L'itinérance

“Cinema: It is a ribbon of dreams.” (Orson Welles)

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Filme: Um Método Perigoso (A Dangerous Method, 2011)

(Atenção: spoiler)

A Dangerous Method, 2011, movie

Keira Knightley (Sabina Spielrein) e Michael Fassbender (Carl Jung) em “Um Método Perigoso” (A Dangerous Method, 2011)

Um Método Perigoso (A Dangerous Method, 2011) é um filme histórico, britânico, em consórcio que envolve também empresas alemãs, canadenses e suíças. O drama biográfico é dirigido pelo cineasta canadense David Cronenberg, conhecido por trabalhos como A Mosca (1986), Gêmeos; Mórbida Semelhança (1988), Crash; Estranhos Prazeres (1996) e Marcas da Violência (2005). O filme estreou em 2 de setembro de 2011 no Festival de Cinema de Veneza, recebendo destaque também em outros festivais posteriores.

Um Método Perigoso trata-se de um roteiro do premiado Christopher Hampton, ganhador do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado com Ligações Perigosas (1988) e que foi também indicado ao mesmo prêmio com Desejo e Reparação (2007). Hampton recorreu a uma peça de sua autoria, The Talking Cure (2002), que por sua vez se baseia no livro A Most Dangerous Method, de autoria de John Kerr, publicado em 1993. A partir da peça de Hampton, David Cronenberg arquitetou um filme admirável sobre as origens da Psicanálise.

O roteiro de Um Método Perigoso envolve cinco personagens, sendo os principais Carl Gustav Jung (1875-1961), o conhecido psiquiatra suíço fundador da Psicologia Analítica,  e Sabina Naftulovna Spielrein (1885-1942), judia russa que se tornou uma das primeiras psicanalistas, e que, inclusive, foi analista de Jean Piaget (1896-1980), renomado psicólogo suíço que dedicou-se ao estudo do desenvolvimento humano. Além de Jung e Spielrein, compõem o núcleo principal do filme: Sigmund Freud (1856-1939), fundador da Psicanálise, A Dangerous Method, 2011, movieEmma Rauschenbach Jung (1882-1955), escritora e também psicanalista, esposa de Jung, e Otto Gross (1877-1920), psicanalista austríaco, um dos primeiros discípulos dissidentes de Freud. Com várias ideias bastante revolucionárias, Gross propunha uma forma primitiva de antipsiquiatria e liberação sexual, e desenvolveu uma forma anarquista da chamada psicologia profunda (em alemão Tiefenpsychologie), em que rejeitava a necessidade civilizatória da repressão psicológica tal como a defendia Freud.

Boa parte da história de Um Método Perigoso recebeu anteriormente uma versão cinematográfica com Jornada da Alma (Prendimi L´Anima, 2003), através da lente do cineasta italiano Roberto Faenza. A história se passa antes da Primeira Guerra Mundial, mais precisamente num período de nove anos, a saber, entre 1904 e 1913. O foco é o tratamento terapêutico de Sabina Spielrein por Jung, que, na época, começava a utilizar a Psicanálise e era discípulo de Freud — este mantinha com Jung uma relação como a de pai e filho, tendo a expectativa de que o pupilo viesse a sucedê-lo. Naquele período a Psicanálise procurava a sua identidade científica e também o seu lugar social. O roteiro recorre amplamente às correspondências trocadas por Jung e Freud e ao próprio diário de Sabina Spielrein.

Proposital e característicamente, a maior parte do filme transcorre por meio de diálogos, a maioria deles em ambientes privativos, incluindo alguns em setting de análise. Os diálogos intensos envolvem todos os cinco personagens: Jung e Sabina, Jung e Freud, Jung e Emma, Jung e Gross (em que tratam de questões intensas na relação transferencial-contratransferencial, inclusive as fantasias sexuais na relação entre analista e paciente), Freud e Sabina, e, finalmente, Sabina e Emma.

A história é contada em cinco momentos:

A Dangerous Method, 2011, movieO primeiro momento tem início em 17 de agosto de 1904, com a chegada de Sabina Spielrein ao Hospital Psiquiátrico Burghölzli em Zurique, Suíça, onde Jung clinicava. A bonita jovem de dezenove anos, sofrendo muito, chega mergulhada num quadro emocionalmente caótico e deplorável, conduzida em um carro no qual é trazida à força. Sabina se torna paciente de Jung, passa pelos primeiros tratamentos, até tornar-se auxiliar do psiquiatra na clínica. Depois ingressa na universidade de Medicina.

Jung, depois de haver conhecido Emma por sete anos, casou-se com ela no ano anterior à chegada de Sabina em Zurique. O casal estava estabelecendo as bases de sua família. De família aristocrática e rica, Emma teve durante este período os primeiros de seus cinco filhos com Jung. Sentindo o crescente distanciamento do cônjuge, Emma nutria a esperança de que os filhos trouxessem de volta o brilho conjugal e o amor de seu marido.

“— Eu nunca serei uma médica!”
— Por quê não?”

O segundo momento tem início dois anos depois, em 3 de março de 1906, com a chegada de Jung e Emma em Viena, Áustria, quando conhecem Freud pessoalmente. Ali, Jung e Freud privam de um momento rico e de grande intimidade. Uma das sessões entre os dois durou treze horas. Um destaque desse segundo momento foi a chegada de Otto Gross a Zurique, a fim de passar por um tratamento com Jung. Dá-se, finalmente, a fuga de Gross da clínica, após exercer grande influência sobre Jung. Sob este impacto tem início a relação extraconjugal de Jung com Sabina. Outros destaques do período são a presença de Freud em Zurique, a correspondência entre Sabina e Freud, e o processo doloroso que impôs o fim do envolvimento amoroso entre Sabina e Jung, e a saída deste do hospital. Também a viagem de Freud e Jung aos Estados Unidos é marcante neste período; foi durante o trajeto de navio que a autoridade de Freud sobre Jung sofreu um significativo momento de desgaste.

“O prazer nunca é simples, como você sabe muito bem”.

O terceiro momento tem início em 25 de setembro de 1910, com a visita de Sabina ao novo local de trabalho de Jung. Após deixar o hospital, Jung enfrentara grandes dificuldades para encontrar novos pacientes, mas agora já estava com a agenda cheia novamente. Sabina trouxe a Jung a sua dissertação de conclusão de curso, na qual trabalharam juntos. Ambos continuavam envolvidos em evidentes afetos. Tendo Jung como mentor na dissertação, Sabina expõe algumas de suas primeiras conclusões teóricas mais significativas.

“As pessoas são assim. Se não lhes dissermos a verdade, quem o fará?”

A Dangerous Method, 2011, movie

O quarto momento se dá a partir de 17 de abril de 1912, em Viena, com Sabina diante de Freud, quando ela expõe algumas de suas conclusões acerca da sexualidade. Sabina graduara-se no ano anterior, quando também foi aceita como membro da Sociedade de Psicanálise de Viena. É neste período que as teorias freudianas e jungianas se estabelecem em distintos streams. Jung já declara suas convicções acerca dos mitos e dos arquétipos, e fica patente o desapontamento de Freud com seu antigo pupilo. Porém, na correspondência entre ambos, o método de Jung vai revelando sua maturidade e o relacionamento entre eles sofre formalmente uma ruptura.

“Suponho que deve haver um vínculo inquebrantável entre a morte e o sexo”.

O quinto e último momento tem como marco a data de 16 de julho de 1913. Às vésperas da Primeira Grande Guerra, Sabina, agora casada e grávida de um médico judeu russo, visita a residência da família Jung. Embora já houvessem se visto anteriormente, ela e Emma se conhecem formalmente e têm um diálogo sereno e afirmativo. Sabina também conhece os filhos de Jung. Emma pede a ajuda de Sabina, a fim de que seja analista de seu marido que atravessa momentos difíceis, mas esta informa sua decisão de dedicar-se à psicologia infantil. Sabina e Jung têm um sincero diálogo. Ele já estava envolvido com Antonia Anna "Toni" Wolff (1888-1953), uma jovem paciente, que tornou-se também analista jungiana. O momento final é emblemático. Num sentido oposto ao da primeira cena do filme, um carro sai da residência Jung, e nele está Sabina. Embora ainda sofrendo, a mesma mulher apresenta-se agora saudável, e seguirá posteriormente para a Rússia. Deixa para trás um psiquiatra maduro e circunspecto.

“Meu amor por ti foi o mais importante em minha vida”.

O filme é estrelado por Michael Fassbender (Carl Jung), Keira Knightley (Sabina Spielrein), Viggo Mortensen (Sigmund Freud), Sarah Gadon (Emma Jung) A Dangerous Method, 2011, moviee Vincent Cassel (Otto Gross). Christoph Waltz foi inicialmente escalado como Sigmund Freud, mas foi substituído por Viggo Mortensen devido a um conflito de agendas. Christian Bale esteve em negociações para interpretar Carl Jung, mas também precisou declinar pelo mesmo motivo. As filmagens começaram em 26 de maio e terminaram em 24 de julho de 2010, recorrendo a lugares e instalações em Viena, Zurique, Konstanz, Colônia e Berlim. O filme marca a terceira parceria consecutiva entre Cronenberg e Viggo Mortensen, e também o terceiro trabalho de Cronenberg com o produtor britânico Jeremy Thomas. A direção de fotografia é de Peter Suschitzky e a trilha sonora é assinada por Howard Shore. Este recorreu a algumas peças em piano, a fim de oferecer alguns transcursos plácidos de cena, e trabalhou com habilidade as transições. Um destaque durante o filme é A Valquíria (Die Walküre), a conhecida composição do alemão Richard Wagner, ópera preferida de Carl Jung e Sabina Spielrein. 

Em resenha publicada no último domingo — que cometo, abaixo, o sacrilégio de abrasileirar —, escreve João Lopes sobre a película de noventa e nove minutos:

David Cronenberg filma a relação Freud/Jung, não apenas como uma simples conjuntura de pensamento e pesquisa, mas também como uma paisagem de interrogações e perplexidades que transforma o nascimento da psicanálise num enorme desafio simbólico (…).

"Um Método Perigoso" é a prova real da dimensão singularmente intimista do cinema de Cronenberg, afinal desafiando as fronteiras convencionais do próprio fator humano. E tudo passa, em última instância, pela vibração dos atores: Viggo Mortensen compondo um Freud de sutil autoridade paterna; Michael Fassbender no papel de um Jung assombrado pela sua própria ousadia; enfim, Keira Knightley emprestando a Sabina a comoção de uma mulher capaz de superar os padrões masculinos (já vimos Oscars atribuídos por infinitamente menos…). Cf. aqui.

Written by Paulo Amadeu

16/10/2012 at 9:17

Filme: Meu Amigo Harvey

“Que maravilhosamente familiares são os loucos!”

(Herman Melville, 1819-1891)

Harvey, movie

Meu amigo Harvey (Harvey, 1950) é um excelente filme dirigido por Henry Koster. O ator James Stewart (1908-1997) é o protagonista, numa interpretação brilhante. O roteiro desta emocionante comédia, escrito por Mary Chase, vencedora do Prêmio Pulitzer, foi baseado em sua própria peça homônima. O filme já passou por três refilmagens (1972, 1985 e 1998).

Elwood P. Dowd, um afável e simpático homem de quarenta e dois anos, com uma boa renda e alguma excentricidade, que gosta de beber “ligeiramente acima da conta”, diz a todos que tem um amigo chamado Harvey. No entanto, ninguém consegue ver o tal amigo. Para complicar, ele diz que Harvey é um coelho de quase dois metros de altura. O coelho é um duende, na realidade — “realidade” é uma palavra relativa aqui, entenda… Elwood explica que Harvey é um “Púca”, uma criatura da mitologia céltica.

Toda essa histórica amizade de Dowd com Harvey leva ao desespero sua irmã Veta Louise e a sobrinha solteirona Myrtle. Ambas moram com ele e não conseguem manter amigos, pois todos acham que Elwood é louco. Com a vida social arrasada, e sem conseguir pretendentes para a filha, a irmã de Elwood tenta interná-lo em um manicômio. Porém, ao admitir que às vezes ela própria vê o coelho gigante, acaba sendo tomada por doente e é internada, enquanto Elwood passa por uma pessoa sã e o médico o deixa ir embora. Elwood continua sua amizade com Harvey, interagindo com todas as pessoas que encontra na ruHarvey, moviea ou no bar, até que um dia o Púca encontra outro amigo para acompanhar… Coisas hilariantes começam a acontecer. É a hora de Elwood consertar essa bagunça com sua generosa filosofia e seu amigo imaginário.

Se o leitor é profissional de alguma área psi, particularmente, este filme poderá lhe fazer muito bem. Uma pequena loucura para tornar a sua realidade suportável, como diria Proust.

Na edição do Oscar de 1951, Josephine Hull (1886-1957) foi premiada como melhor atriz coadjuvante por conta de sua excelente interpretação como Veta Louise Simmons, a irmã de Elwood. James Stewart foi indicado ao Oscar como melhor ator. Há um vídeo com o testemunho de Stewart acerca do filme. Acesse aqui uma fantástica cena. É quase impossível assistir a este filme e não se tornar fã de Stewart, que, com certeza, foi um dos maiores atores de todos os tempos.

“Impossível!” Será? Tanta coisa tida como “impossível” é possível neste mundo louco, não é verdade? Penso que, para terminar, nada melhor que uma genial citação de Fernando Pessoa:

A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana.
Não ter consciência dela, e ela não ser grande, é ser homem normal.
Não ter consciência dela e ela ser grande, é ser louco.
Ter consciência dela e ela ser pequena é ser desiludido.
Ter consciência dela e ela ser grande é ser gênio.

(PESSOA, Fernando. Aforismos e afins. Edição e prefácio Richard Zenith. Tradução Manuela Rocha. São Paulo: Cia das Letras, 2006. p.12.)

Written by Paulo Amadeu

20/01/2011 at 6:19

Filme: Freud, Além da Alma

Freud: the Secret Passion, movie Montgomery Clift, que ao lado de Marlon Brando e James Dean, foi um dos melhores e mais intensos atores de sua geração, vive o pai da psicanálise. Sua entrega ao papel é absoluta, comovente, apesar de lhe ter custado caro. No filme de John Huston, Clift tem um dos seus maiores desempenhos. Freud, Além da Alma (Freud: the Secret Passion. EUA, 1962), retrata o médico austríaco que revolucionou o século 20. Susannah York, que interpreta a paciente Cecily Koertner, e Larry Parks, que interpreta o médico Joseph Breuer, realizam, ambos, um bom trabalho no filme. Para quem deseja uma melhor compreensão sobre as origens da psicanálise, o filme pode ser de boa contribuição. O drama de 140 minutos foi filmado em preto e branco, e no Brasil é comercializado com áudio em inglês e legendas em português. Recomendo.

Paulo Camargo, numa boa resenha publicada em setembro de 2009 no Caderno G da Gazeta do Povo (cf. aqui), escreveu sobre o filme:

Nem Huston nem o produtor Wolfgang Rainhardt tinham certeza de que Monty, como era chamado em Hollywood pelos amigos, teria estrutura emocional para encarar um papel tão complexo. Desde o grave acidente de carro que sofreu em 1956, no qual quase morreu e teve parte do rosto deformada, sua vida foi alterada. A propensão à bebida tornou-se compulsão. Então vieram remédios para dormir e outros psicotrópicos, além de um comportamento errático, inconstante.

Tudo levava a crer que Clift não daria conta do desafio, mas Huston, que já havia trabalhado com o ator em Os Desajustados (ao lado de Clark Gable e Marilyn Monroe), resolveu apostar em sua intuição: o atormentado galã de clássicos como Um Lugar ao Sol e A Um Passo da Eternidade era seu Freud. De certa forma, o cineasta tinha razão.

A ideia de contar no cinema a história do médico austríaco que revolucionou a psiquiatria surgiu quando Huston rodou um documentário sobre ex-combatentes da Segunda Guerra Mundial, mental e emocionalmente dilacerados por suas experiências no campo de batalha. Sem nada saber sobre Freud, o cineasta, um homem voluntarioso e explosivo, quando não cruel, decidiu levar às telas os experimentos que conduziram à fundação da psicanálise. Pediu ao escritor e filósofo Jean-Paul Sartre o roteiro, que lhe entregou um calhamaço de 1.500 páginas nas quais nada – homossexualidade, masturbação, incesto e outros temas poucos digeríveis – ficou de fora.

Freud: the Secret Passion, movieHuston, ao se deparar com o roteiro gigantesco de Sartre, surtou. Não se conformava, em sua total ignorância sobre Freud, que houvesse tanto sexo na história. Pediu cortes. O francês recusou-se a fazê-los. Mas o script foi reescrito mesmo assim, numa espécie de gambiarra por anos deplorada pelo filósofo, que se recusou a assinar a versão final.

Ainda assim, Freud, Além da Alma é um bom filme, ainda que irregular. Talvez porque Clift tenha se dado ao trabalho de ler a biografia assinada por Ernest Jones e conseguido compreender a complexidade do personagem, que no filme prova de suas próprias teorias, representado por vezes entre o real e o onírico. Huston, possivelmente também purgando traumas passados, fez do set um martírio para Clift, provocando e ironizando o ator, fazendo insinuações sobre sua homossexualidade e sua fragilidade emocional. Ao ponto de Brooks Clift, seu irmão, e a atriz Susannah York, com quem Monty contracena no longa, defenderem a tese de que a morte do ator, em 1966, foi consequência direta desse abuso – o astro faria apenas um filme depois de Freud: Talvez Seja Melhor Assim, concluído pouco antes de ele sucumbir a um ataque cardíaco fulminante.

Written by Paulo Amadeu

14/10/2010 at 14:30

Filme: Jornada da Alma (Prendimi L´Anima, 2002)

Prendimi L'AnimaA primeira vez que assisti ao filme Jornada da Alma foi no final de março de 2009, em Serra Negra, na Mantiqueira paulista. Assistir a esse formidável filme, naquele lugar tão especial, foi algo muitíssimo marcante… Assisti-o junto à pessoa que me presenteou o DVD, e que também partilha de igual interesse pela temática abordada: o tratamento terapêutico de Sabina Spielrein pelo Dr. Carl Gustav Jung, que, na época, começava a utilizar o tratamento piscanalítico e era discípulo de Freud. A história de Sabina Spielrein é vista através da lente do cineasta italiano Roberto Faenza (“Página da Revolução”). Faenza se baseou nas correspondências trocadas por Jung e Freud (que na época tinham uma relação como pai e filho), e no próprio diário de Sabina Spielrein.

Em 1904, Sabina, uma jovem russa de dezenove anos, é levada por seus pais para o Hospital Psiquiátrico de Burghölzli, em Zurique, onde Jung, recém nomeado primeiro assistente do Dr. Eugene Bleuler, faz seus primeiros experimentos com o método de associação de palavras e repudia veementemPrendimi L'Animaente os procedimentos arcaicos da psiquiatria. A cura de Sabina vem acompanhada de um relacionamento amoroso com Jung. Após alguns anos ela volta à Rússia, tornando-se também psicanalista e montando a primeira creche a usar noções de psicanálise para crianças. Década após sua morte, Sabina teve sua trajetória resgatada por dois pesquisadores.

A segunda parte do filme concentra-se, assim, na vida profissional de Sabina, que tentou introduzir novas técnicas de educação infantil na Rússia leninista. Através de flashback vamos sabendo como a diretora da Escola Branca logrou, após inúmeras tentativas, desatar os dedos de uma criança e provocar seu sorriso. O menino era o próprio narrador do filme. A seguir, fica patente a transformação ocorrida quando Stalin assumiu o governo: o início do terror, da repressão em último grau, das perseguições e assassinatos em massa. Um retrato histórico interessante de uma época cruel. Em meio a tudo isso, a tentativa de Sabina em desenvolver suas teorias, até o desfecho inevitável.

Jornada da Alma, obviamente, contribui para uma interação com a história da Psicanálise e do uso de suas técnicas. Pode ainda ser de particular interesse para algumas considerações sobre as origens da Psicologia Analítica junguiana — Carl Gustav Jung é um dos nomes mais importantes na História da Psicologia. O encontro de Sabina e Jung perpetua a incógnita da transferência e contratransferência e sua significativa importância no processo de cura, sempre presente nas discussões em psicanálise. Muito do filme é ambientado no “manicômio”, e as cenas no hospital de saúde mental são bastante fortes. É aterrador observar como eram tratadas as pessoas em sanatórios, em condições bastante indignas, e sem levar em conta a gênese da condição que as levou àquele estado. É quase inacreditável que tal realidade ainda faça parte de nosso contexto atual. Ainda assim, não deixa de ser encorajador observar como a Psicologia avançou em tão curto espaço de tempo.

Prendimi L’Anima é um drama com duração de 89 minutos, lançado na França em 2003. Constam da ficha técnica seis roteiristas. O trio de artistas principais é formado por Iain Glen (que interpreta Jung), Emilia Fox e Caroline Ducey. Destaque-se o bom trabalho de Andréa Guerra, responsável pela música do filme e para Emília Fox (“O Pianista”) no papel da protagonista. Fox consegue transmitir todas as inquietudes, medos, alucinações e delírios que afligiam Spielrein.

Written by Paulo Amadeu

14/10/2010 at 14:26

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Filme: O Psicólogo; O Doutor Está Fora (Shrink)

Shrink, movie

Assisti recentemente a um filme cujo título em inglês é Shrink. Para o uso em questão, esta palavra é uma gíria. Na tradução para o português, tanto psychiatrist quanto shrink são geral e igualmente traduzidos por “psiquiatra”. Entretanto, é inestimável a perda, na tradução para o português, da especificidade semântica de shrink – to shrink, em inglês, significa “encolher”. A partir dos anos sessenta, nos Estados Unidos, a gíria headshrinker, gradualmente simplificada para shrinker e, depois, para shrink, passou a ser usada para nomear os psiquiatras e, logo, por extensão, psicanalistas e psicoterapeutas em geral. Headshrinkers – encolhedores de cabeça – é expressão classicamente aplicada aos silvícolas que, ao vencer seus inimigos, cortam-lhes as cabeças e diligentemente as encolhem, pondo-as em seguida a decorar a entrada de suas tendas e em locais sagrados.

Por que, entretanto, à psicoterapia em geral coube a gíria shrink? Se considerarmos a etimologia, isto implica dizer que a terapia "encolhe" a cabeça. Porém, não seria o contrário? Não seria “expandir” a cabeça? O fato é que, para o senso comum anglo-saxônico, nós carregamos coisas demais, gerando neuroses. Quando estamos com a mente desorganizada, e procuramos um terapeuta, estamos buscando um rearranjo, uma compactação, uma reorganização assessorada por profissional especializado. Em suma, estamos à procura de um "encolhimento", de uma reacomodação mais funcional, de um "shrink". Daí a gíria. A correlação de idéia é: shrink-encolher-analisar-reorganizar.

No filme que assisti, o shrink chamava-se Henry Carter, muito bem interpretado por Kevin Spacey. O Dr. Henry Carter é um conhecido psicólogo de celebridades em Hollywood, lugar onde cresceu e se estabeleceu. Ele é o autor de alguns best-sellers, incluindo um livro sobre a felicidade, que agora está gravando como um audiobook. Neste livro de sucesso, Carter oferece, por assim dizer, a sua receita de felicidade. Entretanto, ele nos é apresentado de uma forma bastante incômoda, pois tem vivido sob o signo do suicídio da esposa. Embora tenha uma rica e confortável residência, cheio de conflitos em sua vida particular, ele não dorme em sua antiga e bonita cama de casal; uma cena comum é a dele esticado em algum sofá, cadeira, divã, etc. Apesar de ter muitas pessoas que se preocupam sinceramente com ele (como é o caso do seu pai), o companheiro mais presente na vida do psicólogo é um cão. O viúvo solitário, sem filhos, amargurado, fumante inveterado, companheiro de uma garrafa de bebida, ainda é apresentado optando  por variedades de maconha adequadas ao seu estado de espírito do momento… Aliás, um aspecto saliente no filme é a droga, que rola solta, aos borbotões! Drogas em geral, incluindo o álcool.

Shrink, movie O “Psicólogo das Estrelas”, que faz uso de automedicação e fuma “baseados", atende em seu consultório pessoas influentes em Hollywood – que, com certeza, não é o lugar mais emocionalmente saudável do mundo. Como um bom psicólogo de escola norte-americana, Carter é especialista em fazer as perguntas certas. Assim, tendo o terapeuta como centro unificador, o filme vai nos apresentando os clientes de Carter em suas rotinas. Pouco a pouco, tanto no consultório quanto fora dele, vamos nos envolvendo com os pacientes em suas neuroses, seus dilemas e infortúnios, seus tédios e angústias, seus dramas existenciais, seus vícios e seu vocabulário caótico – no filme, o vocabulário em inglês não é exatamente o mais delicado e polido.

Na lista de clientes do Dr. Henry Carter estão: uma famosa atriz, Kate Amberson; Jeremy, um jovem escritor descontrolado e inseguro; Patrick, um produtor obsessivo complusivo, entre outros. Cada um com a sua paranóia, seus problemas e seus medos… Desiludido com sua carreira e vida pessoal, a ponto de, surtando, declarar-se numa entrevista televisiva que era uma fraude, um momento significativo na vida de Carter se dá quando seu pai encaminha para ele o primeiro caso fora das celebridades. Trata-se de Jemma, uma garota problemática, que também está vivendo sob o signo da morte da mãe. Considerando o seu atual estado de espírito, Henry estará pronto para os problemas da vida real de alguém que vive longe das colinas de Hollywood?

Shrink (O Psicólogo; O Doutor Está Fora) retrata uma sociedade enferma e a situação em que a vida perdeu o sentido. A sinopse traz uma frase que penso retratar bem o roteiro: “um filme sobre a coragem para alcançar a felicidade… até mesmo em Hollywood”. O desfecho do filme é, entretanto, bastante convencional, pra dizer o mínimo: uma mesa de reunião em que se discute um novo filme, Jemma joga fora todos os bilhetes de sessões de cinema reunidos ao longo do tempo, Carter se deita finalmente em sua antiga cama de casal, e a vida recomeça com as possibilidades de um novo amor. Deste modo, o filme termina com um shrink, um “encolhimento”.

Infelizmente, o filme não contribui positivamente para a imagem social do shrink, ainda mais no Brasil, onde o profissional psicólogo já sofre com uma representação social bem desgastada e cercada de muitos preconceitos. Algumas relevantes questões éticas são trivializadas e estereótipos são ainda mais reforçados. Não cabe aqui analisá-los – este aspecto, entretanto, pode ser objeto de consideração dentro das esferas psi propriamente.

O Psicólogo; O Doutor Está Fora é caracterizado por um elenco afinadíssimo. Kevin Spacey tem um desempenho muito bom, e nomes consagrados em Hollywood interpretam os clientes do psicólogo. Entre os coadjuvantes mais renomados temos Mark Webber (Jeremy), Saffron Burrows (Kate Amberson), Dallas Roberts (Patrick), e um destaque para a boa atuação do já maduro Robin Williams (Holden). Dirigido por Jonas Pate, o drama foi lançado nos Estados Unidos em 2009, tem duração de 104 minutos, e no Brasil recebeu a classificação indicativa de dezesseis anos.

Written by Paulo Amadeu

06/08/2010 at 14:12

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Filme: A natureza quase humana (Human Nature)

Human Nature movie

O filósofo e sociólogo norte-americano George Mead (1863-1931), em sua teoria sobre a formação do Self, diz, em resumo, que sem o contato com o outro não pode haver o desenvolvimento do Self. Este, segundo Mead, tem uma fundamentação social. Roma jamais teria sido fundada por Rômulo e Remo, e Tarzan e Mogli jamais seriam o que “foram” se tivessem tido contato apenas com os animais da floresta.

Ontem assisti ao filme A natureza quase humana (Human Nature). Este é interessante para uma introdução a alguns embates atuais em Psicologia. O diretor francês Michel Gondry definiu o seu primeiro longa-metragem da seguinte maneira: “Uma comédia sobre como, frequentemente, é errado ser você mesmo. Sobre o que fazemos para nos tornar agradáveis aos olhos dos outros".  A obra foi escrita por Charlie Kaufman, o mesmo roteirista de Quero ser John Malkovich, dirigido por Spike Jonze, em 1999, entre outros filmes. Jonze, aliás, foi o responsável por apresentar Gondry ao escritor, antes mesmo de Malkovich ter sido concluído. Kaufman é também roteirista do filme Confissões de uma mente perigosa dirigido e estrelado por George Clooney.

A natureza quase humana é uma sátira que brinca com os conceitos do "homem selvagem" e da "sociedade civilizada". Puff (Rhys Ifans) nasceu e cresceu entre animais, desconhecendo qualquer forma de civilização. Descoberto pelo Dr. Nathan Bronfman (Tim Robbins), ele é levado a um laboratório para ser estudado. Lá Nathan tenta domesticá-lo e, em especial, conter sua excitação sexual. Lila Jute (Patricia Arquette), a esposa de Nathan, tenta proteger o lado simples de Puff. Só que ela tem um problema hormonal que faz com que seu corpo seja coberto de pêlos, o que atrai a atenção de seu protegido. A vida desses três se cruzará em uma história bizarra. O filme todo é marcado por alguns flashbacks nas vidas dos três protagonistas. É claro que tal história não pode acabar bem. Pessoas tão diferentes assim, vivendo juntas, não poderia dar em boa coisa.

Human Nature é uma comédia de um pouco mais de uma hora e meia, lançada na França e nos Estados Unidos em 2001. Rhys Ifans parece tem sido uma boa escolha para o personagem central da sátira, e tem um desempenho convincente. Patricia Arquette e Tim Robbins não ficam atrás. O espectador é premiado com algumas gargalhadas. Para o público envolvido na área Psi o filme oferece algumas provocações interessantes, talvez alheadas pelo público em geral.

A natureza quase humana trabalha sempre com ideias e conceitos opostos, como natureza e sociedade, instinto e censura, grotesco e belo, mas não de maneira convencional e maniqueísta. Ao contrário, aqui o mundo é o que é, trágico, engraçado, misturado: ao mesmo tempo, complexo e simples – afinal, basta jogar o jogo… desde que se saiba suas regras (Cf. resenha online, aqui).

Written by Paulo Amadeu

22/05/2010 at 9:32

Filme: O Amor Acontece (Love Happens)

Love Happens, movie

“Medice, cura te ipsum” é um provérbio citado por Cristo no evangelho de São Lucas, na tradução da Vulgata Latina. “Médico, cura-te a ti mesmo” diz-se dos que dão conselhos aos outros sem saber cuidar de si mesmos. Associando-se a este provérbio um outro no qual se diz que “o bom médico é aquele em quem o paciente confia”, teremos aí um quadro interessante: a situação em que estejam presentes a confiança do paciente, a hipocrisia do médico e a cura.

Hoje em dia os livros de autoajuda se multiplicam. As prateleiras estão cheias de best-sellers de renomados autores de autoajuda. “Oito receitas para isso”… “Quatro passos para aquilo”… “Como alcançar isso em trinta dias…” “Quinze degraus para aquilo outro”, etc.. Há alguns bons motivos para se suspeitar dessas receitas mágicas. Os livros de autoajuda não gozam de muito boa reputação em algumas classes e consultórios psicológicos. Entretanto, estes manuais são muito populares, como o provam as estatísticas editoriais.

Psicólogos e terapeutas referendados logo compreendem que aquilo que mais dói não é a dor física. De fato, o senso comum também comunica esta lição todos os dias, mas não pense que ela é assim tão facilmente aprendida. Não é fácil ser aprendida porque não é fácil de ser enfrentada. Talvez com mais facilidade um homem abra o peito para uma cirurgia cardíaca do que abra o coração para expor as feridas da alma.

O que mais dói é a culpa! Rubens Alves, que além de educador é também psicanalista, escreve que na solidão, longe dos falatórios das tavernas, tímidas imagens que moram em nossas funduras começam a sair das cavernas onde haviam se escondido. Na solidão elas nos falam sobre a nossa verdade, coisas que ninguém mais sabe”. E neste ponto não tem jeito: É preciso dar os nomes reais aos bois. É preciso chamar as coisas pelos nomes que você já deu a elas, mas não quer pronunciar em voz alta. Chamá-las pelos seus verdadeiros nomes. “Os maus espíritos a gente os espanta chamando-os pelo seu nome real”. Não adianta fazer de conta que eles não existem.

Ontem à noite fui ao cinema com uma pessoa muito importante em minha vida. E só isso já valeu a pena! Assistimos na grande tela um filme que escolhemos no menu oferecido na portaria, embora já tivéssemos uma pré-seleção entre três películas. No roteiro que escolhemos, o viúvo Burke Ryan (Aaron Eckhart) escreveu um livro sobre como lidar com perdas, e como se tornou um best-seller, Ryan se transformou num guru da autoajuda. Numa viagem de negócios a Seattle, ele conhece Eloise Chandler (Jennifer Aniston) e se apaixona por ela. Eloise consegue compreender que na verdade Ryan não conseguiu ainda enfrentar a morte da esposa. Já nos primeiros momentos do filme a gente vai percebendo os aspectos sindrômicos manifestos por Ryan, e somos capazes de perceber que há algo muito errado: uma incoerência entre a sua aparência e seu discurso públicos, por um lado, e a sua intimidade, a sua verdade, por outro.

O Amor Acontece (Love Happens) consegue ser mais um daqueles títulos infelizes com que Hollywood etiqueta alguns dos seus produtos. Lançado em 2009, este drama romanceado com duração de 109 minutos estreou no Brasil há cinco dias, e tem a direção de Brandon Camp. Uma boa ambientação em Seattle torna o filme bem atraente, uma vez que esta é considerada por alguns a mais formidável cidade da Costa Oeste americana. Há controvérsias neste ponto, mas pouca discussão haverá acerca de que, neste filme, a fotografia de Seattle contribui imensamente. Há bons momentos na trilha sonora, embora nada de excepcional.

Visto sob alguns critérios mais rígidos, o filme pode parecer meio clichê. Talvez seja. Entretanto, por aquilo que escrevi acima o filme já tem seu lugar. O roteiro toca num ponto bem saliente de nossa cultura aparente, onde as receitas de sucesso e de autoajuda se multiplicam. A frase final do filme é: "Quando uma coisa acaba, outra começa". Jennifer Aniston e Aaron Eckhart estão bem convincentes, com o perdão daqueles que não são fãs dela. Tenho gostado do que tenho visto até aqui com a interpretação de Aniston, e a considero uma mulher bonita e expressiva. Se você pensa diferente, paciência.

Se for assistir ao filme não vá com a sua moldura de romance já montada. Seria preferível buscar um drama um tanto quanto camuflado, digamos assim, e situar o romance dentro deste contexto. Penso que se você o fizer terá captado o lugar deste filme. Ou seja, deixe o Love Happens para a porta de saída.

Se o que mais dói é a culpa, parece mesmo não haver remédio sem que o doente seja, de alguma maneira e em alguma medida (atente para isso), seu próprio médico. Medice, cura te ipsum. Mas não há dúvida: é muito bom quando se encontra um cúmplice.

Written by Paulo Amadeu

10/03/2010 at 17:36

Publicado em Close-up

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