L'itinérance

“Cinema: It is a ribbon of dreams.” (Orson Welles)

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Filme: A Carta (The Letter, 1940)

“A Carta” (The Letter, 1940)

Bette Davis e Herbert Marshall em “A Carta” (The Letter, 1940)

Assisti recentemente ao filme A Carta (The Letter, 1940). Nos gêneros drama e suspense, trata-se de um bom noir conduzido por William Wyler. O roteiro é baseado em uma peça homônima de W. Somerset Maugham, autor dos clássicos Servidão Humana, O Fio da Navalha e O Véu Pintado. Publicado por Maugham em 1927, A Carta já recebera uma versão para o cinema em 1929.

A história se passa em uma plantação de borracha na colônia britânica da Malásia. Em uma cena chocante e memorável, numa noite de lua cheia, uma esposa carinhosa e aparentemente fiel e honrada, mata um homem à sua porta, disparando contra ele vários tiros. Ela alega ter sido em legítima defesa, e tudo parece resultar esclarecido. Mas o aparecimento de uma misteriosa carta agita o enredo. Esta carta será apresentada em tribunal durante o julgamento do caso.

Envolvendo-nos com boa fotografia e com a trilha sonora de Max Steiner, o filme de Wyler nos introduz no contexto dramático de um relacionamento extraconjugal. Em um momento do enredo, alguém verbaliza a exclamação: “É estranho um homem viver com uma mulher durante dez anos e não saber nada sobre ela”. Pode parecer “estranho”, mas não é tão incomum assim quanto possa parecer a alguns. Encarnada em cena com o brilhantismo de Bette Davis, a obra de Maugham apenas ressalta in extremis tal realidade. Em Psicanálise sabe-se bem que pouca coisa é ao mesmo tempo tão desejável e rejeitada quanto relacionar-se com alguém que nos conhece. Em geral, os nossos relacionamentos são com pessoas que não nos conhecem pelo que somos, mas pelo que fazemos, e que nos desejam não necessariamente porque nos conhecem, mas sim porque nos julgam úteis. Diante de tais pessoas, é natural procurarmos esconder aquilo que sabemos que poderia macular a imagem que queremos que tenham de nós.

Entre os bons dramas conduzidos por Wyler com grande densidade psicológica, A Carta é um que não deve passar ignorado. A produção foi indicada ao Oscar em sete categorias, entre as quais se incluem as de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz (Bette Davis) e Melhor Trilha Sonora Original (Max Steiner).

Written by Paulo Amadeu

01/11/2012 at 9:09

Filme: O Véu Pintado (O Despertar de uma Paixão; The Painted Veil)

The Painted Veil, movie William Somerset Maugham (1874-1965) foi um famoso romancista e dramaturgo britânico, muito cultuado no início do século passado. Ele é o autor dos clássicos Servidão Humana e O Fio da Navalha. Outra obra muito celebrada é The Painted Veil (O Véu Pintado), que já rendeu três produções cinematográficas. Esta obra traz um enredo fascinante, até perturbador, com a maestria que Maughan conseguia alcançar ao explorar os limites da alma humana. Escrito em 1925, e apesar de fortemente localizado naquele tempo, o livro dá a impressão de que a história é atemporal por conta da atualidade dos temas propostos. A primeira versão para o cinema surgiu em 1934, estrelada pela diva Greta Garbo; a segunda em 1957, recebeu o título de The Seventh Sin, tendo Eleanor Parker no papel principal. A mais recente versão para o cinema (em Portugal, "O Véu Pintado"; no Brasil, "O despertar de uma paixão") é uma co-produção cinematográfica dos Estados Unidos da América e da China, de 2006, filmada em Guilin, na região chinesa de Guangxi. Estrelado e produzido por Edward Norton e Naomi Watts, o filme recebeu no Brasil um título que não ajuda, fazendo parecer que o longa-metragem de John Curran é meramente mais um telefilme meloso.

Em O Véu Pintado somos transportados para o magnífico e misterioso interior da China na terceira década do século passado. A obra trata de temas universais como amor e redenção e vem mexendo com a cabeça das pessoas há mais de oitenta anos. Como o cinema tem uma linguagem diferente da literatura, não raramente as imagens do filme pecam por carência de detalhes; o contrário igualmente acontece, pois há ocasiões em que a imagem retrata muito mais realisticamente que a palavra. Nesta obra Maughan narra os encontros e desencontros do jovem casal formado por Walter Fane (Edward Norton), um tímido e reservado bacteriologista de classe média alta, e pela jovem rica Kitty (Naomi Watts). O casal se conhece em Londres. Kitty, que viu no casamento a chance perfeita para sair de baixo da asa de sua mãe, rápida e convenientemente se casa com Walter, e ambos iniciam uma história sofrida, que envolve amor, traição e vingança. Kitty Fane é apresentada inicialmente como uma personagem frívola, voluntariosa, hedonista e egocêntrica – como já se tem salientado, o espectro de uma gata, como o seu nome denuncia.

The Painted Veil, movieO drama ganha ares exóticos com a mudança dos recém-casados para a efervescente Xangai, na China. Entediada com o casamento e com a personalidade do marido, Kitty tem um caso extraconjugal com Charles Townsend (Liev Schreiber), um outro britânico que trabalhava na cidade. A paixão instantânea que Kitty sente por Charles é perfeitamente compreensível. Enquanto seu marido era um homem reservado e de poucas palavras, Charles, durante uma apresentação teatral dos costumes chineses, usou magistralmente as palavras certas para resumir a vida e os sentimentos de Kitty. Nesse momento, ela percebeu que poderia ter alguém que a entendesse. A palavra é a matéria prima dos relacionamentos mais profundos, embora no caso de Charles Townsend ela não estivesse ancorada numa personalidade genuinamente admirável. O fato é que a habilidade de Charles com as palavras, e sua sensibilidade para perceber o contexto e os sentimentos de Kitty, fazem com que o adultério não pareça tão condenável aos olhos do espectador.

Ao saber que a esposa o traía impiedosamente, Walter percebe o erro que cometera ao se casar com ela. Ele oferece duas opções à esposa infiel: juntar-se a ele em uma viagem ao interior da China e depois ele assina sua separação, ou receber o divórcio taxada como adúltera. Kitty, a jovem mimada da burguesia inglesa, aceita ir com o marido a fim de evitar um escândalo proporcionado pelo divórcio e, também, porque não encontrou em Charles Townsend o apoio necessário. Assim, como vingança, Walter mostra a sua mágoa “condenando” a esposa a mudar-se com ele para uma cidade bem distante da metrópole chinesa, devastada por uma epidemia de cólera. No pano de fundo desta viagem está o colonialismo que o Ocidente impõe sobre os outros países.

Aos poucos, Walter percebe que tem muito pouco em comum com sua fútil esposa. Tornam-se, assim, um casal imperfeito, unido por conveniências e por muito pouco amor. No princípio podemos ver o prazer que ele sentia ao levar a esposa para um lugar de onde dificilmente sairia viva. Como forma de punir o comportamento de Kitty, Walter escondeu dela a existência de vacinas e escolheu o caminho mais árduo para a viagem. Assustava Kitty a idéia de ir a um lugar onde provavelmente morreria, porém, o tédio do local e o comportamento do marido – ele passou a ignorar a sua existência e a tratá-la friamente – fazem com que a idéia da morte passe a ser uma esperança para ela, um momento de redenção. No interior, o bacteriologista Fane acaba tendo de lutar contra a doença que historicamente vitimou, de forma trágica, milhões de pessoas na região. A epidemia de cólera transformou o local numa terra de mortos-vivos. A própria casa em que vão morar acabara de ser desocupada por uma família inteira de missionários que sucumbiu à doença. Em meio à miséria humana e ao horror da peste, Kitty Fane encontra um novo sentido para a sua vida e acaba até encontrando um novo caminho para o casamento. O local deixa de representar a certeza da morte e passa a representar o início de uma nova vida. É no remoto vilarejo chinês tomado pela cólera que eles vão descobrir o melhor de si próprios e o melhor do outro. Nesse ponto o filme torna-se uma bela história de amor, à medida em que ambos conhecem melhor a cultura local, descobrem mais sobre eles mesmos e o relacionamento… Até que o destino reserva ao casal a pior das circunstâncias.

The Painted Veil, movie“Por vezes, a maior viagem é a distância entre duas pessoas”, salientam pertinentemente algumas sinopses. Não obstante, O Véu Pintado trata-se muito mais da jornada de autoconhecimento de uma mulher do que, como tem sido salientado, da história de um casal e a distância que havia entre os cônjuges. O final do filme deixa uma questão em aberto, isto é, a paternidade do filho de Kitty. Àquela altura isso já não importava tanto, e Kitty não precisava saber quem era o pai. Ela acaba escolhendo quem ela prefere que seja. O filme mostra muito bem o caráter dos principais personagens, que, como seres humanos normais, têm suas qualidades e falhas. O clima que sentimos no decorrer da história é poético, apesar da pobreza e das desgraças reinantes no vilarejo. Aliás, é exatamente no vilarejo do cólera onde acontecem as cenas mais bonitas do filme.

O longa-metragem conta com duas estrelas de renome. Naomi Watts está muito bem, em uma interpretação corretísima para uma personagem que exige grande dedicação. Edward Norton mostra-nos mais uma vez “o contraste entre a crueldade absoluta e a afetividade pura”, numa simplicidade marcante. Toby Jones interpreta Waddington, comissário representante da ilha na qual Kitty e Walter vão morar. Em O Véu Pintado Jones  demonstra mais uma vez ser um grande e talentoso intérprete. No papel da Madre Superiora vemos Diana Rigg, que foi uma Bond girl dos anos sessenta, e que na televisão ficou célebre na série "Os Vingadores". O trabalho do diretor de fotografia, Stuart Dryburgh, é muito bonito.  Ele foi o responsável, por exemplo, pela fotografia de O Piano. O  Véu Pintado é uma bela e bem contada história, com excelente ambientação de época, dirigida com competência por John Curran, que em 2004 dirigiu Tentação. Trata-se indubitavelmente de uma história encantadora mas realista de crescimento pessoal e afetivo, e que consegue cativar-nos profundamente. No início do filme temos vários flashbacks, numa sucessão de avanços e recuos que imprimem movimento a um desenrolar originalmente lento, conquanto não enfadonho. A história flui com naturalidade, e até esquecemos que são mais de duas horas de duração.

O projeto do filme era algo que estava engavetado na prateleira de Edward Norton desde 1999, quando decidiu assumi-lo como produtor. Em 2001, Naomi Watts entrou para a equipe também como produtora e protagonista. Norton foi um dos responsáveis por convencer Watts a fazer parte da produção. Sem grande sucesso na hora de conseguir financiamento, eles mantiveram o projeto em stand by até 2003, quando encontraram uma produtora em condições de financiar seu projeto. The Painted Veil foi lançado no final de 2006 em circuito restrito nas cidades de Los Angeles e Nova York. A crítica americana, em geral, apreciou, apostando que a produção colheria alguma estatueta do Oscar, o que não aconteceu, todavia.

A grande trilha sonora de Alexandre Desplat acabou vencendo o Globo de Ouro da categoria – um dos poucos prêmios importantes que a produção conseguiu recolher. O compositor já fora indicado anteriormente para diversos prêmios por seus trabalhos.  A cena final do filme é ornada por uma singela música infantil francesa, "À la clair fountaine".

Written by Paulo Amadeu

30/07/2010 at 14:53