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“Cinema: It is a ribbon of dreams.” (Orson Welles)

Archive for the ‘Oscar de Melhor Filme Estrangeiro’ Category

Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (Prêmio Honorário): 1948-1956

“Ladrões de Bicicleta” (Ladri di biciclette, 1948)

“Ladrões de Bicicleta” (Ladri di biciclette, 1948), por Vittorio De Sica, Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1950 

1. Vítimas da Tormenta (Sciuscià – Ragazzi, 1946) – Filme dirigido por Vittorio de Sica, considerado uma obra-prima do neorrealismo italiano. Em Roma, no difícil período pós-guerra, dois meninos engraxates trabalham para sobreviver e sustentar a família, e mesmo assim não deixam de sonhar. São também vítimas de confusões e de imensos sofrimentos, inclusive o pesadelo da reclusão em um “reformatório”, e acabam deixando sua infância para trás. Em 1948 o filme ganhou o Oscar Honorário de Melhor Filme Estrangeiro, e foi indicado na categoria Melhor Roteiro Original. 8,0 

2. São Vicente de Paulo; O Capelão das Galeras (Monsieur Vincent, 1947) – Filme francês dirigido por Maurice Cloche. Protagonizado por Pierre Fresnay, em bom desempenho, contando ainda com Aimé Clariond e Jean Debucourt. A história de São Vicente de Paulo (1581-1660), um dos protagonistas da Reforma Católica na França do século XVII. O filme cobre o período entre 1617 e 1660. A França da opulência era também a França da peste, da fome e da miséria, e Paris era um exemplo disso. Em 1949 ganhou o Oscar Honorário de Melhor Filme Estrangeiro. “Antes de pensar em salvar a alma deles, deve-se dar aos miseráveis uma vida pela qual fiquem sabendo que estão vivos”. 6,8 

3. Ladrões de Bicicleta (Ladri di biciclette, 1948) – Filme italiano dirigido por Vittorio De Sica. O filme se passa na Itália durante o período pós-guerra, sendo um dos exemplos do neorrealismo italiano. Foi um dos primeiros longas-metragens a vencer o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (1950), que na época ainda não era uma categoria própria. O elenco é protagonizado por Lamberto Maggiorani, e conta ainda com o menino Enzo Staiola. Um dos filmes mais premiados até então, com seu elenco formado por atores não profissionais. 8,4 

4. Três Dias de Amor (Au-delà des grilles / Le mura di Malapaga, 1949) – Filme franco-italiano dirigido por René Clément. A trilha sonora foi assinada por Roman Vlad e direção de fotografia por Louis Page. Estrelado por Jean Gabin e Isa Miranda. Um homem francês, foragido da polícia, aporta em Gênova, Itália, onde conhece uma mulher e sua filha adolescente. Em 1951 ganhou o Oscar Honorário de Melhor Filme Estrangeiro. “Como eu poderia julgá-lo? Eu não posso. Ti voglio bene!”. 6,8 

5. Rashomon (Rashômon, 1950) – Filme japonês escrito e dirigido por Akira Kurosawa, baseando-se em dois contos de Ryunosuke Akutagawa. Estrelando Toshirō Mifune, Machiko Kyō e Masayuki Mori. Considerado uma das obras primas de Kurosawa, conquistando notoriedade para o diretor. Tem uma estrutura narrativa não-convencional que sugere a impossibilidade de obter a verdade sobre um evento quando há conflitos de pontos de vista. Na Psicologia, o filme emprestou seu nome ao chamado "Efeito Rashomon". Ganhou o Oscar Honorário em 1952 e em 1953 foi indicado na categoria Melhor Direção de Arte. “É por serem fracos que os homens mentem, até mesmo para si próprios.” 8,4 

6. Jogos Proibidos (Jeux Interdits, 1952) – Filme francês, do gênero drama de guerra, dirigido por René Clément. Estrelando Georges Poujouly, Brigitte Fossey e Amédée. A história tem início em junho de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, com os bombardeios alemães às caravanas que deixavam Paris. Numa guerra, as primeiras vítimas são a verdade e as crianças. O filme tornou amplamente conhecido o tema dedilhado por Narciso Yepes. Em 1953 ganhou o prêmio Oscar honorário de Melhor Filme Estrangeiro, e em 1955 foi indicado ao Oscar como Melhor Roteiro. “Elevou a uma singular pureza lírica a inocência da infância acima da desolação da guerra”. 7,9 

7. O Portal do Inferno (Jigokumon 1953) – Filme japonês dirigido por Teinosuke Kinugasa. Uma história bem construída, nos gêneros drama e história. Estrelando Machiko Kyô, Kazuo Hasegawa e Isao Yamagata. Alguns bons movimentos e enquadramentos de câmera. Após a Guerra de Heiji, em 1159, um samurai, que distinguiu-se e mereceu uma recompensa pela forma como atuou, pede ao imperador que lhe conceda a esposa de um outro samurai. Em 1956 ganhou o Oscar Honorário de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Figurino. “Como eu pude acreditar que poderia conquistar seu coração à força?”. 7,2 

8. Samurai (I) (Miyamoto Musashi I, 1954) – Filme japonês dirigido por Hiroshi Inagaki, e o primeiro da conhecida trilogia Samurai. Adaptação do romance Musashi, de Eiji Yoshikawa, vagamente baseado na vida do famoso Miyamoto Musashi (c. 1584-1645). Estrelando Toshirō Mifune, Rentarô Mikuni, Kuroemon Onoe, Kaoru Yachigusa e Mariko Okada. No início do século XVII, após uma batalha pela supremacia do Japão feudal, dá-se a trajetória de amadurecimento de um samurai, inclusive a grande decisão envolvendo a mulher que amou. Em 1956 ganhou o Oscar Honorário de Melhor Filme Estrangeiro. “A vida é uma autêntica batalha. E não há como voltar atrás”. 7,5 

O Oscar de Melhor Filme Estrangeiro é entregue anualmente pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos para um longa metragem produzido fora dos EUA com diálogos predominantemente em uma língua diferente do inglês. Diferentemente dos outros Oscars, este prêmio não é entregue a um indivíduo específico. Ele é aceito pelo diretor do filme vencedor, porém considerado um prêmio para todo o país. Entre 1948 e 1956, a Academia presenteou Prêmios Especiais/Honorários para os melhores filmes estrangeiros lançados nos Estados Unidos. A premiação, entretanto, não foi entregue regularmente (nenhum prêmio foi entregue em 1954), e não era competitiva, pois não havia outros indicados além do vencedor do ano. Para a edição do Oscar de 1957, um Prêmio da Academia ao Mérito, conhecido oficialmente como Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, foi criado para filmes que não eram falados em inglês, sendo entregue anualmente desde então.

Written by Paulo Amadeu

01/11/2012 at 11:14

Publicado em Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

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Filme: A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987)

(Atenção: spoiler)

A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987)

A maioria das pessoas vive hoje  em uma cultura onde a paisagem está pontilhada de restaurantes de todos os tipos. Além disso, a atual publicidade com a qual somos alimentados convenceu-nos de que se não tomarmos três boas refeições, entremeadas com diversas refeições ligeiras, corremos o risco de “morrer de fome” ou de desenvolver uma subnutrição. Porém, estas duas realidades, amplamente disseminadas hoje em dia, são estranhas a muitos contextos carentes da atualidade, e com certeza não faziam parte do cotidiano da maioria das pessoas no passado. Acrescente-se que desde tempos bem remotos se encontram exemplos de pessoas inclinadas a praticar uma  rigidez espartana. O ascetismo tende a desprezar as boas coisas da vida; o asceta se nega à alegria, e propõe a abstinência dos prazeres. O dualismo asceta tem influenciado grandemente a religiosidade ocidental.

Martine e Filippa são duas irmãs idosas que se exercitam incansavelmente num tipo de piedade cristã característicamente ascética. No século XIX, mais especificamente em 1885, as duas mulheres, que não se casaram,A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) vivem em uma pequena aldeia na remota e bela, porém igualmente árida e fria, costa oeste da Jutlândia, a grande península da Dinamarca. Martine e Filippa receberam estes nomes como uma homenagem aos reformadores luteranos do século XVI, Martinho Lutero e Philipp Melanchthon. O pai das duas anciãs foi um pastor que fundou um grupo religioso derivado do luteranismo. A seita era caracterizada por um forte rigor ascético e pietismo cristão manifesto em obras de caridade. Conquanto o pastor já houvesse falecido há muito tempo e o grupo religioso não arrebanhasse novos convertidos, as duas irmãs, enquanto envelheciam, presidiam abnegada e amorosamente a sua congregação de fiéis rurais, cada dia menor e mais colorida por cabelos brancos.

Retrocedendo no tempo quarenta e nove anos, encontramos as duas irmãs, Martine e Filippa, em sua beleza arrebatadora. O pai rejeita todos os pretendentes, enaltecendo a vida celibatária, e estimando o amor terreno e o casamento como “ilusões vazias”. As filhas são para ele como “as mãos direita e esquerda”, ou como “a sua prata e o seu ouro”. Cada filha é cortejada por um pretendente apaixonado que visita a Jutlândia. Martine por um oficial da cavalaria sueca, e Filippa por um barítono francês da Ópera de Paris, que, ensinando canto à filha do ministro religioso, quebrava com o canto lírico o silêncio da costa. A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) Os dois pretendentes apaixonaram-se desesperadamente. Porém, não podendo ter o seu amor correspondido, o jovem oficial vai embora sentindo-se indigno da mão de Martine. O barítono francês, por sua vez, que desejava levar Filippa para o canto lírico parisiense, após várias tentativas, empolga-se e beija-a durante um ensaio de um dueto de Don Giovanni. Filippa decide suspender as aulas e recusa a oferta de estrelato e riqueza.

Trinta e cinco anos depois, isto é, em 1871, em noite de tempestade, Babette Hersant bate à porta das duas irmãs. Babette chega ao pequeno vilarejo na Dinamarca fugindo da França durante a repressão à Comuna de Paris. Ela traz uma carta do ex-pretendente de Filippa, o cantor de ópera, explicando a sua situação e recomendando-a para ser acolhida na casa, onde poderia trabalhar para custear sua pensão. Babette se emprega como faxineira e cozinheira, é instalada num pequeno e modestíssimo quarto preparado no sótão da residência, e ali vive por quatorze anos.

Babette torna-se conhecida no vilarejo, aprendendo com dificuldades o novo idioma, até que um dia recebe a notícia de que havia ganho uma fortuna na loteria francesa. O prêmio montava em 10.000 francos, que certamente lhe permitiriam voltar à sua antiga casa e ao seu estilo de vida mais requintado. Ninguém no vilarejo sabia de sua qualificação e da atividade que realizava em Paris, nem mesmo as duas irmãs, conquanto, crescentemente, os dotes culinários da francesa vão se fazendo evidentes. Ao invés de voltar à França, ela pede permissão para preparar um jantar em comemoração ao centésimo aniversário do pastor. Embora com alguma relutância, as irmãs concordam em aceitar a sua oferta de pagar "um verdadeiro jantar francês". Babette se ausenta do vilarejo por alguns dias, A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) a fim de pessoalmente providenciar os suprimentos a serem enviados para a Jutlândia. Os ingredientes são abundantes, suntuosos e exóticos, e sua chegada causa muitos comentários entre os moradores do pequeno povoado.

Com a chegada dos igredientes e iguarias riquíssimas e refinadas, com seu aspecto até mesmo chocante, e ao terem início os preparativos, as irmãs começam a se preocupar que a refeição será, na melhor das hipóteses, um grande pecado de luxúria e sensualidade, e na pior, alguma forma de festival pagão e diabólico, um ritual de bruxaria. Em uma rápida reunião, as irmãs e os fiéis da congregação concordam em participar da refeição, a fim de não magoar a amiga de todos eles. Decidem, entretanto, renunciar a qualquer tipo de prazer na refeição, procurando ser discretos e reservados, e evitando fazer menção à comida durante o tempo em que estiverem ceando.

Mais do que apenas um deleite epicurista, a festa é uma manifestação de imenso afeto de Babette, um ato com ecos de auto-sacrifício eucarístico. Embora não conte a ninguém, Babette está gastando todo o prêmio que ganhara em seu gesto de gratidão. Você é capaz de imaginar os detalhes que envolvem uma refeição no restaurante mais caro da França? A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) Imagine os procedimentos protocolares, as vestimentas dos serviçais, os talheres, os guardanapos, os cristais, os linhos, as louças chinesas, as bebidas e licores, os apertivos, as sobremesas… Quando entram naquela singela e rústica residência, a princípio os convidados ficam perceptivelmente assustados e tomados de um indisfarçável sentimento de culpa.

O ambiente branco e cinza daquele povoado ganha cores no momento do banquete, quando são focados os diversos tipos de pratos e delícias. E tais quais peixes, “os convidados são fisgados pela boca”. A figura de mais destaque entre os convidados é o antigo ex-pretendente de Martine, agora um famoso general casado com alguém da corte da rainha. Ele estava de passagem na região, em residência de sua tia, e como um homem cosmopolita, e ex-adido em Paris, é a única pessoa à mesa com qualificação para comentar sobre o banquete. É ele quem fornece aos hóspedes informações abundantes e explícitas sobre a extraordinária qualidade do serviço, da comida e da bebida. O menu responsável pelo arrebatamento dos presentes inclui Potage à la Tortue, Blinis Demidoff au Caviar, Caille en Sarcophage avec Sauce Perigourdine, salada de chicória belga e nozes ao vinagrete, e Les Fromages, com queijo azul, mamão, figos, uvas, abacaxi e romãs. O grand finale traz como sobremesa Savarin au Rhum avec des Figues et Fruits Glacées. O menu se completa com numerosos e raros vinhos, incluindo um 1845 Clos de Vougeot e um 1860 Veuve Clicquot champagne. O general comenta que o refinamento e os custos do banquete, assim como o estilo e luxo do serviço só poderiam ser comparados ao que ele experimentara no famoso Café Anglais, em Paris, onde o Chef anterior era uma mulher famosíssima por suas extraordinárias habilidades culinárias — ocupação anterior de Babette, até então desconhecida pelas irmãs, e revelada por ela em ato de confiança após a refeição. A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) O comentário do general culmina com um breve discurso reflexivo baseado no Salmo 85.10, que algumas vezes ouvira do falecido pastor: "A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram”.

Embora os celebrantes do vilarejo inicialmente se recusassem a comentar sobre os prazeres terrenos da comida e da bebida, e a reconhecerem os dons extraordinários de Babette como divinos, com a euforia suscitada pelo jantar, dá-se a quebra de desconfiança e superstições, elevando os comensais camponeses não apenas fisicamente, mas espiritualmente. Hostilidades e disputas  antigas são esquecidas, amores antigos são reacendidos e uma redenção do humano se estabelece à mesa. Sentem-se todos eles privilegiados com a oportunidade daquela celebração, indizivelmente gratos por tal graça eucarística.

Após a revelação da verdadeira identidade de Babette, as irmãs assumem que ela irá agora voltar a Paris. Surpreendentemente ela informa que todo o seu dinheiro se foi e que ela não vai a lugar algum. As irmãs reagem perplexas, assustadas. Babette informa que aquele banquete no Café Anglais tem um custo de 10.000 francos. Em lágrimas, Martine comenta: "Agora você vai ser pobre o resto da vida!". Ao que Babette responde: "Um artista nunca é pobre".

“Estamos todos famintos e carentes”

Segundo a Psicanálise, pulsão é “o processo dinâmico que consiste numa pressão ou força que faz o organismo tender para um objetivo”. Segundo Freud, uma pulsão tem a sua fonte numa excitação corporal; o seu objetivo ou meta é suprimir o estado de tensão que reina na fonte pulsional; é no objeto ou graças a ele que a pulsão pode atingir a sua meta. No entendimento inicial freudiano, as pulsões de autoconservação deveriam ser situadas, já de início, do lado do princípio de realidade e as pulsões sexuais ao lado do princípio do prazer. Freud será levado a revisar este conceito posteriormente.

No livro Mulher 40 Graus à Sombra; reflexões sobre a Vida a partir dos 40 Anos, as autoras fazem um comentário sobre o jantar de Babette que considero interessante. Escolho citá-las pois são psicanalistas:

Babette, uma mulher de mais ou menos cinquenta anos […] não revelara a ninguém a sua habilidade: ‘transformar um jantar numa espécie de caso de amor, onde fosse impossível distinguir entre o apetite físico e o espiritual’. Dando o melhor de si, na expressão de sua arte, seduzia a todos que provasse de sua mágica comida.

Não era à toa que os velhinhos, A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) que tinham medo de felicidade, fissessem um pacto contra a bruxa Babette: comer como se nunca tivessem tido paladar.

O banquete começado; lentamente as manifestações de medo e desconfiança iniciais vão cedendo. Redescobrem o prazer, lambem os beiços e chupam os dedos. Velhos enamorados se reencontram através de olhares de cumplicidade e toques de carinho. Confissões e gestos reasseguram antigos sentimentos de amizade fraterna. E, assim, vão exorcizando culpas, traições e todas as mazelas e mumunhas que os mantinham em isolamento. Recuperam a capacidade de ouvir, falar, ver, sorrir, conviver… viver.

A julgar pela reação final das pessoas que curtiram a festa de Babette, num incontrolável apetite, há que suspeitar que estamos todos famintos e carentes, precisando resgatar sabores e valores.

O também psicanalista Rubem Alves, num artigo interessantíssimo, lança seu olhar perspicaz sobre Babette e sua arte de seduzir:

Quem pensa que a comida só faz matar a fome está redondamente enganado. Comer é muito perigoso. Porque quem cozinha é parente próximo das bruxas e dos magos. Cozinhar é feitiçaria, alquimia. E comer é ser enfeitiçado. Sabia disso Babette, artista que conhecia os segredos de produzir alegria pela comida. Ela sabia que, depois de comer, as pessoas não permanecem as mesmas. Coisas mágicas acontecem. […] De fato, a feitiçaria aconteceu: sopa de tartaruga, cailles au sarcophage, vinhos maravilhosos, o prazer amaciando os sentimentos e pensamentos, as durezas e rugas do corpo sendo alisadas pelo paladar, as máscaras caindo, os rostos endurecidos ficando bonitos pelo riso, in vino veritas… 

A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) é um filme dinamarquês dirigido por Gabriel Axel, com roteiro baseado em conto de Isak Dinesen (pseudônimo de Karen Blixen), que já oferecera ao cinema a base do roteiro para o filme Entre dois amores (Out of Africa, 1985). O grande e bom elenco é fomado por Stéphane Audran, Bodil Kjer e Birgitte Federspiel, além de nomes como Jarl Kulle, Jean-Philippe Lafont e Vibeke Hastrup. Em 1988 o filme ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e colheu muitos outros prêmios importantes. Alguns bons destaques do filme são a trilha sonora por Per Nørgaard, a direção de arte de Sven Wichmann e a direção de fotografia por Henning Kristiansen.

Written by Paulo Amadeu

26/12/2011 at 12:16

Filme: Pelle, O Conquistador (1987)

(Atenção: spoiler)

Pelle erobreren, 1987

Max von Sydow e Pelle Hvenegaard em “Pelle, O Conquistador” (Pelle erobreren, 1987)

Para quem está distante, pode parecer que Dinamarca e Suécia são “tudo a mesma coisa”. A proximidade geográfica, e as muitas convergências históricas, étnicas e culturais, podem levar a este tipo de impressão a respeito daqueles dois “povos irmãos”. Porém, o que diriam japoneses e coreanos, ou indianos e paquistaneses, ou canadenses e estadunidenses, ou brasileiros e argentinos, se os seus respectivos países fossem confundidos e considerados “tudo a mesma coisa”?

Localizados na Europa Setentrional, Suécia e Dinamarca são dois países nórdicos que se encontram ligados pela Ponte do Øresund. A Dinamarca é o mais meridional dentre os países nórdicos, e compõe-se de uma grande península, a Jutlândia, e muitas ilhas, algumas grandes e centenas menores, muitas vezes referidas como o Arquipélago Dinamarquês. Dinamarca e Suécia, juntamente com a Noruega, formam a região que geográfica e historicamente é chamada, no sentido mais estrito, de Escandinávia. Em geografia física, porém, a Dinamarca é considerada parte da planície setentrional europeia e não da península Escandinava.

As precárias condições de vida dos trabalhadores europeus caracterizaram as mudanças sociais ocorridas na segunda metade do século XIX, com repercussões diretas no início do século XX. Este impacto pode ser observado na imigração de suecos para a Dinamarca durante aquele período. No século XIX a Suécia chegou a ter uma taxa de crescimento populacional de 1,2% ao ano, que lhe permitiu dobrar de população em sessenta anos. Este fenômeno ocorreu antes da Revolução Industrial e teve como consequência a pauperização da população rural, forçando muitos suecos a emigrar, principalmente para os Estados Unidos da América. Mesmo entre aqueles suecos que se viram impelidos a emigrar para a Dinamarca, o sonho de seguir para a América era algo muito forte e arraigado.

Pelle erobreren, 1987

“Esse novo país para onde vamos é muito diferente… Ganha-se tão bem que as crianças não precisam trabalhar. Podem brincar o dia inteiro”.

Pelle, O Conquistador (Pelle erobreren, 1987) é um filme dinamarquês, do gênero drama, dirigido pelo cineasta dinamarquês Bille August. Foi uma co-produção entre empresas da Dinamarca e Suécia. Trata-se de um roteiro adaptado pelo diretor e outros quatro cooperadores, baseado no famoso romance publicado em 1910 pelo escritor dinamarquês Martin Andersen Nexø (1869-1954).

Com a Suécia em depressão econômica, um barco cheio de imigrantes suecos chega à ilha dinamarquesa de Bornholm. Entre eles estão o viúvo Lasse Karlsson e seu filho Pelle, que, procedentes de Tomelilla, se mudavam para a Dinamarca a fim de encontrar trabalho, após a morte da mãe do menino. O velho Lasse e seu filho temporão dependem um do outro para sobreviver. Com poucas chances de conseguir um bom emprego em seu novo lar, ambos são empregados em uma grande fazenda, onde submetem-se a serem tratados com a mais baixa forma de vida. Ali eles engrossam o contingente em um cotidiano frequentemente cruel, num universo de camponeses, patrões e mulheres infelizes. O filme de Bille August mostra-nos a estreita relação que se vai mantendo entre pai e filho, enquanto eles articulam uma vida o mais feliz possível no meio de tanta opressão. À medida que o drama se desenvolve, somos apresentados à fazenda com suas semeaduras e colheitas, ao remoto e belíssimo lugar com suas estações bem nítidas, à força do mar, às instituições locais, como a escola e a igreja, e sobretudo aos homens e mulheres, com seus sonhos, amores e conflitos.

Pelle erobreren, 1987

Pelle erobreren, 1987

“Perdoe-me, Senhor, abusar de suas dádivas, mas é uma terrível tentação quando se sofre”.

Enquanto assiste as terríveis humilhações que sofre o seu pobre pai, o menino Pelle é inserido em trabalho pesado, começa a falar dinamarquês, é matriculado na escola local, e aos poucos vai ganhando autoconfiança, ainda que muito discriminado como um estrangeiro. Não obstante, o garoto e seu pai não estão dispostos a desistir do sonho de encontrar uma vida melhor do que a que deixaram na Suécia. À medida em que amadurece, Pelle acalenta o desejo de conhecer o mundo e começa a dar conta de sua necessidade de tornar-se independente. Terá que crescer antes mesmo de atingir a puberdade, a fim de não enfrentar o mesmo triste destino de seu pai. Partirá sozinho mas otimista, cheio de perguntas e com uma necessidade enorme de saber mais sobre a vida.

Pelle erobreren, 1987

Pelle erobreren, 1987

O formidável e experiente Max von Sydow, em mais um excelente trabalho, é o protagonista deste drama épico sobre a capacidade de sobrevivência do ser humano, interpretando o pobre viúvo que emigra com o seu pequeno filho. O ator Pelle Hvenegaard — que tinha treze anos à época — foi escolhido entre duas mil crianças. Seu nome coincide com o do personagem porque sua mãe leu, durante a gravidez, o livro de Martin Andersen Nexø. O filme também é estrelado por Erik Paaske, Björn Granath, Morten Jørgensen e Astrid Villaume.

O score musical é assinado pelo compositor sueco Stefan Nilsson, e conta com momentos muito bons; um deles é a execução em concertina da conhecida música natalina “Noite Silenciosa” (Silent Night). Um destaque no filme é a fotografia exuberante, que manifesta o olhar apurado e detalhista de Jörgen Persson, diretor de fotografia.

Pelle erobreren, 1987

Em 1988, o filme Pelle, O Conquistador ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, França. Na edição do Oscar de 1989, ganhou a estatueta na categoria Melhor Filme Estrangeiro, tendo sido o segundo filme dinamarquês a receber o referido prêmio; o anterior foi A Festa de Babette, um ano antes. Foi também indicado ao Oscar de Melhor Ator Principal (Max von Sydow). O bom trabalho conduzido por Bille August também ganhou o Globo de Ouro, em 1989, na categoria Melhor Filme Estrangeiro. Consta ainda da lista do The New York Times (EUA) dos cem melhores filmes de todos os tempos.

Pelle erobreren, 1987

Written by Paulo Amadeu

12/11/2011 at 21:42

Filme: “A Vida dos Outros”

Filme A Vida dos Outros

Um filme que gostei bastante foi "A Vida dos Outros". Trata-se de uma produção alemã. Assisti com o áudio original em alemão e as legendas em português. Ainda que alguns ultra-ortodoxos da esquerda não nutram grande simpatia pelo filme, ele é formidável. O enredo tem início no contexto anterior aos últimos estertores do regime da Alemanha Socialista, e é ambientado na antiga Berlim Oriental, antes da queda do muro. Ele versa sobre a dura vida sob regimes totalitários, onde a liberdade de expressão é subtraída, a vida das pessoas é monitorada e invadida a privacidade dos indivíduos. O espectador é inserido dentro do clima de desconfiança e paranóia gerados por um Estado totalitário, ditatorial, que se pretende onisciente e onipresente.

O roteiro é muito bom. Georg Dreyman (Sebastian Koch) é o maior dramaturgo da Alemanha Oriental, sendo por muitos considerado o modelo perfeito de cidadão para o país, já que não contesta o governo nem seu regime político. Apesar disto o ministro Bruno Hempf (Thomas Thieme) acha por bem acompanhar seus passos, para descobrir se Dreyman tem algo a esconder. Ele passa esta tarefa para Anton Grubitz (Ulrich Tukur), que a princípio não vê nada de errado com Dreyman mas é alertado por Gerd Wiesler (Ulrich Mühe), seu subordinado, de que ele deveria ser vigiado. Grubitz passa a tarefa a Wiesler, que monta uma estrutura em que Dreyman e sua namorada, a atriz Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck), são vigiados vinte e quatro horas. Simultaneamente o ministro Hempf se interessa por Christa-Maria, passando a chantageá-la em troca de favores sexuais. O desenlace do roteiro é bem surpreendente.

A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen / The Lives Of Others) é um drama de duas horas e quarenta e sete minutos, lançado na Alemanha em 2006. Além do bom desempenho dos atores, o filme conta com uma competente direção por Florian Henckel von Donnersmarck.

Das Leben der Anderen tem sido considerado um dos melhore filmes lançados nos cinemas nos últimos anos, aplaudido pelos críticos e pelo espectador. A produção alemã colheu a estatueta do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e foi amplamente premiada. Recomendo enfaticamente.

Written by Paulo Amadeu

06/05/2010 at 9:44