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“Cinema: It is a ribbon of dreams.” (Orson Welles)

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Filme: Um Método Perigoso (A Dangerous Method, 2011)

(Atenção: spoiler)

A Dangerous Method, 2011, movie

Keira Knightley (Sabina Spielrein) e Michael Fassbender (Carl Jung) em “Um Método Perigoso” (A Dangerous Method, 2011)

Um Método Perigoso (A Dangerous Method, 2011) é um filme histórico, britânico, em consórcio que envolve também empresas alemãs, canadenses e suíças. O drama biográfico é dirigido pelo cineasta canadense David Cronenberg, conhecido por trabalhos como A Mosca (1986), Gêmeos; Mórbida Semelhança (1988), Crash; Estranhos Prazeres (1996) e Marcas da Violência (2005). O filme estreou em 2 de setembro de 2011 no Festival de Cinema de Veneza, recebendo destaque também em outros festivais posteriores.

Um Método Perigoso trata-se de um roteiro do premiado Christopher Hampton, ganhador do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado com Ligações Perigosas (1988) e que foi também indicado ao mesmo prêmio com Desejo e Reparação (2007). Hampton recorreu a uma peça de sua autoria, The Talking Cure (2002), que por sua vez se baseia no livro A Most Dangerous Method, de autoria de John Kerr, publicado em 1993. A partir da peça de Hampton, David Cronenberg arquitetou um filme admirável sobre as origens da Psicanálise.

O roteiro de Um Método Perigoso envolve cinco personagens, sendo os principais Carl Gustav Jung (1875-1961), o conhecido psiquiatra suíço fundador da Psicologia Analítica,  e Sabina Naftulovna Spielrein (1885-1942), judia russa que se tornou uma das primeiras psicanalistas, e que, inclusive, foi analista de Jean Piaget (1896-1980), renomado psicólogo suíço que dedicou-se ao estudo do desenvolvimento humano. Além de Jung e Spielrein, compõem o núcleo principal do filme: Sigmund Freud (1856-1939), fundador da Psicanálise, A Dangerous Method, 2011, movieEmma Rauschenbach Jung (1882-1955), escritora e também psicanalista, esposa de Jung, e Otto Gross (1877-1920), psicanalista austríaco, um dos primeiros discípulos dissidentes de Freud. Com várias ideias bastante revolucionárias, Gross propunha uma forma primitiva de antipsiquiatria e liberação sexual, e desenvolveu uma forma anarquista da chamada psicologia profunda (em alemão Tiefenpsychologie), em que rejeitava a necessidade civilizatória da repressão psicológica tal como a defendia Freud.

Boa parte da história de Um Método Perigoso recebeu anteriormente uma versão cinematográfica com Jornada da Alma (Prendimi L´Anima, 2003), através da lente do cineasta italiano Roberto Faenza. A história se passa antes da Primeira Guerra Mundial, mais precisamente num período de nove anos, a saber, entre 1904 e 1913. O foco é o tratamento terapêutico de Sabina Spielrein por Jung, que, na época, começava a utilizar a Psicanálise e era discípulo de Freud — este mantinha com Jung uma relação como a de pai e filho, tendo a expectativa de que o pupilo viesse a sucedê-lo. Naquele período a Psicanálise procurava a sua identidade científica e também o seu lugar social. O roteiro recorre amplamente às correspondências trocadas por Jung e Freud e ao próprio diário de Sabina Spielrein.

Proposital e característicamente, a maior parte do filme transcorre por meio de diálogos, a maioria deles em ambientes privativos, incluindo alguns em setting de análise. Os diálogos intensos envolvem todos os cinco personagens: Jung e Sabina, Jung e Freud, Jung e Emma, Jung e Gross (em que tratam de questões intensas na relação transferencial-contratransferencial, inclusive as fantasias sexuais na relação entre analista e paciente), Freud e Sabina, e, finalmente, Sabina e Emma.

A história é contada em cinco momentos:

A Dangerous Method, 2011, movieO primeiro momento tem início em 17 de agosto de 1904, com a chegada de Sabina Spielrein ao Hospital Psiquiátrico Burghölzli em Zurique, Suíça, onde Jung clinicava. A bonita jovem de dezenove anos, sofrendo muito, chega mergulhada num quadro emocionalmente caótico e deplorável, conduzida em um carro no qual é trazida à força. Sabina se torna paciente de Jung, passa pelos primeiros tratamentos, até tornar-se auxiliar do psiquiatra na clínica. Depois ingressa na universidade de Medicina.

Jung, depois de haver conhecido Emma por sete anos, casou-se com ela no ano anterior à chegada de Sabina em Zurique. O casal estava estabelecendo as bases de sua família. De família aristocrática e rica, Emma teve durante este período os primeiros de seus cinco filhos com Jung. Sentindo o crescente distanciamento do cônjuge, Emma nutria a esperança de que os filhos trouxessem de volta o brilho conjugal e o amor de seu marido.

“— Eu nunca serei uma médica!”
— Por quê não?”

O segundo momento tem início dois anos depois, em 3 de março de 1906, com a chegada de Jung e Emma em Viena, Áustria, quando conhecem Freud pessoalmente. Ali, Jung e Freud privam de um momento rico e de grande intimidade. Uma das sessões entre os dois durou treze horas. Um destaque desse segundo momento foi a chegada de Otto Gross a Zurique, a fim de passar por um tratamento com Jung. Dá-se, finalmente, a fuga de Gross da clínica, após exercer grande influência sobre Jung. Sob este impacto tem início a relação extraconjugal de Jung com Sabina. Outros destaques do período são a presença de Freud em Zurique, a correspondência entre Sabina e Freud, e o processo doloroso que impôs o fim do envolvimento amoroso entre Sabina e Jung, e a saída deste do hospital. Também a viagem de Freud e Jung aos Estados Unidos é marcante neste período; foi durante o trajeto de navio que a autoridade de Freud sobre Jung sofreu um significativo momento de desgaste.

“O prazer nunca é simples, como você sabe muito bem”.

O terceiro momento tem início em 25 de setembro de 1910, com a visita de Sabina ao novo local de trabalho de Jung. Após deixar o hospital, Jung enfrentara grandes dificuldades para encontrar novos pacientes, mas agora já estava com a agenda cheia novamente. Sabina trouxe a Jung a sua dissertação de conclusão de curso, na qual trabalharam juntos. Ambos continuavam envolvidos em evidentes afetos. Tendo Jung como mentor na dissertação, Sabina expõe algumas de suas primeiras conclusões teóricas mais significativas.

“As pessoas são assim. Se não lhes dissermos a verdade, quem o fará?”

A Dangerous Method, 2011, movie

O quarto momento se dá a partir de 17 de abril de 1912, em Viena, com Sabina diante de Freud, quando ela expõe algumas de suas conclusões acerca da sexualidade. Sabina graduara-se no ano anterior, quando também foi aceita como membro da Sociedade de Psicanálise de Viena. É neste período que as teorias freudianas e jungianas se estabelecem em distintos streams. Jung já declara suas convicções acerca dos mitos e dos arquétipos, e fica patente o desapontamento de Freud com seu antigo pupilo. Porém, na correspondência entre ambos, o método de Jung vai revelando sua maturidade e o relacionamento entre eles sofre formalmente uma ruptura.

“Suponho que deve haver um vínculo inquebrantável entre a morte e o sexo”.

O quinto e último momento tem como marco a data de 16 de julho de 1913. Às vésperas da Primeira Grande Guerra, Sabina, agora casada e grávida de um médico judeu russo, visita a residência da família Jung. Embora já houvessem se visto anteriormente, ela e Emma se conhecem formalmente e têm um diálogo sereno e afirmativo. Sabina também conhece os filhos de Jung. Emma pede a ajuda de Sabina, a fim de que seja analista de seu marido que atravessa momentos difíceis, mas esta informa sua decisão de dedicar-se à psicologia infantil. Sabina e Jung têm um sincero diálogo. Ele já estava envolvido com Antonia Anna "Toni" Wolff (1888-1953), uma jovem paciente, que tornou-se também analista jungiana. O momento final é emblemático. Num sentido oposto ao da primeira cena do filme, um carro sai da residência Jung, e nele está Sabina. Embora ainda sofrendo, a mesma mulher apresenta-se agora saudável, e seguirá posteriormente para a Rússia. Deixa para trás um psiquiatra maduro e circunspecto.

“Meu amor por ti foi o mais importante em minha vida”.

O filme é estrelado por Michael Fassbender (Carl Jung), Keira Knightley (Sabina Spielrein), Viggo Mortensen (Sigmund Freud), Sarah Gadon (Emma Jung) A Dangerous Method, 2011, moviee Vincent Cassel (Otto Gross). Christoph Waltz foi inicialmente escalado como Sigmund Freud, mas foi substituído por Viggo Mortensen devido a um conflito de agendas. Christian Bale esteve em negociações para interpretar Carl Jung, mas também precisou declinar pelo mesmo motivo. As filmagens começaram em 26 de maio e terminaram em 24 de julho de 2010, recorrendo a lugares e instalações em Viena, Zurique, Konstanz, Colônia e Berlim. O filme marca a terceira parceria consecutiva entre Cronenberg e Viggo Mortensen, e também o terceiro trabalho de Cronenberg com o produtor britânico Jeremy Thomas. A direção de fotografia é de Peter Suschitzky e a trilha sonora é assinada por Howard Shore. Este recorreu a algumas peças em piano, a fim de oferecer alguns transcursos plácidos de cena, e trabalhou com habilidade as transições. Um destaque durante o filme é A Valquíria (Die Walküre), a conhecida composição do alemão Richard Wagner, ópera preferida de Carl Jung e Sabina Spielrein. 

Em resenha publicada no último domingo — que cometo, abaixo, o sacrilégio de abrasileirar —, escreve João Lopes sobre a película de noventa e nove minutos:

David Cronenberg filma a relação Freud/Jung, não apenas como uma simples conjuntura de pensamento e pesquisa, mas também como uma paisagem de interrogações e perplexidades que transforma o nascimento da psicanálise num enorme desafio simbólico (…).

"Um Método Perigoso" é a prova real da dimensão singularmente intimista do cinema de Cronenberg, afinal desafiando as fronteiras convencionais do próprio fator humano. E tudo passa, em última instância, pela vibração dos atores: Viggo Mortensen compondo um Freud de sutil autoridade paterna; Michael Fassbender no papel de um Jung assombrado pela sua própria ousadia; enfim, Keira Knightley emprestando a Sabina a comoção de uma mulher capaz de superar os padrões masculinos (já vimos Oscars atribuídos por infinitamente menos…). Cf. aqui.

Written by Paulo Amadeu

16/10/2012 at 9:17

Filme: A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987)

(Atenção: spoiler)

A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987)

A maioria das pessoas vive hoje  em uma cultura onde a paisagem está pontilhada de restaurantes de todos os tipos. Além disso, a atual publicidade com a qual somos alimentados convenceu-nos de que se não tomarmos três boas refeições, entremeadas com diversas refeições ligeiras, corremos o risco de “morrer de fome” ou de desenvolver uma subnutrição. Porém, estas duas realidades, amplamente disseminadas hoje em dia, são estranhas a muitos contextos carentes da atualidade, e com certeza não faziam parte do cotidiano da maioria das pessoas no passado. Acrescente-se que desde tempos bem remotos se encontram exemplos de pessoas inclinadas a praticar uma  rigidez espartana. O ascetismo tende a desprezar as boas coisas da vida; o asceta se nega à alegria, e propõe a abstinência dos prazeres. O dualismo asceta tem influenciado grandemente a religiosidade ocidental.

Martine e Filippa são duas irmãs idosas que se exercitam incansavelmente num tipo de piedade cristã característicamente ascética. No século XIX, mais especificamente em 1885, as duas mulheres, que não se casaram,A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) vivem em uma pequena aldeia na remota e bela, porém igualmente árida e fria, costa oeste da Jutlândia, a grande península da Dinamarca. Martine e Filippa receberam estes nomes como uma homenagem aos reformadores luteranos do século XVI, Martinho Lutero e Philipp Melanchthon. O pai das duas anciãs foi um pastor que fundou um grupo religioso derivado do luteranismo. A seita era caracterizada por um forte rigor ascético e pietismo cristão manifesto em obras de caridade. Conquanto o pastor já houvesse falecido há muito tempo e o grupo religioso não arrebanhasse novos convertidos, as duas irmãs, enquanto envelheciam, presidiam abnegada e amorosamente a sua congregação de fiéis rurais, cada dia menor e mais colorida por cabelos brancos.

Retrocedendo no tempo quarenta e nove anos, encontramos as duas irmãs, Martine e Filippa, em sua beleza arrebatadora. O pai rejeita todos os pretendentes, enaltecendo a vida celibatária, e estimando o amor terreno e o casamento como “ilusões vazias”. As filhas são para ele como “as mãos direita e esquerda”, ou como “a sua prata e o seu ouro”. Cada filha é cortejada por um pretendente apaixonado que visita a Jutlândia. Martine por um oficial da cavalaria sueca, e Filippa por um barítono francês da Ópera de Paris, que, ensinando canto à filha do ministro religioso, quebrava com o canto lírico o silêncio da costa. A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) Os dois pretendentes apaixonaram-se desesperadamente. Porém, não podendo ter o seu amor correspondido, o jovem oficial vai embora sentindo-se indigno da mão de Martine. O barítono francês, por sua vez, que desejava levar Filippa para o canto lírico parisiense, após várias tentativas, empolga-se e beija-a durante um ensaio de um dueto de Don Giovanni. Filippa decide suspender as aulas e recusa a oferta de estrelato e riqueza.

Trinta e cinco anos depois, isto é, em 1871, em noite de tempestade, Babette Hersant bate à porta das duas irmãs. Babette chega ao pequeno vilarejo na Dinamarca fugindo da França durante a repressão à Comuna de Paris. Ela traz uma carta do ex-pretendente de Filippa, o cantor de ópera, explicando a sua situação e recomendando-a para ser acolhida na casa, onde poderia trabalhar para custear sua pensão. Babette se emprega como faxineira e cozinheira, é instalada num pequeno e modestíssimo quarto preparado no sótão da residência, e ali vive por quatorze anos.

Babette torna-se conhecida no vilarejo, aprendendo com dificuldades o novo idioma, até que um dia recebe a notícia de que havia ganho uma fortuna na loteria francesa. O prêmio montava em 10.000 francos, que certamente lhe permitiriam voltar à sua antiga casa e ao seu estilo de vida mais requintado. Ninguém no vilarejo sabia de sua qualificação e da atividade que realizava em Paris, nem mesmo as duas irmãs, conquanto, crescentemente, os dotes culinários da francesa vão se fazendo evidentes. Ao invés de voltar à França, ela pede permissão para preparar um jantar em comemoração ao centésimo aniversário do pastor. Embora com alguma relutância, as irmãs concordam em aceitar a sua oferta de pagar "um verdadeiro jantar francês". Babette se ausenta do vilarejo por alguns dias, A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) a fim de pessoalmente providenciar os suprimentos a serem enviados para a Jutlândia. Os ingredientes são abundantes, suntuosos e exóticos, e sua chegada causa muitos comentários entre os moradores do pequeno povoado.

Com a chegada dos igredientes e iguarias riquíssimas e refinadas, com seu aspecto até mesmo chocante, e ao terem início os preparativos, as irmãs começam a se preocupar que a refeição será, na melhor das hipóteses, um grande pecado de luxúria e sensualidade, e na pior, alguma forma de festival pagão e diabólico, um ritual de bruxaria. Em uma rápida reunião, as irmãs e os fiéis da congregação concordam em participar da refeição, a fim de não magoar a amiga de todos eles. Decidem, entretanto, renunciar a qualquer tipo de prazer na refeição, procurando ser discretos e reservados, e evitando fazer menção à comida durante o tempo em que estiverem ceando.

Mais do que apenas um deleite epicurista, a festa é uma manifestação de imenso afeto de Babette, um ato com ecos de auto-sacrifício eucarístico. Embora não conte a ninguém, Babette está gastando todo o prêmio que ganhara em seu gesto de gratidão. Você é capaz de imaginar os detalhes que envolvem uma refeição no restaurante mais caro da França? A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) Imagine os procedimentos protocolares, as vestimentas dos serviçais, os talheres, os guardanapos, os cristais, os linhos, as louças chinesas, as bebidas e licores, os apertivos, as sobremesas… Quando entram naquela singela e rústica residência, a princípio os convidados ficam perceptivelmente assustados e tomados de um indisfarçável sentimento de culpa.

O ambiente branco e cinza daquele povoado ganha cores no momento do banquete, quando são focados os diversos tipos de pratos e delícias. E tais quais peixes, “os convidados são fisgados pela boca”. A figura de mais destaque entre os convidados é o antigo ex-pretendente de Martine, agora um famoso general casado com alguém da corte da rainha. Ele estava de passagem na região, em residência de sua tia, e como um homem cosmopolita, e ex-adido em Paris, é a única pessoa à mesa com qualificação para comentar sobre o banquete. É ele quem fornece aos hóspedes informações abundantes e explícitas sobre a extraordinária qualidade do serviço, da comida e da bebida. O menu responsável pelo arrebatamento dos presentes inclui Potage à la Tortue, Blinis Demidoff au Caviar, Caille en Sarcophage avec Sauce Perigourdine, salada de chicória belga e nozes ao vinagrete, e Les Fromages, com queijo azul, mamão, figos, uvas, abacaxi e romãs. O grand finale traz como sobremesa Savarin au Rhum avec des Figues et Fruits Glacées. O menu se completa com numerosos e raros vinhos, incluindo um 1845 Clos de Vougeot e um 1860 Veuve Clicquot champagne. O general comenta que o refinamento e os custos do banquete, assim como o estilo e luxo do serviço só poderiam ser comparados ao que ele experimentara no famoso Café Anglais, em Paris, onde o Chef anterior era uma mulher famosíssima por suas extraordinárias habilidades culinárias — ocupação anterior de Babette, até então desconhecida pelas irmãs, e revelada por ela em ato de confiança após a refeição. A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) O comentário do general culmina com um breve discurso reflexivo baseado no Salmo 85.10, que algumas vezes ouvira do falecido pastor: "A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram”.

Embora os celebrantes do vilarejo inicialmente se recusassem a comentar sobre os prazeres terrenos da comida e da bebida, e a reconhecerem os dons extraordinários de Babette como divinos, com a euforia suscitada pelo jantar, dá-se a quebra de desconfiança e superstições, elevando os comensais camponeses não apenas fisicamente, mas espiritualmente. Hostilidades e disputas  antigas são esquecidas, amores antigos são reacendidos e uma redenção do humano se estabelece à mesa. Sentem-se todos eles privilegiados com a oportunidade daquela celebração, indizivelmente gratos por tal graça eucarística.

Após a revelação da verdadeira identidade de Babette, as irmãs assumem que ela irá agora voltar a Paris. Surpreendentemente ela informa que todo o seu dinheiro se foi e que ela não vai a lugar algum. As irmãs reagem perplexas, assustadas. Babette informa que aquele banquete no Café Anglais tem um custo de 10.000 francos. Em lágrimas, Martine comenta: "Agora você vai ser pobre o resto da vida!". Ao que Babette responde: "Um artista nunca é pobre".

“Estamos todos famintos e carentes”

Segundo a Psicanálise, pulsão é “o processo dinâmico que consiste numa pressão ou força que faz o organismo tender para um objetivo”. Segundo Freud, uma pulsão tem a sua fonte numa excitação corporal; o seu objetivo ou meta é suprimir o estado de tensão que reina na fonte pulsional; é no objeto ou graças a ele que a pulsão pode atingir a sua meta. No entendimento inicial freudiano, as pulsões de autoconservação deveriam ser situadas, já de início, do lado do princípio de realidade e as pulsões sexuais ao lado do princípio do prazer. Freud será levado a revisar este conceito posteriormente.

No livro Mulher 40 Graus à Sombra; reflexões sobre a Vida a partir dos 40 Anos, as autoras fazem um comentário sobre o jantar de Babette que considero interessante. Escolho citá-las pois são psicanalistas:

Babette, uma mulher de mais ou menos cinquenta anos […] não revelara a ninguém a sua habilidade: ‘transformar um jantar numa espécie de caso de amor, onde fosse impossível distinguir entre o apetite físico e o espiritual’. Dando o melhor de si, na expressão de sua arte, seduzia a todos que provasse de sua mágica comida.

Não era à toa que os velhinhos, A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) que tinham medo de felicidade, fissessem um pacto contra a bruxa Babette: comer como se nunca tivessem tido paladar.

O banquete começado; lentamente as manifestações de medo e desconfiança iniciais vão cedendo. Redescobrem o prazer, lambem os beiços e chupam os dedos. Velhos enamorados se reencontram através de olhares de cumplicidade e toques de carinho. Confissões e gestos reasseguram antigos sentimentos de amizade fraterna. E, assim, vão exorcizando culpas, traições e todas as mazelas e mumunhas que os mantinham em isolamento. Recuperam a capacidade de ouvir, falar, ver, sorrir, conviver… viver.

A julgar pela reação final das pessoas que curtiram a festa de Babette, num incontrolável apetite, há que suspeitar que estamos todos famintos e carentes, precisando resgatar sabores e valores.

O também psicanalista Rubem Alves, num artigo interessantíssimo, lança seu olhar perspicaz sobre Babette e sua arte de seduzir:

Quem pensa que a comida só faz matar a fome está redondamente enganado. Comer é muito perigoso. Porque quem cozinha é parente próximo das bruxas e dos magos. Cozinhar é feitiçaria, alquimia. E comer é ser enfeitiçado. Sabia disso Babette, artista que conhecia os segredos de produzir alegria pela comida. Ela sabia que, depois de comer, as pessoas não permanecem as mesmas. Coisas mágicas acontecem. […] De fato, a feitiçaria aconteceu: sopa de tartaruga, cailles au sarcophage, vinhos maravilhosos, o prazer amaciando os sentimentos e pensamentos, as durezas e rugas do corpo sendo alisadas pelo paladar, as máscaras caindo, os rostos endurecidos ficando bonitos pelo riso, in vino veritas… 

A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987) é um filme dinamarquês dirigido por Gabriel Axel, com roteiro baseado em conto de Isak Dinesen (pseudônimo de Karen Blixen), que já oferecera ao cinema a base do roteiro para o filme Entre dois amores (Out of Africa, 1985). O grande e bom elenco é fomado por Stéphane Audran, Bodil Kjer e Birgitte Federspiel, além de nomes como Jarl Kulle, Jean-Philippe Lafont e Vibeke Hastrup. Em 1988 o filme ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e colheu muitos outros prêmios importantes. Alguns bons destaques do filme são a trilha sonora por Per Nørgaard, a direção de arte de Sven Wichmann e a direção de fotografia por Henning Kristiansen.

Written by Paulo Amadeu

26/12/2011 at 12:16

Filme: Freud, Além da Alma

Freud: the Secret Passion, movie Montgomery Clift, que ao lado de Marlon Brando e James Dean, foi um dos melhores e mais intensos atores de sua geração, vive o pai da psicanálise. Sua entrega ao papel é absoluta, comovente, apesar de lhe ter custado caro. No filme de John Huston, Clift tem um dos seus maiores desempenhos. Freud, Além da Alma (Freud: the Secret Passion. EUA, 1962), retrata o médico austríaco que revolucionou o século 20. Susannah York, que interpreta a paciente Cecily Koertner, e Larry Parks, que interpreta o médico Joseph Breuer, realizam, ambos, um bom trabalho no filme. Para quem deseja uma melhor compreensão sobre as origens da psicanálise, o filme pode ser de boa contribuição. O drama de 140 minutos foi filmado em preto e branco, e no Brasil é comercializado com áudio em inglês e legendas em português. Recomendo.

Paulo Camargo, numa boa resenha publicada em setembro de 2009 no Caderno G da Gazeta do Povo (cf. aqui), escreveu sobre o filme:

Nem Huston nem o produtor Wolfgang Rainhardt tinham certeza de que Monty, como era chamado em Hollywood pelos amigos, teria estrutura emocional para encarar um papel tão complexo. Desde o grave acidente de carro que sofreu em 1956, no qual quase morreu e teve parte do rosto deformada, sua vida foi alterada. A propensão à bebida tornou-se compulsão. Então vieram remédios para dormir e outros psicotrópicos, além de um comportamento errático, inconstante.

Tudo levava a crer que Clift não daria conta do desafio, mas Huston, que já havia trabalhado com o ator em Os Desajustados (ao lado de Clark Gable e Marilyn Monroe), resolveu apostar em sua intuição: o atormentado galã de clássicos como Um Lugar ao Sol e A Um Passo da Eternidade era seu Freud. De certa forma, o cineasta tinha razão.

A ideia de contar no cinema a história do médico austríaco que revolucionou a psiquiatria surgiu quando Huston rodou um documentário sobre ex-combatentes da Segunda Guerra Mundial, mental e emocionalmente dilacerados por suas experiências no campo de batalha. Sem nada saber sobre Freud, o cineasta, um homem voluntarioso e explosivo, quando não cruel, decidiu levar às telas os experimentos que conduziram à fundação da psicanálise. Pediu ao escritor e filósofo Jean-Paul Sartre o roteiro, que lhe entregou um calhamaço de 1.500 páginas nas quais nada – homossexualidade, masturbação, incesto e outros temas poucos digeríveis – ficou de fora.

Freud: the Secret Passion, movieHuston, ao se deparar com o roteiro gigantesco de Sartre, surtou. Não se conformava, em sua total ignorância sobre Freud, que houvesse tanto sexo na história. Pediu cortes. O francês recusou-se a fazê-los. Mas o script foi reescrito mesmo assim, numa espécie de gambiarra por anos deplorada pelo filósofo, que se recusou a assinar a versão final.

Ainda assim, Freud, Além da Alma é um bom filme, ainda que irregular. Talvez porque Clift tenha se dado ao trabalho de ler a biografia assinada por Ernest Jones e conseguido compreender a complexidade do personagem, que no filme prova de suas próprias teorias, representado por vezes entre o real e o onírico. Huston, possivelmente também purgando traumas passados, fez do set um martírio para Clift, provocando e ironizando o ator, fazendo insinuações sobre sua homossexualidade e sua fragilidade emocional. Ao ponto de Brooks Clift, seu irmão, e a atriz Susannah York, com quem Monty contracena no longa, defenderem a tese de que a morte do ator, em 1966, foi consequência direta desse abuso – o astro faria apenas um filme depois de Freud: Talvez Seja Melhor Assim, concluído pouco antes de ele sucumbir a um ataque cardíaco fulminante.

Written by Paulo Amadeu

14/10/2010 at 14:30