brancos.

Retrocedendo no tempo quarenta e nove anos, encontramos as duas irmãs, Martine e Filippa, em sua beleza arrebatadora. O pai rejeita todos os pretendentes, enaltecendo a vida celibatária, e estimando o amor terreno e o casamento como “ilusões vazias”. As filhas são para ele como “as mãos direita e esquerda”, ou como “a sua prata e o seu ouro”. Cada filha é cortejada por um pretendente apaixonado que visita a Jutlândia. Martine por um oficial da cavalaria sueca, e Filippa por um barítono francês da Ópera de Paris, que, ensinando canto à filha do ministro religioso, quebrava com o canto lírico o silêncio da costa. A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) Os dois pretendentes apaixonaram-se desesperadamente. Porém, não podendo ter o seu amor correspondido, o jovem oficial vai embora sentindo-se indigno da mão de Martine. O barítono francês, por sua vez, que desejava levar Filippa para o canto lírico parisiense, após várias tentativas, empolga-se e beija-a durante um ensaio de um dueto de Don Giovanni. Filippa decide suspender as aulas e recusa a oferta de estrelato e riqueza.

Trinta e cinco anos depois, isto é, em 1871, em noite de tempestade, Babette Hersant bate à porta das duas irmãs. Babette chega ao pequeno vilarejo na Dinamarca fugindo da França durante a repressão à Comuna de Paris. Ela traz uma carta do ex-pretendente de Filippa, o cantor de ópera, explicando a sua situação e recomendando-a para ser acolhida na casa, onde poderia trabalhar para custear sua pensão. Babette se emprega como faxineira e cozinheira, é instalada num pequeno e modestíssimo quarto preparado no sótão da residência, e ali vive por quatorze anos.

Babette torna-se conhecida no vilarejo, aprendendo com dificuldades o novo idioma, até que um dia recebe a notícia de que havia ganho uma fortuna na loteria francesa. O prêmio montava em 10.000 francos, que certamente lhe permitiriam voltar à sua antiga casa e ao seu estilo de vida mais requintado. Ninguém no vilarejo sabia de sua qualificação e da atividade que realizava em Paris, nem mesmo as duas irmãs, conquanto, crescentemente, os dotes culinários da francesa vão se fazendo evidentes. Ao invés de voltar à França, ela pede permissão para preparar um jantar em comemoração ao centésimo aniversário do pastor. Embora com alguma relutância, as irmãs concordam em aceitar a sua oferta de pagar "um verdadeiro jantar francês". Babette se ausenta do vilarejo por alguns dias, A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) a fim de pessoalmente providenciar os suprimentos a serem enviados para a Jutlândia. Os ingredientes são abundantes, suntuosos e exóticos, e sua chegada causa muitos comentários entre os moradores do pequeno povoado.

Com a chegada dos igredientes e iguarias riquíssimas e refinadas, com seu aspecto até mesmo chocante, e ao terem início os preparativos, as irmãs começam a se preocupar que a refeição será, na melhor das hipóteses, um grande pecado de luxúria e sensualidade, e na pior, alguma forma de festival pagão e diabólico, um ritual de bruxaria. Em uma rápida reunião, as irmãs e os fiéis da congregação concordam em participar da refeição, a fim de não magoar a amiga de todos eles. Decidem, entretanto, renunciar a qualquer tipo de prazer na refeição, procurando ser discretos e reservados, e evitando fazer menção à comida durante o tempo em que estiverem ceando.

Mais do que apenas um deleite epicurista, a festa é uma manifestação de imenso afeto de Babette, um ato com ecos de auto-sacrifício eucarístico. Embora não conte a ninguém, Babette está gastando todo o prêmio que ganhara em seu gesto de gratidão. Você é capaz de imaginar os detalhes que envolvem uma refeição no restaurante mais caro da França? A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) Imagine os procedimentos protocolares, as vestimentas dos serviçais, os talheres, os guardanapos, os cristais, os linhos, as louças chinesas, as bebidas e licores, os apertivos, as sobremesas… Quando entram naquela singela e rústica residência, a princípio os convidados ficam perceptivelmente assustados e tomados de um indisfarçável sentimento de culpa.

O ambiente branco e cinza daquele povoado ganha cores no momento do banquete, quando são focados os diversos tipos de pratos e delícias. E tais quais peixes, “os convidados são fisgados pela boca”. A figura de mais destaque entre os convidados é o antigo ex-pretendente de Martine, agora um famoso general casado com alguém da corte da rainha. Ele estava de passagem na região, em residência de sua tia, e como um homem cosmopolita, e ex-adido em Paris, é a única pessoa à mesa com qualificação para comentar sobre o banquete. É ele quem fornece aos hóspedes informações abundantes e explícitas sobre a extraordinária qualidade do serviço, da comida e da bebida. O menu responsável pelo arrebatamento dos presentes inclui Potage à la Tortue, Blinis Demidoff au Caviar, Caille en Sarcophage avec Sauce Perigourdine, salada de chicória belga e nozes ao vinagrete, e Les Fromages, com queijo azul, mamão, figos, uvas, abacaxi e romãs. O grand finale traz como sobremesa Savarin au Rhum avec des Figues et Fruits Glacées. O menu se completa com numerosos e raros vinhos, incluindo um 1845 Clos de Vougeot e um 1860 Veuve Clicquot champagne. O general comenta que o refinamento e os custos do banquete, assim como o estilo e luxo do serviço só poderiam ser comparados ao que ele experimentara no famoso Café Anglais, em Paris, onde o Chef anterior era uma mulher famosíssima por suas extraordinárias habilidades culinárias — ocupação anterior de Babette, até então desconhecida pelas irmãs, e revelada por ela em ato de confiança após a refeição. A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) O comentário do general culmina com um breve discurso reflexivo baseado no Salmo 85.10, que algumas vezes ouvira do falecido pastor: "A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram”.

Embora os celebrantes do vilarejo inicialmente se recusassem a comentar sobre os prazeres terrenos da comida e da bebida, e a reconhecerem os dons extraordinários de Babette como divinos, com a euforia suscitada pelo jantar, dá-se a quebra de desconfiança e superstições, elevando os comensais camponeses não apenas fisicamente, mas espiritualmente. Hostilidades e disputas  antigas são esquecidas, amores antigos são reacendidos e uma redenção do humano se estabelece à mesa. Sentem-se todos eles privilegiados com a oportunidade daquela celebração, indizivelmente gratos por tal graça eucarística.

Após a revelação da verdadeira identidade de Babette, as irmãs assumem que ela irá agora voltar a Paris. Surpreendentemente ela informa que todo o seu dinheiro se foi e que ela não vai a lugar algum. As irmãs reagem perplexas, assustadas. Babette informa que aquele banquete no Café Anglais tem um custo de 10.000 francos. Em lágrimas, Martine comenta: "Agora você vai ser pobre o resto da vida!". Ao que Babette responde: "Um artista nunca é pobre".

“Estamos todos famintos e carentes”

Segundo a Psicanálise, pulsão é “o processo dinâmico que consiste numa pressão ou força que faz o organismo tender para um objetivo”. Segundo Freud, uma pulsão tem a sua fonte numa excitação corporal; o seu objetivo ou meta é suprimir o estado de tensão que reina na fonte pulsional; é no objeto ou graças a ele que a pulsão pode atingir a sua meta. No entendimento inicial freudiano, as pulsões de autoconservação deveriam ser situadas, já de início, do lado do princípio de realidade e as pulsões sexuais ao lado do princípio do prazer. Freud será levado a revisar este conceito posteriormente.

No livro Mulher 40 Graus à Sombra; reflexões sobre a Vida a partir dos 40 Anos, as autoras fazem um comentário sobre o jantar de Babette que considero interessante. Escolho citá-las pois são psicanalistas:

Babette, uma mulher de mais ou menos cinquenta anos […] não revelara a ninguém a sua habilidade: ‘transformar um jantar numa espécie de caso de amor, onde fosse impossível distinguir entre o apetite físico e o espiritual’. Dando o melhor de si, na expressão de sua arte, seduzia a todos que provasse de sua mágica comida.

Não era à toa que os velhinhos, A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) que tinham medo de felicidade, fissessem um pacto contra a bruxa Babette: comer como se nunca tivessem tido paladar.

O banquete começado; lentamente as manifestações de medo e desconfiança iniciais vão cedendo. Redescobrem o prazer, lambem os beiços e chupam os dedos. Velhos enamorados se reencontram através de olhares de cumplicidade e toques de carinho. Confissões e gestos reasseguram antigos sentimentos de amizade fraterna. E, assim, vão exorcizando culpas, traições e todas as mazelas e mumunhas que os mantinham em isolamento. Recuperam a capacidade de ouvir, falar, ver, sorrir, conviver… viver.

A julgar pela reação final das pessoas que curtiram a festa de Babette, num incontrolável apetite, há que suspeitar que estamos todos famintos e carentes, precisando resgatar sabores e valores.

O também psicanalista Rubem Alves, num artigo interessantíssimo, lança seu olhar perspicaz sobre Babette e sua arte de seduzir:

Quem pensa que a comida só faz matar a fome está redondamente enganado. Comer é muito perigoso. Porque quem cozinha é parente próximo das bruxas e dos magos. Cozinhar é feitiçaria, alquimia. E comer é ser enfeitiçado. Sabia disso Babette, artista que conhecia os segredos de produzir alegria pela comida. Ela sabia que, depois de comer, as pessoas não permanecem as mesmas. Coisas mágicas acontecem. […] De fato, a feitiçaria aconteceu: sopa de tartaruga, cailles au sarcophage, vinhos maravilhosos, o prazer amaciando os sentimentos e pensamentos, as durezas e rugas do corpo sendo alisadas pelo paladar, as máscaras caindo, os rostos endurecidos ficando bonitos pelo riso, in vino veritas… 

A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) é um filme dinamarquês dirigido por Gabriel Axel, com roteiro baseado em conto de Isak Dinesen (pseudônimo de Karen Blixen), que já oferecera ao cinema a base do roteiro para o filme Entre dois amores (Out of Africa, 1985). O grande e bom elenco é fomado por Stéphane Audran, Bodil Kjer e Birgitte Federspiel, além de nomes como Jarl Kulle, Jean-Philippe Lafont e Vibeke Hastrup. Em 1988 o filme ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e colheu muitos outros prêmios importantes. Alguns bons destaques do filme são a trilha sonora por Per Nørgaard, a direção de arte de Sven Wichmann e a direção de fotografia por Henning Kristiansen.

Written by Paulo Amadeu

26/12/2011 at 12:16

Filme: Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011)

(Atenção: spoiler)

Midnight in Paris, 2011

Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011) é um filme escrito e dirigido por Woody Allen. Trata-se de uma comédia romântica muito boa, estrelando Owen Wilson, Rachel McAdams, Kurt Fuller, Mimi Kennedy, Michael Sheen e Nina Arianda. Conta ainda com as participações de Carla Bruni, a primeira-dama da França, além de Kathy Bates, Corey Stoll, Tom Hiddleston, Marion Cotillard, Alison Pill e Léa Seydoux. Evocando alguns temas existenciais e relacionais muito interessantes, Woody Allen conseguiu um bom roteiro — destes que muitos de nós, “pobres mortais”, seja de forma ingênua ou arrogante (ou ainda as duas coisas ao mesmo) desejaríamos escrever.

Em Meia-Noite em Paris Woody Allen projeta-se sobre um escritor e roteirista norte-americano, que está em Paris com sua noiva e os sogros — diga-se passagem, algo de gosto duvidoso alguém, ao lado de sua noiva, visitar a cidade-luz acompanhado da sogra e do sogro! O fato é que o jovem escritor idolatra Paris e tem, obviamente, motivos sobejos para tanto. Ele nem consegue decidir se a cidade é mais bonita durante o dia ou à noite, e teria um argumento definitivo para ambas as opções.

“O presente é assim. Um pouco insatisfatório, porque a vida é um pouco insatisfatória”.

Midnight in Paris, 2011

Em seus passeios solitários na noite parisiense, o jovem e já bastante frustrado escritor e roteirista, à meia-noite, em um passe de mágica, é transportado para a Paris da década de 1920, época que ele considera a melhor de todas. Ao ultrapassar a “linha do tempo”, ele frequenta vários ambientes, onde conhece inúmeros intelectuais e artistas que frequentavam a cidade naquela época. Entra em contato com nomes como Ernest Hemingway, F. Scott e Zelda Fitzgerald, Pablo Picasso, Gertrude Stein, T. S. Eliot, Henri Matisse, Cole Porter e os surrealistas Salvador Dalí, Luis Buñuel e Man Ray. O jovem escritor também se apaixona por uma personagem da época, que, por sua vez, considera que a Belle Époque foi a “Idade de Ouro” de Paris. Neste contexo, ele faz, ao lado desta mulher, uma breve incursão também pela Belle Époque, mais propriamente pela década de 1890, quando tem contato com nomes como Toulouse-Lautrec, Paul Gauguin e Edgar Degas. Se continuasse nesse mesmo movimento, talvez fosse à Renascença de Ticiano, Leonardo da Vinci e Michelângelo… A viagem, porém, terminaria por aí? Qual foi, em rigor, a “Idade de Ouro”?

“Nenhum tema é ruim se a história é verdadeira”.

Em revisão crítica, Woody Allen contrasta o gênio norte-americano e o europeu (francês) muito nitidamente, e também coloca uma cultura autêntica e consistente em contraposição a um fútil e artificial pedantismo cultural. O enredo coloca tensão no diálogo entre o presente e o passado, e elabora os elementos do saudosismo romântico e a negação do presente, sem incidir, entretanto, num presentismo simplista e bitolado. O realismo contemporâneo e o idealismo romântico oferecem, no fim, quase que uma composição barroca à história em cena, inclusive com o seu lema Carpe Diem. “Colhe o dia, porque és ele”. O velho dilema foi colocado em versos por Machado de Assis, escritor brasileiro admirado por Woody Allen:

Um horizonte, — a saudade
Do que não há de voltar;
Outro horizonte, — a esperança
Dos tempos que hão de chegar;
No presente, — sempre escuro, —
Vive a alma ambiciosa
Na ilusão voluptuosa
Do passado e do futuro.

Midnight in Paris, 2011Como já foi dito, Carla Bruni faz uma ponta no filme. Woody Allen a chamou para interpretar a guia de um museu — o que foi, aliás, uma escolha interessante para alguém que teria o papel de representar a França, dissertando sobre o Le Penseur de Rodin, e discorrer sobre o relacionamento deste com Camille Claudel. Carla Bruni explicou o motivo da resposta positiva à nova experiência: "Não sou atriz, mas eu não poderia perder uma oportunidade como essas. Quando eu for avó, gostaria de poder dizer que fiz um filme com Woody Allen."

Meia-Noite em Paris tem um roteiro simples mas convincente. É o primeiro filme de Woody Allen totalmente gravado em Paris, de onde se extraiu uma boa fotografia. Na trilha sonora, um destaque para Cole Porter, e particularmente para a canção Let’s do It (Let’s Fall in Love). Na bonita capa concebida pelo designer, A Noite Estrelada de Vincent Van Gogh. O filme deve concorrer a algum prêmio na próxima edição do Oscar, com destaque na categoria Melhor Roteiro Original.

Written by Paulo Amadeu

07/12/2011 at 17:41

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Filme: Pelle, O Conquistador (1987)

(Atenção: spoiler)

Pelle erobreren, 1987

Max von Sydow e Pelle Hvenegaard em “Pelle, O Conquistador” (Pelle erobreren, 1987)

Para quem está distante, pode parecer que Dinamarca e Suécia são “tudo a mesma coisa”. A proximidade geográfica, e as muitas convergências históricas, étnicas e culturais, podem levar a este tipo de impressão a respeito daqueles dois “povos irmãos”. Porém, o que diriam japoneses e coreanos, ou indianos e paquistaneses, ou canadenses e estadunidenses, ou brasileiros e argentinos, se os seus respectivos países fossem confundidos e considerados “tudo a mesma coisa”?

Localizados na Europa Setentrional, Suécia e Dinamarca são dois países nórdicos que se encontram ligados pela Ponte do Øresund. A Dinamarca é o mais meridional dentre os países nórdicos, e compõe-se de uma grande península, a Jutlândia, e muitas ilhas, algumas grandes e centenas menores, muitas vezes referidas como o Arquipélago Dinamarquês. Dinamarca e Suécia, juntamente com a Noruega, formam a região que geográfica e historicamente é chamada, no sentido mais estrito, de Escandinávia. Em geografia física, porém, a Dinamarca é considerada parte da planície setentrional europeia e não da península Escandinava.

As precárias condições de vida dos trabalhadores europeus caracterizaram as mudanças sociais ocorridas na segunda metade do século XIX, com repercussões diretas no início do século XX. Este impacto pode ser observado na imigração de suecos para a Dinamarca durante aquele período. No século XIX a Suécia chegou a ter uma taxa de crescimento populacional de 1,2% ao ano, que lhe permitiu dobrar de população em sessenta anos. Este fenômeno ocorreu antes da Revolução Industrial e teve como consequência a pauperização da população rural, forçando muitos suecos a emigrar, principalmente para os Estados Unidos da América. Mesmo entre aqueles suecos que se viram impelidos a emigrar para a Dinamarca, o sonho de seguir para a América era algo muito forte e arraigado.

Pelle erobreren, 1987

“Esse novo país para onde vamos é muito diferente… Ganha-se tão bem que as crianças não precisam trabalhar. Podem brincar o dia inteiro”.

Pelle, O Conquistador (Pelle erobreren, 1987) é um filme dinamarquês, do gênero drama, dirigido pelo cineasta dinamarquês Bille August. Foi uma co-produção entre empresas da Dinamarca e Suécia. Trata-se de um roteiro adaptado pelo diretor e outros quatro cooperadores, baseado no famoso romance publicado em 1910 pelo escritor dinamarquês Martin Andersen Nexø (1869-1954).

Com a Suécia em depressão econômica, um barco cheio de imigrantes suecos chega à ilha dinamarquesa de Bornholm. Entre eles estão o viúvo Lasse Karlsson e seu filho Pelle, que, procedentes de Tomelilla, se mudavam para a Dinamarca a fim de encontrar trabalho, após a morte da mãe do menino. O velho Lasse e seu filho temporão dependem um do outro para sobreviver. Com poucas chances de conseguir um bom emprego em seu novo lar, ambos são empregados em uma grande fazenda, onde submetem-se a serem tratados com a mais baixa forma de vida. Ali eles engrossam o contingente em um cotidiano frequentemente cruel, num universo de camponeses, patrões e mulheres infelizes. O filme de Bille August mostra-nos a estreita relação que se vai mantendo entre pai e filho, enquanto eles articulam uma vida o mais feliz possível no meio de tanta opressão. À medida que o drama se desenvolve, somos apresentados à fazenda com suas semeaduras e colheitas, ao remoto e belíssimo lugar com suas estações bem nítidas, à força do mar, às instituições locais, como a escola e a igreja, e sobretudo aos homens e mulheres, com seus sonhos, amores e conflitos.

Pelle erobreren, 1987

Pelle erobreren, 1987

“Perdoe-me, Senhor, abusar de suas dádivas, mas é uma terrível tentação quando se sofre”.

Enquanto assiste as terríveis humilhações que sofre o seu pobre pai, o menino Pelle é inserido em trabalho pesado, começa a falar dinamarquês, é matriculado na escola local, e aos poucos vai ganhando autoconfiança, ainda que muito discriminado como um estrangeiro. Não obstante, o garoto e seu pai não estão dispostos a desistir do sonho de encontrar uma vida melhor do que a que deixaram na Suécia. À medida em que amadurece, Pelle acalenta o desejo de conhecer o mundo e começa a dar conta de sua necessidade de tornar-se independente. Terá que crescer antes mesmo de atingir a puberdade, a fim de não enfrentar o mesmo triste destino de seu pai. Partirá sozinho mas otimista, cheio de perguntas e com uma necessidade enorme de saber mais sobre a vida.

Pelle erobreren, 1987

Pelle erobreren, 1987

O formidável e experiente Max von Sydow, em mais um excelente trabalho, é o protagonista deste drama épico sobre a capacidade de sobrevivência do ser humano, interpretando o pobre viúvo que emigra com o seu pequeno filho. O ator Pelle Hvenegaard — que tinha treze anos à época — foi escolhido entre duas mil crianças. Seu nome coincide com o do personagem porque sua mãe leu, durante a gravidez, o livro de Martin Andersen Nexø. O filme também é estrelado por Erik Paaske, Björn Granath, Morten Jørgensen e Astrid Villaume.

O score musical é assinado pelo compositor sueco Stefan Nilsson, e conta com momentos muito bons; um deles é a execução em concertina da conhecida música natalina “Noite Silenciosa” (Silent Night). Um destaque no filme é a fotografia exuberante, que manifesta o olhar apurado e detalhista de Jörgen Persson, diretor de fotografia.

Pelle erobreren, 1987

Em 1988, o filme Pelle, O Conquistador ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, França. Na edição do Oscar de 1989, ganhou a estatueta na categoria Melhor Filme Estrangeiro, tendo sido o segundo filme dinamarquês a receber o referido prêmio; o anterior foi A Festa de Babette, um ano antes. Foi também indicado ao Oscar de Melhor Ator Principal (Max von Sydow). O bom trabalho conduzido por Bille August também ganhou o Globo de Ouro, em 1989, na categoria Melhor Filme Estrangeiro. Consta ainda da lista do The New York Times (EUA) dos cem melhores filmes de todos os tempos.

Pelle erobreren, 1987

Written by Paulo Amadeu

12/11/2011 at 21:42

“O Enfermeiro” de Machado de Assis – O Conto e o Filme

Parece-lhe então que o que se deu comigo em 1860, pode entrar numa página de livro? Vá que seja, com a condição única de que não há de divulgar nada antes da minha morte. Não esperará muito, pode ser que oito dias, se não for menos; estou desenganado.

Olhe, eu podia mesmo contar-lhe a minha vida inteira, em que há outras coisas interessantes, mas para isso era preciso tempo, ânimo e papel, e eu só tenho papel; o ânimo é frouxo, e o tempo assemelha-se à lamparina de madrugada. Não tarda o sol do outro dia, um sol dos diabos, impenetrável como a vida.

(ASSIS, Machado. “O Enfermeiro”. Obra Completa. Rio de Janeiro : Nova Aguilar 1994. v. II. Arquivo E-book)

Cinema Nacional: O Enfermeiro, 1999

Matheus Nacthergaele e Paulo Autran em “O Enfermeiro” (1999)

O ContoO Enfermeiro está, certamente, entre os melhores contos de Machado de Assis (1839-1908). Originalmente publicado como parte do livro Várias Histórias, em 1896, o conto é um exemplo maduro do realismo machadiano. Narrado em primeira pessoa a um interlocutor imaginário, trata-se da história de Procópio José Gomes Valongo, o último enfermeiro do rabugento coronel Felisberto. Este era tão rico quanto ranheta, o que havia motivado os inúmeros pedidos de demissão de enfermeiros anteriores. Por esta razão, Procópio é tratado com toda a deferência pelo pároco da pequena vila interiorana, que via no trabalho do jovem recém-chegado a última esperança. Movido em parte pelas virtudes recomendadas pelo vigário local, mansidão e caridade, e em parte pelo bom ordenado, o enfermeiro submete-se a terríveis maus tratos. Porém, termina não resistindo aos xingamentos, bengaladas e agressões várias, e esgana o seu indócil paciente.

Esganado o rabugento e intratável Felisberto, e ocultado o crime, a história sofre uma reviravolta, uma vez que o enfermeiro foi surpreendido ao saber que se tratrava do único beneficiário no testamento do riquíssimo coronel. Agora o drama de consciência do ex-estudante de teologia é intensificado pela herança do pecúlio do velho. É neste ponto que começa o processo mais interessante do conto. O narrador remói-se de remorso, mas a culpa arrefece quando se vê reconhecido por sua dedicação extrema. Procópio começa a arranjar desculpas em sua mente para arejar a consciência — uma temática muito comum em Machado de Assis. No percurso do drama psicológico, a consciência, em ambiente sufocado, tratará de abrir todas as portas e janelas que puder. Trata-se do “mecanismo” por vezes denominado de “racionalização”, que consiste em acomodar as circunstâncias e absolver-nos no tribunal íntimo, justificando os nossos interesses e impondo-nos em credibilidade diante daqueles que nos rodeiam.

O finado já se encontrava muito doente e decrépito “e, portanto, à beira da morte”, racionalizava o enfermeiro. “O velho tinha um aneurisma em estágio terminal que iria estourar a qualquer hora mesmo”. Cinema Nacional: O Enfermeiro, 1999Quando as pessoas vinham elogiar sua paciência com um velho tão insuportável, Procópio tratava de elogiá-lo o máximo possível em público. No final, o artista acabou se transformando no próprio personagem, vindo a eliminar de sua consciência todo e qualquer resto de crise. Se a princípio decidira doar toda a herança, Procópio logo perde o ímpeto de fazê-lo. Ele resolve converter todos os bens em títulos e dinheiro, embora distribua uma pequena porção aos pobres. Deu à igreja matriz uns paramentos novos e construiu um túmulo de mármore em homenagem ao coronel.

Tratando de temas como a culpa, a gratidão e o arrependimento, O Enfermeiro é um bom argumento sobre como o comportamento humano pode ser contraditório. Solange Martins escreve que, como é tradição na obra machadiana, nesse conto há “uma discussão bastante complexa do porquê de as crises existenciais terem duração tão breve, uma vez que elas podem ser facilmente controladas por uns contos de réis”. A trajetória de Procópio ilustra “as distâncias entre a percepção racional e objetiva da realidade e os sentimentos impulsivos que controlam nossas alegrias e tristezas”.

“Bem-aventurados os que possuem porque eles serão consolados”.

O Filme – Dirigido pelo cineasta Mauro Farias, O Enfermeiro (1999) é um média-metragem com cerca de quarenta minutos de duração. O filme transporta para o cinema o conhecido e genial conto de Machado de Assis, destacando, no pequeno elenco, o protagonismo de Matheus Nacthergaele e Paulo Autran, contando ainda com as atuações de Raphael Molina, Antonio Gonzalez e Giuseppe Oristâneo. Com desempenhos muitos bons dos dois atores principais, o filme aproveita o próprio texto machadiano, o que oferece imensa valorização ao roteiro. Naturalmente, dadas as diferenças de liguagem entre o cinema e a literatura, no filme há cortes, acréscimos e adaptações — o que por definição é algo bom, diga-se de passagem. “A literatura serve ao cinema, emprestando-lhe suas histórias, e o cinema retribui, dando-lhes cor, movimento e som”, observa com propriedade Solange Martins no texto já referido. A trilha sonora tem alguns momentos marcantes, com destaque para o repertório barroco com Concertos para Piano e Orquestra de Johann Sebastian Bach, em interpretação do pianista João Carlos Martins. O filme tem sido recomendado para discussões em sala de aula, com bons resultados relatados por professores que dele têm feito uso.

Written by Paulo Amadeu

18/10/2011 at 10:55

Filme: Prova d’Orchestra – Federico Fellini

Este é um filme que interrelaciona algumas “coisas” que gosto muito: cinema, Fellini, música orquestral, a têmpera italiana, e um quê filosófico pelas vias humanas.

Prova d'Orchestra, Federico Fellini

Realizado em 1979, Prova d’Orchestra (Ensaio de Orquestra em português e Orchestra Rehearsal em Inglês), do genial cineasta italiano Federico Fellini, foi concebido inicialmente para a televisão. Em breves 72 minutos, o filme condensa a magia e o lirismo que marcaram a obra do cineasta. Prova d’Orchestra é a homenagem do mestre Fellini à música, uma das paixões de sua vida. O filme traz a última das muitas trilhas sonoras que Nino Rota compôs para Fellini.

A coisa mais chata quando assisti ao filme foi justamente essa minha ignorância tosca do idioma Italiano. Talvez você seja mais afortunado do que eu, e consiga entender o Italiano, sem ficar pateticamente acompanhando aquelas legendas horrorosas. Prova d'Orchestra, Federico FelliniÉ horrível sentir-se estrangeiro diante de um filme, e não conseguir captar a inteligência dos jogos de palavra no idioma falado, e nem mesmo conseguir decifrar a veemência de alguns palavrões em sua língua original… Enfim, a ignorância é uma bosta, com o perdão do chulo vulgar!

Numa capela romana, agora um oratório, músicos chegam para um ensaio. Eles são avisados que estão sendo gravados por uma rede de TV. Em cada entrevista aos mais diferentes (e quase caricaturais) músicos, Fellini capta a mais ínfima idiossincrasia dos músicos, que se perdem em divagações em relação à música. Os sentimentos variam de músico para músico, de instrumento para instrumento, sob o olhar desaprovador do maestro alemão, incapaz de criar a unidade necessária entre personalidades tão diversas.

Neste filme Fellini usa uma orquestra sinfônica como metáfora da humanidade e explora as alegrias, tristezas, ressentimentos, frustrações e conquistas dos músicos. Cada pessoa é como que refletida no seu instrumento e na sua localização na orquestra, revelando a sua vida pessoal através deles. O filme inicia com a demonstração exaltada dos egos dos instrumentos musicais incorporados nos personagens. Encontramos todos os tipos que habitam as organizações contemporâneas com as máscaras e alegorias musicais. O louco, a fútil, o autoritário, o saudosista… Cada músico fala do seu instrumento e da sua experiência e enfatiza a importância de sua participação na realização do concerto. Todos são protagonistas.

Com a emocionante trilha de Rota, Ensaio de Orquestra é uma alegoria sobre a coerção do poder sobre a individualidade. De uma forma até hilária, o filme percorre nuances que vão desde o autoritarismo à anarquia… Uma resenhista escreve: “O cenário é perfeito para a representação do espetáculo. Uma capela centenária com túmulos e o ensaio do que está por vir com as ruínas do que fora outrora. Prova d'Orchestra, Federico FelliniA morte contracena com a vida na afinação dos instrumentos. Fellini dirige a possibilidade de ensaio diante da apresentação única do viver.”

O filme me fez recordar alguns ensaios de uma orquestra sinfônica que pude assistir, por uma conjunção de fatores e oportunidades. Porém, o maestro, cioso demais de sua função e da arte que batutava, nem sempre foi condescendente com minha participação eventual por lá. Afinal, música é como culinária; é muito melhor encontrar o prato já feito e decorado! Talvez um dos incômodos de Prova d’Orchestra, prato que nos é oferecido pelo Chef Fellini, seja justamente nos mostrar esse avesso das coisas. É o realismo, não poucas vezes desconfortável, daquele estilo de cinema italiano… Não raramente, Fellini coloca as pessoas em situações bizarras, para acentuar sua visão da realidade. Existe um termo "Felliniesco" que é empregado para descrever qualquer cena que tenha imagens alucinógenas que invadam uma situação comum. Em Prova d’Orchestra você pode perceber isso com bastante nitidez.

Written by Paulo Amadeu

26/08/2011 at 12:29

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Filme: O Leitor – A crônica de um segredo

The Reader, movie

Søren Kierkegaard disse que “não há nada em que paire tanta sedução e maldição como num segredo”. Também o original poeta Rainer Rilke percebeu com clareza que “o nosso mundo é um pano de cena atrás do qual se escondem os segredos mais profundos”. Freud explica. Toda alma tem segredos, desde os mais superficiais até aqueles que estão trancafiados nos seus porões escuros. E o segredo isola. Pode ser como uma prisão auto imposta.

Mais uma vez assisti O Leitor (The Reader, 1998), filme cujo enredo gira em torno de um segredo. Gosto deste filme. A sociedade acredita que é guiada pela moralidade mas isto não é verdade. Baseado em um livro com sucesso mundial de vendas, O Leitor é a uma história que nos levará a questionar algumas das “nossas mais profundas verdades”. O premiado diretor de As Horas, Stephen Daldry, mostra novamente o seu talento numa história de medos e segredos escondidos pelo tempo. Hanna Schmitz (Kate Winslet) foi uma mulher solitária durante grande parte da vida. Quando se envolve amorosamente com o adolescente Michael Berg (David Kross) não imagina que um caso de verão irá marcar para sempre as suas vidas. Na Alemanha, após a Segunda Guerra Mundial, o adolescente se envolve, por acaso, com esta mulher que tem o dobro de sua idade. Apesar das diferenças de classe, os dois se apaixonam e vivem uma bonita história de amor. Até que um dia Hanna desaparece misteriosamente. Oito anos se passam e Berg, então um aplicado estudante de Direito, se surpreende ao reencontrar seu passado de adolescente quando acompanhava um polêmico julgamento por crimes de guerra cometidos pelos nazistas.

Com 124 minutos de duração, o drama lançado em 2008 e estreado no Brasil no ano seguinte, é um filme rico e surpreendente. Se você está a procura de "velocidade e ação", então desista de vê-lo. The Reader é um bom drama, que recebeu cinco indicações ao Oscar, incluindo as de Melhor Filme e Melhor Diretor, e colheu a estatueta de Melhor Atriz (Kate Winslet) em 2009.

O filme termina com o protagonista, ao lado de um túmulo, do qual se afasta no movimento de corte final de câmera. Ele tem ao lado a sua única filha, e começa a contar-lhe o grande segredo de sua vida, no seu caminho de liberdade pessoal. Um ser distante e fechado começa a sair do casulo justamente no cenário final do filme. Mas todos quantos acompanhamos a história sabemos que em todo tempo estava ali alguém cheio de vida e de cores — apenas estava enclausurado pelo segredo que marcou sua vida.

Mas devo parar por aqui. Filme é como um segredo, que jamais deve ser contado antes do tempo, e muito menos por um terceiro. Vá descobri-lo você mesmo! Eu posso suportar o peso de guardá-lo. Claro que até certo ponto, como me denuncia este post.

Written by Paulo Amadeu

10/08/2011 at 7:08

Filme: Estamos Todos Bem (Stanno Tutti Bene, 1990)

“Quando nasce um filho, a primeira vez que se corta as unhas, deve-se por dinheiro na mão dele, mesmo que só um centavo… Assim ele cresce forte e sortudo.”

Que ambição os seus pais tinham para você? Qual é a ambição que você tem para os seus filhos?  Stanno Tutti Bene, 1990, movieO evangelho narra um episódio em que a mãe dos apóstolos Tiago e João teria rogado a Jesus Cristo que desse aos seus dois filhos tronos especiais: um se assentaria à direita e o outro à esquerda no reino de Cristo. Enfim, ela não tinha os seus filhos em pouco! E também não pediu pouco para eles. Quem tem filhos, e está decididamente comprometido com o bem-estar deles, pode facilmente entendê-la. E quem tem uma mãe daquele tipo (e elas nao são incomuns) entende claramente os sentimentos que a moveram. Trata-se daquele perfil de mãe que, quando vai assistir a um desfile militar, diz à pessoa ao seu lado: “Olha! Todo mundo está marchando errado! Só o meu filho está marchando certo!” 

“Quando alguém tem filhos pequenos, imagina-os grande; depois, quando crescem, os vê sempre crianças”.

Porém, o nosso principal personagem aqui não é uma mãe. Matteo Scuro é um autêntico pai italiano, ou, mais especificamente, um pai siciliano. A Sicília, maior ilha italiana em extensão e população, é uma terra fascinante, às vezes dura, mas igualmente rica de possibilidades. Matteo Scuro encarna bem aquilo que tem sido denominado de sicilianidade (sicilianità).  Lá, os laços de família têm sido marcantes, como se pode ver em vários livros e filmes. Os laços de sangue, bem como a ampla rede de relacionamentos que se estabelecem, ocupam um papel saliente na identidade siciliana.

“A nossa região não é bonita por si só, como todos dizem. É bonita porque, estando aqui, as coisas de longe parecem melhores”.

Scuro gerou cinco filhos, três homens e duas mulheres, frutos de um casamento apaixonado. Fã do canto lírico, deu-lhes nomes de personagens de Ópera. EStanno Tutti Bene, 1990, moviex-fuzileiro naval, ele aposentou-se após vários anos de trabalho no Registro Civil lavrando certidões de nascimento. “De farta cabeleira grisalha e óculos espesso, sua simpatia se complementa pelo tom siciliano, incontido no falar das palavras e dos gestos, assim como na admiração irrestrita pela família. Símbolo do homem italiano tradicional, conservador e passional.”

O simpático ancião aguarda seus filhos para o seu aniversário. No entanto, após um por um cancelar a visita, Matteo decide ir vê-los de surpresa. Dirige-se ao continente, fazendo o trajeto por meio de navio e trem, pois tem medo de avião. Uma vez que os filhos residem em diferentes cidades, sua visita começa por Nápoles, cidade onde ele passou a lua de mel, dirigindo-se depois a Roma, Milão e Turim. Nesta busca, Scuro acabará descobrindo bem mais do que sabia, e certamente mais do que gostaria de saber.

“Mas, sabe, numa certa idade os filhos se afastam. Têm necessidade de se afastar”.

Estamos Todos Bem (Stanno tutti bene) é um filme italiano de 1990, dirigido por Giuseppe Tornatore. Este drama de 118 minutos é o terceiro filme de Tornatore, logo depois de Cinema Paradiso, o maravilhoso filme com o qual conquistou fama mundial. Stanno Tutti Bene, 1990, movieO roteiro foi escrito por Massimo De Rita, Tonino Guerra e pelo próprio Tornatore. O filme é protagonizado por Marcello Mastroianni, numa atuação marcante e comovente. O elenco conta ainda com Michèle Morgan, Valeria Cavalli, Marino Cenna e Norma Martelli. O menino Salvatore Cascio, o Totó de Cine Paradiso, interpreta um dos filhos Scuro em sua infância. Em 1990, Tornatore recebeu no Festival de Cannes um prêmio especial pelo filme, que também foi indicado à Palma de Ouro.

O legendário compositor Ennio Morricone é quem assina a trilha sonora. Isto por si só já oferece boa recomendação ao trabalho de Tornatore. Vê-se um bom exemplo do trabalho de Morricone na execução do Prelúdio do 3o. Ato de La Traviata de Giuseppe Verdi. O italianíssimo tema de Morricone para a viagem de Matteo Scuro é algo formidável.

Um remake norte-americano foi lançado em 2009. Em Estão Todos Bem (Everybody’s Fine), com direção de Kirk Jones, Robert De Niro faz o papel que no filme original coube a Mastroianni e a trilha sonora foi conduzida por Dario Marianelli.

“Quero contar um grande segredo: o vinho pode ser feito também de uva”.

Written by Paulo Amadeu

06/08/2011 at 20:23